Política de Saúde na diabetes e cuidados integrados

Bruno Almeida
20/03/25
Política de Saúde na diabetes e cuidados integrados

Bruno Almeida, diretor clínico adjunto da Associação Protetora dos Diabéticos em Portugal (APDP), escreve um artigo de opinião onde retrata a diabetes como um dos principais desafios de Saúde Pública. Além de destacar a necessidade de políticas eficazes para a prevenção, diagnóstico precoce e gestão integrada da doença, o especialista aponta os obstáculos que existem nos serviços de saúde. Leia o artigo.

A diabetes é um dos principais desafios de Saúde Pública, associando-se a elevada morbilidade, mortalidade e elevados custos socioeconómicos. O aumento da sua prevalência exige políticas eficazes, focadas na prevenção, no diagnóstico precoce e numa gestão integrada da doença.

Os cuidados integrados surgem como um modelo essencial para otimizar o controlo da diabetes, reduzindo complicações evitáveis, melhorando a qualidade de vida dos doentes e tornando a gestão da doença mais eficiente.

A diabetes tipo 2 está fortemente associada a fatores de risco modificáveis, como obesidade e sedentarismo. Já a diabetes tipo 1 exige um controlo rigoroso da glicemia e terapêuticas personalizadas.

As políticas de Saúde devem incluir: › Rastreio precoce em grupos de risco, como pessoas com síndrome metabólica (no caso da diabetes tipo 2) e rastreio de familiares diretos (no caso da diabetes tipo 1);  Promoção da literacia em Saúde, incentivando a autogestão da doença; › Políticas fiscais e regulatórias, como a taxação adicional de bebidas açucaradas/ultra processadas; Acesso a cuidados multidisciplinares, assegurando o acompanhamento por equipas médicas especializadas (Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna, Endocrinologia, Enfermagem, Nutrição, Psicologia e Farmácia).

A abordagem integrada melhora a continuidade dos cuidados e evita redundâncias terapêuticas. A digitalização da Saúde desempenha um papel crescente, através de: monitorização remota e telemedicina, otimizando o seguimento dos doentes; plataformas de partilha de dados (com implementação efetiva de interoperabilidade de sistemas) garantindo melhor articulação entre níveis assistenciais; novas terapêuticas e dispositivos, como sistemas de monitorização contínuos da glicemia e bombas de insulina híbridas (melhorando o controlo glicémico).

Apesar das vantagens, persistem barreiras nos serviços de Saúde atuais nomeadamente a fragmentação dos serviços de Saúde (dificultando a articulação entre especialidades), desigualdade no acesso a terapêuticas avançadas, (prejudicando populações vulneráveis) e escassez de recursos humanos qualificados (limitando a adoção de equipas multidisciplinares).

O investimento na capacitação dos profissionais de Saúde e na reestruturação dos modelos de financiamento (com criação de centros de responsabilidade integrados para gestão de doenças crónicas) será essencial para ultrapassar estas limitações. A eficácia das políticas de Saúde na diabetes dependerá da implementação de abordagens integradas, baseadas em evidência científica e adaptadas às necessidades das populações.

A transição para um modelo centrado na prevenção, no diagnóstico precoce e na continuidade dos cuidados pode reduzir de forma significativa o impacto da doença a longo prazo.

Para isso, os sistemas de Saúde devem investir na digitalização dos serviços, na formação contínua dos profissionais de Saúde e na criação de ambientes que incentivem estilos de vida saudáveis.

O envolvimento da sociedade civil e das próprias pessoas com diabetes no processo de decisão é igualmente essencial para garantir estratégias eficazes e sustentáveis. Em suma, a diabetes continuará a ser um dos principais desafios de Saúde pública, mas a adoção de políticas baseadas em cuidados integrados pode transformar significativamente o panorama atual.

A colaboração entre profissionais de Saúde, doentes e decisores políticos será determinante para um futuro em que a diabetes seja gerida de forma mais eficaz, com menor impacto na qualidade de vida das pessoas e na sustentabilidade dos sistemas de Saúde.

Este artigo foi redigido para o Jornal do Congresso.

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