Inovação e desenvolvimento: o caminho para a cura do cancro colorretal

Prof. Doutor Nuno Figueiredo, cirurgião colorretal e coordenador da cirurgia geral do Hospital Lusíadas de Lisboa
25/03/21
Inovação e desenvolvimento: o caminho para a cura do cancro colorretal

Conheça a opinião do cirurgião colorretal e coordenador da cirurgia geral do Hospital Lusíadas, Lisboa, Prof. Doutor Nuno Figueiredo, sobre as novas técnicas de tratamento no cancro colorretal e o caminho que está a ser feito para a cura desta patologia.

O cancro colorretal é um dos cancros mais frequentes em Portugal. No ano passado, e apesar da pandemia, foram diagnosticados 10.501 novos casos, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde. É o 2º tipo de cancro mais frequente em ambos os sexos, depois do cancro da mama na mulher e do cancro da próstata no homem. O cancro colorretal é responsável por cerca de 14% da mortalidade associada ao cancro, ocupando o 2.º lugar, logo a seguir ao cancro do pulmão.

O risco de desenvolver cancro colorretal deriva de fatores ambientais, do nosso estilo de vida, bem como de factores determinados geneticamente. A sua incidência tem aumentado em alguns países como resultado do consumo de tabaco e de álcool, do aumento da ingestão de carnes vermelhas, da obesidade, e do sedentarismo.

Este tumor origina-se a partir da mucosa do intestino, crescendo na parede do cólon e recto, podendo também disseminar-se para outros órgãos. Em fases iniciais pode não dar queixas, ou apenas provocar sintomas ligeiros e inespecíficos como o cansaço, habitualmente associado a anemia, e o desconforto abdominal. Com o crescimento progressivo destes tumores surgem sintomas de alterações dos hábitos intestinais, com períodos de alternância de diarreia e obstipação, alteração das características das fezes ou ocorrência de dor e falsas vontades ao evacuar. A perda de sangue nas fezes ou a alteração da cor das mesmas, bem como o aparecimento de muco são também sinais de alarme. No entanto, a presença de sangue nas fezes nem sempre é facilmente visível e frequentemente é confundida com sintomas de doença hemorroidária, o que condiciona atrasos no diagnóstico.

A neoplasia do cólon e reto segue uma evolução conhecida, passando por fases intermédias de displasia. Deste modo, o rastreio de indivíduos assintomáticos é particularmente importante para identificar lesões pré-malignas, ou mesmo neoplásicas em fases precoces e curáveis. Em Portugal, está preconizada a pesquisa de sangue oculto nas fezes, na população assintomática entre os 50 e os 74 anos e sem outros fatores de risco. Em caso de pesquisa de sangue oculto positiva, ou quando estão presentes sinais e sintomas, deverá ser proposta a realização de colonoscopia total, que permite identificar e biopsar as lesões encontradas.

Após o diagnóstico é necessária a realização de exames adicionais, com o objectivo de determinar se a doença está localizada apenas no intestino ou se já se encontra disseminada por outros órgãos - estadiamento clínico. De acordo com o estadiamento é determinada a melhor abordagem terapêutica para cada caso, uma vez que, atualmente, o tratamento oncológico é definido numa perspetiva personalizada da doença, ou seja, ajustado a cada indivíduo.

No tratamento do cancro colorretal existem várias opções disponíveis, que serão seleccionadas tendo em conta as características do indivíduo, o tipo de tumor e o estadiamento clínico. Nas lesões em fase inicial ou pré-malignas, a abordagem endoscópica, com excisão completa por colonoscopia, poderá ser a forma terapêutica adequada e definitiva.  Noutros casos é necessária a remoção cirúrgica do tumor, com objectivo de obter margens livres de doença. A cirurgia minimamente invasiva – por via laparoscópica ou robótica – possibilita a excisão dos tumores através de pequenos orifícios no abdómen, com a utilização de instrumentos de elevada precisão. Estas abordagens minimamente invasivas estão associadas a menor dor no pós-operatório, menor tempo de internamento e permitem uma recuperação pós-operatória mais rápida, possibilitando a retoma precoce à vida ativa, a nível pessoal, profissional e social.  

Em algumas situações poderão ser necessários tratamentos complementares de quimioterapia e/ou radioterapia, antes ou após a cirurgia, com o objectivo de controlar a doença localmente e/ou evitar a sua progressão para outros órgãos.

No caso particular do cancro do reto têm sido desenvolvidas estratégias de tratamento conservador do órgão, em que se evita a intervenção cirúrgica, e por vezes a realização de estomas definitivos (por exemplo, a colostomia). Esta abordagem de watch & wait (observar & esperar) pode ser considerada nas situações em que, após os tratamentos de radioterapia e quimioterapia pré-operatórios, se constata o desaparecimento do tumor. No entanto, nestes casos em que se evita a ressecção cirúrgica é necessária a monitorização ativa e uma vigilância contínua, devendo ser acompanhado em instituições hospitalares com equipas especializadas nesta área.

No final do tratamento, e por um período de pelo menos cinco anos, é fundamental manter uma vigilância oncológica com o objetivo de identificar e tratar precocemente as recidivas do tumor, quer localmente, quer em outros órgãos à distância. 

Em alguns casos poderão existir sequelas, como perturbações do funcionamento do intestino, disfunções urinárias e/ou sexuais, que quando detectadas, beneficiam de tratamentos específicos. 

Apesar de se tratar de uma situação oncológica complexa, com o apoio e tratamento adequados, a maioria dos sobreviventes de cancro colorretal apresenta boa qualidade de vida, sendo o 3.º maior grupo de sobreviventes por cancro nos países ocidentais.

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