No âmbito do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, assinalado a 1 de dezembro, profissionais médicos, associações e doentes falam um pouco desta epidemia, que passou de uma infeção grave e mortal para uma doença que reclama agora o estatuto de crónica.
Com uma incidência de mil novos casos por ano em Portugal, dos quais 60% são de transmissão heterossexual, o VIH/SIDA continua a ser, apesar do avanço da ciência, uma epidemia que deve, acima de tudo, ser prevenida.
Em 30 de novembro de 2012 estavam notificados 42.448 casos de infeção por VIH, sendo que 43,5% correspondiam a transmissão heterossexual e 13,8% à categoria de transmissão homo/bissexual, 37,9% diziam respeito a utilizadores de drogas intravenosas e em 0,8% dos casos a transmissão foi de mãe para filho. Nessa altura, estavam declarados 17.337 casos de SIDA, o que representa 40,8% dos casos de infeção por VIH.
De acordo com o Prof. Rui Sarmento e Castro, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da SIDA, as campanhas de educação para a saúde são muito importantes e devem realizar-se com alguma frequência. “Já fizemos muitas e foram produtivas. Contudo, e porque a infeção passou a ser crónica, abrandámos um pouco essas ações de informação”, refere. E exclama: “Agora, só se fala nos meios de comunicação social sobre a doença a propósito do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, porém, é preciso abordá-la mais e alertar para este problema.”
Prevenção é, sem dúvida, a palavra-chave e é importante que todos estejamos informados acerca da doença, das suas consequências e das formas de a evitar.
“Muitas pessoas pensam que, por existirem agora medicamentos para a SIDA, podem correr riscos, ter um comportamento mais promíscuo e depois tomar os comprimidos. Isto é totalmente errado, porque nem sempre os fármacos resolvem os problemas”, indica Rui Sarmento e Castro.
Antirretrovíricos custam a Portugal cerca de 200 milhões de euros
Os números são, de facto, elevados, tendo algum impacto tanto a nível económico como social. “Os medicamentos antirretrovíricos custam a Portugal mais de 200 milhões de euros, representando uma fatia importante dos orçamentos dos hospitais que tratam estes doentes”, afirma Rui Sarmento e Castro.
E desenvolve: “No entanto, podemos dizer que o investimento nesta área é dos mais custo-efetivos. Isto porque passámos de uma infeção aguda e mortal para crónica com outra qualidade de vida e em que os doentes sobrevivem muito tempo.”
Do ponto de vista social, este investimento permite que, ao terem qualidade de vida, os doentes possam continuar a trabalhar. Além disso, estamos também a diminuir a transmissão, tanto por via sexual como por via da toxicodependência.
“Reduzimos há muitos anos, ou praticamente resolvemos, o problema das transmissões pelas transfusões de sangue e diminuímos muito a transmissão de mãe para filho”, explica, defendendo ser importante que se insista agora nos rastreios mais generalizados. “Sabemos que se rastrearmos pelo menos grupos de pessoas, onde pensamos que possa haver infeção pelo VIH, e começarmos a tratá-las mais cedo, será melhor para os infetados e também para reduzir a cadeia de transmissão do vírus.”
Quando questionado acerca do benefício da realização de um rastreio generalizado para o VIH em Portugal, o Dr. Eugénio Teófilo, do Serviço de Medicina Interna do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, afirma que é de todo o interesse detetar as pessoas infetadas o mais cedo possível.
“Atualmente, preconiza-se o início mais precoce do tratamento, de modo a que os doentes possam beneficiar de todo o seu potencial”, explica, mencionando que, “infelizmente, quando fazem o teste, muitas pessoas já estão doentes ou têm as defesas do sistema imunitário muito deterioradas”.
Por outro lado, o especialista nota que, em termos de Saúde Pública, é também importante detetar precocemente as pessoas infetadas, de forma a reforçar as medidas de prevenção e a impedir novas infeções.
Mas como são feitos os testes VIH/SIDA?
Existem vários tipos de testes para o VIH. A maioria efetua-se com sangue, mas alguns podem realizar-se com saliva. Segundo Eugénio Teófilo, qualquer médico pode pedir esses testes. Contudo, habitualmente, as pessoas sentem-se mais confortáveis se o fizerem num local em que não sejam conhecidas, sendo os Centros de Aconselhamento e Deteção Precoce VIH (CAD) uma boa opção para quem deseja fazer o teste anonimamente.
Segundo o médico, quando há infeção por VIH, o organismo produz anticorpos contra o vírus, que não são capazes de o eliminar. Os testes que se efetuavam inicialmente detetavam esses mesmos anticorpos no sangue. “Um resultado positivo significava que a pessoa possuía esses anticorpos e que estava infetada.”
O problema é que este processo não ocorre de imediato à infeção, sendo necessárias várias semanas para que os testes se tornem positivos. Neste período de tempo, o teste pode ser negativo, apesar de a pessoa estar infetada”, explica.
E esclarece: “Os atuais, denominados testes de quarta geração, além de detetarem os anticorpos no sangue, detetam também uma proteína do próprio vírus, que é produzida em excesso no processo de multiplicação do VIH e libertada para o sangue. Estes novos testes tornam-se positivos muito mais cedo (2-3 semanas), após a pessoa ter sido infetada.”
Um resultado positivo significa que a pessoa tem o vírus no corpo e pode transmiti-lo através das relações sexuais e do sangue. Contudo, não significa que esteja doente. “Para se dizer que uma pessoa tem SIDA é necessário que tenha determinados tipos de patologias, além de estarem infetadas com VIH.”
Terapêutica antirretroviral: mais simples, menos tóxica
Verificaram-se, nos últimos anos, muitos avanços no que toca à terapêutica, que consiste em administrar vários tipos de medicamentos capazes de impedir a multiplicação do vírus dentro das células do sistema imunitário e, para Eugénio Teófilo, “com os medicamentos que irão surgir, poderá ser possível alterar a forma como tratamos as pessoas infetadas”.
A adesão ao tratamento é fulcral para o seu sucesso. Eugénio Teófilo explica que, se o doente começar a falhar as tomas da medicação, o VIH pode facilmente tornar--se resistente aos fármacos.
“Nesta situação, é necessário mudar o tratamento, porém, o vírus torna-se, por vezes, resistente não só aos medicamentos que o doente está a tomar incorretamente, mas também àqueles que nunca experimentou, diminuindo drasticamente as opções de tratamento disponíveis”, menciona.
E exclama: “Paradoxalmente, é o próprio Sistema Nacional de Saúde (SNS) que agora promove a má adesão ao tratamento. Tem havido com frequência rotura de stock de antirretrovirais nos hospitais, fornecendo--se medicação para períodos inferiores a um mês (às vezes, só para uma semana), o que dificulta muito a adesão ao tratamento, devido ao custo das deslocações e aos problemas laborais, entre outras razões.”
Cura: objetivo perseguido, porém, ainda não alcançado
“O conhecimento científico sobre a infeção VIH conseguido nos últimos 30 anos constitui um dos maiores sucessos da investigação médica.” Quem o afirma é o Prof. Saraiva da Cunha, presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica, referindo que, neste curto espaço de tempo, conseguimos transformar uma doença letal para quase todos os doentes numa “nova doença”, que reclama agora o estatuto de crónica.
“Este feito foi alcançado como resultado da investigação sobre a etiologia da doença, os mecanismos imunopatogénicos do VIH e, mais recentemente, sobretudo pelos enormes sucessos conseguidos no domínio da terapêutica antirretrovírica”, observa.
A cura da doença é, indubitavelmente, um objetivo perseguido. Contudo, e apesar dos enormes avanços, ainda não alcançado. Para Saraiva da Cunha, as razões são várias e devem-se, essencialmente, à capacidade de latência do vírus em espaços anatómicos de difícil esterilização, comummente denominados “santuários naturais”. “Logo que se encontre um meio de fazer expurgar estes santuários dos vírus aí acantonados estaremos em condições de prenunciar a cura da doença”, explica.
Rede de referenciação hospitalar de Infecciologia: “uma espécie de nado-morto”
Ao ser questionado acerca do número de profissionais da área, Saraiva da Cunha responde julgar que “atingimos um ponto de equilíbrio em que o número de profissionais envolvidos nos cuidados de saúde aos doen-tes infetados por VIH é satisfatório. Haverá, porventura, algum desequilíbrio na sua distribuição pelo território nacional”. E salienta: “Estou a referir-me aos cuidados em situação de doença aguda ou dos prestados ao doente que se encontra com a doença controlada sob terapêutica antirretrovírica.”
O mesmo não se pode, na sua opinião, dizer dos cuidados continuados ou a doentes terminais, bem como daqueles com problemas socioeconómicos, onde as carências ainda se fazem sentir.
“Necessitamos, com a máxima urgência, de ver clarificado quais os profissionais de saúde e as estruturas que precisamos para esta área”, indica Saraiva da Cunha.
Segundo refere, a rede de referenciação hospitalar de Infecciologia é “uma espécie de nado-morto”, que nunca foi implementada. “Com a reformulação em curso da carta hospitalar nacional, terá obrigatoriamente de ser revista e atualizada. Julgo que esta é uma oportunidade única para que seja construída em estreita interação com o Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA, que pretende, entre outras medidas, criar uma rede nacional de referenciação para estes doentes”, comenta.
Continuam a ser muitos os desafios das pessoas com VIH/SIDA
“Viver, hoje, com VIH não é como há 20 ou 30 anos e em Portugal é muito diferente do que noutras partes do Mundo. Porém, continuam a ser muitos os desafios que se colocam às pessoas que vivem com o VIH e que por esta infeção são afetadas, como é o caso das famílias e dos amigos”, indica Andreia Pinto Ferreira, da Associação SER+, referindo que estes começam logo pelo processo de aceitação do diagnóstico, passando por aprender a lidar com as outras pessoas e, por fim, com o tratamento e as suas consequências.
“Os medicamentos disponíveis e os esquemas terapêuticos recomendados proporcionam, aos que a eles têm acesso, uma vida mais longa e com maior qualidade. Contudo, os efeitos secundários e a própria habituação aos fármacos pode ser difícil de gerir”, explica. E acrescenta: “Até agora, o SNS tem assegurado, de forma geral, esse acesso, bem como orientações terapêuticas corretas e adequadas. Mas há incertezas quanto ao futuro.”
Para Andreia Pinto Ferreira, a população não está ainda devidamente informada acerca da doença e, nesse sentido, a SER+ tem previsto o objetivo de promover atitudes e condutas favoráveis à integração e aceitação de pessoas seropositivas para o VIH em diversos contextos, assegurando a defesa dos seus direitos e contribuindo para que a sua inserção nestes meios não dependa da sua condição específica de saúde. Além disso, reforça a importância das Organizações Não Governamentais (ONG) ensinarem as pessoas que vivem com a infeção pelo VIH a saber identificar e a agir em situações de discriminação.
A SER+ é uma associação sem fins lucrativos que se dedica à infeção pelo VIH. Tem como visão que Portugal seja um país que respeite os direitos humanos das pessoas que vivem com esta infeção, garantindo o acesso à prevenção, tratamento, apoio e cuidados de saúde.
Conjuntura social conduz a constrangimentos ao nível do investimento solidário
Maria Eugénia Saraiva, da Liga Portuguesa Contra a SIDA (LPCS), é da mesma opinião e considera que a infeção pelo VIH/SIDA tem um grande impacto na vida da maioria das pessoas, pelo que se torna “imprescindível” não só a promoção do bem-estar físico, possibilitando tratamentos cada vez mais eficazes e o acesso a cuidados adequados, como também a promoção do bem-estar psicológico.
“Infelizmente, o estigma e o preconceito associados ao VIH/SIDA subsistem, afetando a vida de muitas pessoas que vivem com a infeção e colocando sérios entraves ao nível da prevenção”, menciona Maria Eugénia Saraiva, observando que, por isso, continua a fazer todo o sentido colocar o respeito pelos direitos humanos no centro da resposta global ao VIH/SIDA.
Relativamente às dificuldades sentidas pelas ONG no apoio às pessoas com VIH/SIDA, Maria Eugénia Saraiva afirma que a atual conjuntura social adversa, muito influenciada pelo impacto da crise económica, conduziu a constrangimentos ao nível do investimento solidário (individual, coletivo e empresarial).
“Estes fatores refletem-se na sustentabilidade das ONG que, além de terem de lidar com o aumento do número de pessoas que recorrem aos seus serviços, confrontam-se com dificuldades na obtenção de donativos”, constata.
A LPCS é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, de utilidade pública, sem fins lucrativos, fundada em 1990 e reconhecida como ONG desde 2006, que tem por objeto o apoio às pessoas infetadas e afetadas pelo VIH/SIDA.
Situação económica coloca obstáculos aos doentes
Para Luís Mendão, presidente do GAT e portador do vírus, a maior parte dos desafios enfrentados pelas pessoas infetadas “não está relacionada com a dinâmica da infeção pelo VIH, propriamente dita, mas sim com uma série de convenções sociais e constrangimentos económicos que se colocam presentemente”.
Estes obstáculos prendem--se, segundo menciona, com o facto da dispensa dos medicamentos ser feita em períodos de tempo cada vez mais curtos e com a dificuldade que sentem em justificar as inúmeras ausências do emprego, havendo, desta forma, o risco de as pessoas não aderirem convenientemente à terapêutica. “Adicionalmente, os constrangimentos atuais colocam também barreiras à introdução de medicamentos inovadores no mercado português”, refere.
Por último, aponta o estigma e a discriminação ainda presentes na nossa sociedade em relação a esta infeção como um dos principais impedimentos para que as pessoas infetadas pelo VIH possam ver respeitados os seus direitos como cidadãos de pleno direito.
No que confere aos avanços da terapêutica, Luís Mendão destaca como um dos principais a capacidade de identificação dos fármacos responsáveis por efeitos metabólicos que conduziam ao aparecimento da lipodistrofia, que, além de provocarem problemas de autoestima, era estigmatizante, já que muitas pessoas associavam determinadas alterações morfológicas à infeção pelo VIH.
Quanto ao futuro, o presidente do GAT diz que “uma das certezas que temos neste momento, fruto da evolução dos tratamentos e da qualidade e esperança de vida que estes trazem, é o envelhecimento da comunidade de pessoas infetadas pelo VIH. Esta realidade traz vários desafios, pois, à medida que as pessoas vão envelhecendo naturalmente a sua situação clínica altera-se”.
A maior novidade prende-se, na sua opinião, com a investigação da cura que, apesar de a maioria das estratégias experimentadas ser ainda hipotética, traz “muita esperança para o futuro da Humanidade”.
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Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA
Diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA, desde o passado dia 9 de março, o Dr. António Diniz refere que o mesmo, concluído na altura em que assumiu a sua direção, tem por base seis objetivos.
“Em primeiro lugar, pretendemos reduzir em 25% o número de novas infeções no período de 2012 a 2016. Em segundo, reduzir para 35% os diagnósticos tardios (os dados atualmente disponíveis indicam que, em Portugal, essa percentagem é de 65%). Em terceiro lugar, pretendemos baixar em 50% o número de novos casos de SIDA, tal como das mortes associadas”, enumera o responsável.
E continua: “Adicionalmente, queremos aumentar para 95% a proporção de indivíduos que, segundo os inquéritos, realizados periodicamente, referem usar preservativo em relações sexuais ocasionais – os dados de 2010 apontam para 84%. É também nossa intenção eliminar a transmissão da infeção por VIH da mãe para o filho até 2016. Em Portugal, os dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e do Grupo Português de Pediatria para o Estudo da Infeção VIH na Criança apontam para uma proporção de transmissão próxima de 2%.”
Questionado acerca das áreas de intervenção prioritárias, António Diniz refere que há uma área transversal, que funcionará como a base sobre a qual as restantes assentam e que passa por conseguir montar um sistema de informação e de conhecimento epidemiológico mais alargado, consistente e fiável.
“Para podermos traçar estratégias, definir objetivos, monitorizar a nossa atuação, avaliar se existem desvios e fazer correções de forma a conseguir atingir ou mesmo superar metas, necessitamos de ter a maior e melhor informação possível”, conclui.
Congresso Nacional sobre SIDA
Realizou-se, de 12 a 15 de dezembro, no Hotel Sheraton Porto, o XI Congresso Nacional de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica e IX Congresso Nacional Sobre SIDA.
“De acordo com Rui Sarmento e Castro, o objetivo fundamental foi reunir centenas de profissionais que trabalham com doentes com SIDA. “Juntámos, durante três dias, pessoas que, de alguma forma, se interessam por estas temáticas, difundir conhecimentos e trocar opiniões e experiências, para que se fale mais sobre SIDA e para que todos estejamos mais preparadas para atender os doentes.”
Portugal regista mil novos casos por ano

