A evolução dos humanos fez-se ao longo de gerações por um processo de seleção natural que privilegiou os que tiveram maior capacidade de adaptação. Estas adaptações fizeram-se à custa de mutações e recombinações genéticas que trouxeram vantagens evolutivas e foram transmitidas às gerações seguintes através da herança genética.
Vem isto a propósito da presente pandemia de obesidade que poderá ser o resultado de mal adaptação nos tempos modernos a adaptações vantajosas num passado remoto. É reconhecido que a obesidade resulta de complexas interações entre genes e ambiente e que a mudança de comportamentos e estilos de vida é a causa próxima da presente pandemia.
Mas é fundamental integrar nesta equação a história recente das migrações humanas e a evidência de que a suscetibilidade individual à obesidade continua a ser maioritariamente determinada pela genética.
Entre as várias hipóteses desenvolvidas para explicar a obesidade, duas merecem referência particular: a hipótese do genótipo poupador de energia (thrifty genotype), e a hipótese do genótipo termogénico.
Os defensores da hipótese do genótipo “económico” argumentam que a obesidade nos países desenvolvidos resulta da pressão positiva exercida pelas fomes cíclicas para a seleção de genes que favoreciam o armazenamento de energia sob a forma de gordura e aumentavam a eficiência energética diminuindo o consumo. A seleção destes genes, adaptados à carência alimentar, mas não à abundância e ao sedentarismo, estaria na origem da pandemia de obesidade.
A hipótese do genótipo termogénico propõe que a adaptação dos nossos ancestrais ao calor e ao frio foi determinante da aquisição de características genéticas diferentes que os tornam sensíveis ou resistentes à obesidade.
Os humanos que inicialmente saíram de África em direção à Europa, há 70 mil anos, estavam bem-adaptados ao clima quente das savanas africanas. Tinham adquirido características físicas que facilitavam a dissipação do calor, mas também produziam menos calor porque possuíam genes termorreguladores que mantinham o metabolismo basal baixo à custa de menor consumo de calorias e menor produção de calor. Os que permaneceram em África ou migraram para outros ambientes tropicais retiveram estes genes de adaptação ao calor.
Os que entraram na Europa há 48 mil anos, durante um interlúdio interglacial quente, mantiveram estes genes. Porém, 10 mil anos mais tarde, as temperaturas começaram a descer e os glaciares a avançar, expondo-os a condições climáticas extremas. A adaptação ao frio foi uma necessidade conseguida através da seleção de genes que passaram a regular a produção e libertação de calor nas mitocôndrias do tecido adiposo castanho. Em consequência, os indivíduos com este genótipo têm metabolismo basal e temperatura cutânea mais elevados, à custa do consumo de ácidos gordos livres. Esta habilidade para produzir calor foi vital para a sobrevivência dos recém-nascidos e permitiu que os humanos colonizassem regiões tão frias como a Sibéria, o nordeste da Ásia e a Europa.
Esta adaptação genética ao frio explica por que razões os caucasianos europeus e os chineses são mais resistentes à obesidade do que outras populações, designadamente os afroamericanos e os hispânicos; ou porque as taxas de obesidade são mais elevadas nos estados norte-americanos mais quentes, enquanto os estados mais frios tendem a ter taxas de obesidade mais baixas. Todavia, deverá ser tido em conta que as populações americanas contemporâneas já não refletem as adaptações evolucionárias do passado porque a grande maioria descende dos que emigraram da Europa nos últimos 300 anos ou que foram levados de África.


