Resultados maternos e perinatais da base nacional: diabetes prévia à gravidez

Maria do Céu Almeida
25/03/25
Resultados maternos e perinatais da base nacional: diabetes prévia à gravidez

A diabetes mellitus, especialmente a tipo 2, tem vindo a crescer em mulheres em idade reprodutiva, sendo um desafio para a Saúde Pública durante a gravidez. Maria do Céu Almeida, ginecologista obstetra da ULS Coimbra, analisa, em artigo de opinião, os resultados de um registo nacional comparando 2016 e 2023. A especialista destaca os avanços no controlo glicémico com novas tecnologias, mas alerta para a necessidade de melhorias contínuas no planeamento da gravidez e no acompanhamento das gestantes diabéticas. Leia o artigo completo.

A prevalência da diabetes mellitus (DM) tem aumentado globalmente, sobretudo a tipo 2 surgindo cada vez mais precocemente, e em mulheres em idade reprodutiva. A diabetes é atualmente a patologia mais frequente da gravidez e está associada a um aumento do risco de complicações materno-fetais e neonatais condicionando efeitos a longo prazo quer para a mãe quer para a descendência.

Para a prevenção destas complicações é fundamental o planeamento da gravidez e uma melhoria do controlo glicémico na gravidez. As novas tecnologias como o uso de análogos de insulina, monitorização continua da glicemia e o uso de perfusão continua subcutânea de insulina (PCSI) têm contribuído para a melhoria do controlo glicémico. Efetuou-se uma avaliação das grávidas com diabetes prévia (tipo 1 e 2) a partir da base nacional de registo de diabetes e gravidez em dois períodos anuais separados por 8 anos (2016 e 2023). Pretendeu-se comparar a taxa de planeamento da gravidez, caraterísticas gerais das mulheres diabéticas que engravidam e o uso das novas tecnologias no controlo da diabetes. Avaliaram-se e compararam-se as complicações perinatais mais frequentes neste grupo de grávidas.

Numa população de 254 grávidas (149 em 2016 de 21 hospitais; 105 em 2023 de 11 hospitais) com diabetes tipo 1 e 2 verificámos uma baixa taxa de planeamento de gravidez (26,3 %), um aumento da proporção de grávidas com diabetes tipo 2 (37,6 % vs 52,8 % em 2023). Na diabetes tipo 1 o uso de PCSI aumentou de 11,7 % para 20,5 % e a monitorização contínua ocorreu em 46 %.

Dos resultados perinatais verificámos resultados diferentes consoante o tipo de diabetes. Na diabetes tipo 1 aumentou a idade materna, houve um melhor controlo ponderal na gravidez, uma diminuição da morbilidade materna, uma redução na taxa de cesarianas, dos GIG, da macrossomia, dos internamentos na UCIN e de hipoglicemias neonatais. Na diabetes tipo 2 diminuiu a idade materna, aumentou a obesidade (65,5 %), a morbilidade materna, manteve-se a taxa de parto por cesariana, a morbilidade neonatal, aumentou a macrossomia, apesar da diminuição dos GIG, e aumentaram os RN leves para a idade gestacional (LIG).

Apesar da melhoria na diabetes tipo 1, a taxa de morbilidade materna e perinatal continua superior à da população não diabética e ainda muito longe dos objetivos da declaração de S. Vincent. Por outro lado, verificamos uma maior percentagem de diabetes tipo 2 e um agravamento da morbilidade associada. É, pois, fundamental: uma ação permanente de educação contracetiva nesta população de mulheres com diabetes, para se conseguir uma gravidez planeada; a disseminação do uso das novas tecnologias idealmente em todas as mulheres com diabetes tipo 1 e 2 que pretendam engravidar e o seguimento por equipas multidisciplinares.

Gostaria de terminar com uma palavra de apreço a todos os colegas responsáveis pelas consultas multidisciplinares e que têm participado na recolha e envio de dados para o registo nacional, permitindo a monitorização dos resultados perinatais da grávida diabética.

Leia este e outros artigos no segundo Jornal do 21.º Congresso Português de Diabetes.

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