Qual o papel dos médicos na sustentabilidade e inovação dos Serviços de Saúde?

Alice Costa
10/03/25
Qual o papel dos médicos na sustentabilidade e inovação dos Serviços de Saúde?

“É urgente promover um aprofundamento nesta temática”, refere Válter Santos, médico assistente em Medicina Geral e Familiar no Centro de Saúde de Pombal, num artigo de opinião, onde explora as variáveis determinantes do empenhamento organizacional dos médicos em Portugal. Leia o artigo.

“O empenhamento organizacional dos médicos é um tema de crescente relevância nas investigações sobre saúde ocupacional e sobre comportamento organizacional e um tema crítico na discussão acerca da qualidade e eficácia dos sistemas de saúde contemporâneos. O setor da saúde, caracterizado por um ambiente de trabalho complexo, dinâmico e exigente, enfrenta desafios específicos que podem impactar no nível de empenhamento dos colaboradores. O envolvimento e a motivação dos médicos são cruciais não apenas para a satisfação, mas também para a qualidade e eficiência dos serviços.

O empenhamento organizacional é entendido como um envolvimento emocional, cognitivo e comportamental, que abrange não apenas o compromisso em realizar as funções com eficácia, mas também uma vontade de promover a missão e os valores da organização, bem como a qualidade, inovação e melhoria. Esse empenhamento é considerado um preditor significativo de resultados positivos.

Num contexto amplo, o empenhamento organizacional é moldado por uma confluência de fatores intrínsecos e extrínsecos. Entre os fatores intrínsecos, destacam-se a vocação para a medicina, o desejo altruísta de ajudar o próximo e a aspiração por reconhecimento profissional. Os fatores extrínsecos, por outro lado, abrangem as condições laborais, a remuneração, a qualidade da liderança e a cultura organizacional vigente no hospital ou unidade de saúde. Também a escassez de recursos, a sobrecarga de trabalho e a excessiva burocratização dos processos frequentemente “desmotivam” os médicos, gerando um estado de descontentamento.

Por outro lado, em situações onde exista promoção de canais de comunicação eficazes, formação contínua e oportunidades de desenvolvimento profissional, onde os médicos sentem que o seu trabalho é valorizado e que estão inseridos num ambiente colaborativo, observa-se um aparente incremento nos níveis de desempenho.

Outro aspeto crucial a considerar reside na qualidade da liderança. Um estilo de liderança que fomente a comunicação aberta e a participação dos médicos nas decisões organizacionais tem demonstrado aumentar o envolvimento destes com a instituição. Os líderes têm a responsabilidade de cultivar uma cultura organizacional que promova valores e objetivos comuns, reconhecendo e recompensando o esforço e a dedicação dos seus colaboradores.

Havendo vários estudos a demonstrar que o empenhamento organizacional, entendido como um laço psicológico de ligação do indivíduo à organização, como crença na responsabilidade e como intenção permanecer nessa organização, é uma variável importante na compreensão do comportamento dos colaboradores e está associada à eficácia e produtividade organizacional, é relevante a mais-valia de ser estudada nos médicos.

O conhecimento dos resultados destes estudos, permitirá às instituições ajustar respostas às expectativas dos médicos, particularmente da nova geração que valorizam não apenas a compensação financeira, mas também a flexibilidade, as oportunidades de desenvolvimento e um ambiente que estimule a inovação e o bem-estar favorecendo um equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

O empenhamento organizacional dos médicos reveste-se de grande pertinência na melhoria contínua da qualidade dos serviços de saúde. É imperativo que a gestão das instituições de saúde se concentre na implementação de estratégias que valorizem e apoiem os médicos. Nesse sentido, as organizações que invistam na identificação das expetativas dos profissionais e que se alinham com essas expectativas estarão, certamente, mais bem posicionadas para atrair e reter médicos empenhados.

É urgente promover um aprofundamento nesta temática, conciliando desafios e, sobretudo, delineando as oportunidades que podem ser criadas para revitalizar o empenhamento organizacional dos médicos.”

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