Em Portugal, cerca de um milhão de pessoas tem diabetes e uns dois milhões têm pré-diabetes, ou seja, aproximadamente 40% da população portuguesa ou tem diabetes ou pré-diabetes. Anualmente, são registados cerca de 60 mil novos casos por ano. O aumento da incidência da diabetes em cerca de 80% nos últimos 10 anos é, de acordo com José Manuel Boavida, diretor do Programa Nacional para a Diabetes (PND), "um novo desafio para o qual é necessário encontrar resposta a vários níveis".
Segundo o responsável, o Programa Nacional para a Diabetes e a Direção-Geral da Saúde (DGS) empenham-se no reforço da educação de todos os que têm a doença, numa perspetiva de prevenção. Hoje em dia, refere, "as políticas principais relativamente à diabetes colocam-se, por um lado, numa perspetiva de prevenção de quem está em risco de vir a desenvolver diabetes (com história familiar, obesas ou com excesso de peso, com hipertensão, com idade avançada)". E, por outro lado, "quem já tem diabetes deve ser educado de modo a saber controlar muito bem a sua doença e prevenir que a situação se complique".
"Sabendo que a prevenção pode evitar a progressão da diabetes, torna-se absolutamente fundamental conseguir evitar que metade das pessoas que têm diabetes venham a ter complicações e, para isso, é preciso tratar muito bem a doença", afirma José Manuel Boavida.
José Manuel Boavida alerta que, tal como acontece na maior parte das patologias crónicas, a diabetes é uma doença em que as pessoas são as principais responsáveis pelo seu próprio tratamento. "Hoje em dia, não é possível pensar que um médico, ou um enfermeiro, que vê alguém de três em três ou de seis em seis meses consegue controlar o seu dia-a-dia", menciona, acrescentando que só a própria pessoa consegue controlar o que se passa todos os dias da sua vida (a alimentação, a atividade física, a medicação, as alegrias e as tristezas, as análises, as idas às consultas médicas e a vigilância das complicações).
O "Juntos é mais fácil", implementado pela Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal e pela Sociedade Portuguesa de Diabetologia, com o apoio do Programa da Diabetes, da Direção-Geral da Saúde e da Novartis, "lançou o desafio de ensinar mais as pessoas com diabetes sobre alimentação e atividade física e sobre como as motivar para levarem a cabo um controlo mais estrito da sua doença para evitar que esta possa progredir para situações mais complicadas", adianta.
A importância de envolver os CSP João Filipe Raposo, diretor clínico da APDP, afirma que "as pessoas com diabetes tipo 2 são especialmente avaliadas, medicadas e acompanhadas nas unidades de CSP", até porque, dado o elevado número de casos, não é possível nem desejável enquadrar todos os doentes nos hospitais.
O diretor clínico da APDP menciona que "está demonstrado que o investimento na terapêutica mais intensiva com objetivos
mais exigentes na fase inicial do acompanhamento do doente com diabetes conduz a menores consumos de tratamentos mais caros, a menos internamentos, a menores complicações e, consequentemente, a custos mais reduzidos para o sistema de saúde".
Na opinião de João Filipe Raposo, "a vantagem do 'Juntos é mais fácil' e de outros projetos semelhantes prende-se com a aposta que é feita na educação". "Todos os que convivem com pessoas com diabetes sabem muito pouco sobre o que é a alimentação cuidada e o que é um programa de atividade física adequado", refere, sublinhando que, para isso, não é só a transmissão de informação que é importante, mas também o modo como ela é feita e se é possível ou não trabalhar o campo da motivação.
Segundo o diretor clínico da APDP, o "Juntos é mais fácil" contempla módulos específicos para identificar a motivação e as barreiras para a implementação das mudanças de comportamento. "É proposto às pessoas que, pelo menos, nos primeiros quatro meses tenham um acompanhamento mais próximo e que seis meses depois seja feita uma primeira avaliação dos benefícios."
Tornar o projeto mais abrangente
O Programa "Juntos é mais fácil" arrancou em 2011, na qualidade de projeto-piloto, e em 2012 foi implementado a nível nacional. Segundo José Manuel Boavida, os resultados têm sido muito bons, do ponto de vista do controlo do peso, da manutenção de uma atividade física regular, do controlo da diabetes, com uma redução significativa da hemoglobina HbA1c entre o início e o fim do programa e a diminuição do consumo de medicamentos. "Sabemos que, se as pessoas forem acompanhadas a tempo, incentivadas e educadas, podemos conseguir ganhos de saúde muito relevantes", alerta.
O objetivo é levar a dinâmica do "Juntos é mais fácil" a todos os que têm diabetes, às unidades de saúde familiares e às unidades de cuidados de saúde personalizados (UCSP). "Todos os profissionais de saúde e utentes deveriam ter direito a este projeto", sublinha. João Filipe Raposo adianta que, atualmente, continua a ser feita formação de formadores, sendo que os profissionais de saúde que já participaram no "Juntos é mais fácil" têm o cuidado de incluir pessoas com diabetes no programa. "A cada momento, estamos a incluir novas unidades que têm a capacidade de se juntar ao programa", informa.
O especialista refere que os profissionais de saúde manifestaram muito interesse em integrar este projeto, pois, sentem a
necessidade de ter mais armas no domínio da educação. Por outro lado, também tem havido uma boa adesão por parte de quem participa, o que, no seu entender, "significa que o programa está bem desenhado".
"Precisamos tratar melhor as pessoas desde o seu diagnóstico, incluindo-as em programas como este, mas para isso são precisas equipas de profissionais de saúde devidamente treinadas", acrescenta, frisando que, além do investimento em medicamentos, é necessário que exista uma aposta na educação das pessoas com diabetes e dos profissionais de saúde das "várias e muito boas equipas que existem em todo o país".
Texto original publicado no Jornal Médico nº8, novembro de 2013
No âmbito do Dia Mundial da Diabetes, assinalado a 14 de novembro, e dois anos depois do "Juntos é mais fácil" ter arrancado, com a finalidade de ensinar as pessoas com diabetes tipo 2 a fazer alterações simples nos seus hábitos diários, o projeto já foi implementado em várias unidades de cuidados de saúde primários (CSP) do país. Em entrevista, representantes de algumas das entidades envolvidas e um dos participantes com diabetes falam sobre as mais-valias do projeto.

