Para um encontro erótico, levamos sempre - para além de nós próprios, com o nosso sistema cognitivo e emocional – todo o nosso background em termos de vivências sexuais, que é o resultado da nossa socialização numa determinada cultura e contexto histórico. E nesse encontro, esse outro também leva o mesmo, e essa bagagem pode ser completamente diferente da nossa. Assim, o encontro erótico pode ser fascinante e a atividade sexual uma experiência magnífica, mas também, pelo contrário, ser uma catástrofe, um episódio para esquecer.
O prazer sexual pode ser inibido ou perturbado por fatores de diversa ordem. À cabeça da lista, eu poria a deserotização, ou seja, a perda do erotismo, e são muitas as ameaças ao erotismo. Desde logo, a banalização do sexo, uma novidade dos tempos modernos. Mas também, a rotina, a falta de novidade, tão frequente nas relações de longa duração, sendo as mulheres as protagonistas destas queixas. O erotismo dos homens parece ser mais resistente, e o das mulheres mais suscetível, com um desejo sexual mais flutuante. Outras barreiras ao prazer são o cansaço, o stress, e as emoções negativas. A vergonha, a culpa e a tristeza, constituem sentimentos predadores do prazer sexual. Por outro lado, preocupamo-nos muito durante o ato sexual. Preocupamo-nos com a obrigatoriedade do orgasmo, com o tempo que estamos a demorar, se estamos ou não a dar prazer ao outro, ou pensamos na lista do supermercado, na agenda do trabalho, ou no jantar dos filhos. E podemos chegar mesmo a aborrecer-nos. Quando vemos que o outro não está a perceber as nossas pistas, quando achamos que o que estamos a dar não é equivalente ao que estamos a receber, ou quando não correspondemos às nossas próprias expectativas.
Homens e mulheres tendem a ser influenciados por fatores diferentes. Os homens, mais centrados na performance sexual, e as mulheres com medo de perder o controlo, medo da entrega, ou com vergonha do corpo. No universo masculino, o grande fantasma é o medo de falhar. Uma falha erétil pode constituir uma ameaça à masculinidade e ser uma experiência de humilhação e embaraço. Mas existem outras variáveis que podem inibir o prazer sexual. Os fatores relacionais também são um peso pesado nesta equação. Por um lado, os chamados desajustamentos eróticos, por exemplo, quando um prefere fazer amor de manhã e o outro à noite. Mas há outras discrepâncias, por exemplo, a nível do desejo sexual, há sempre um membro do casal que tem mais desejo que o outro. E tudo isto exige uma negociação constante, para apaziguar diferenças e encontrar consensos. Os conflitos relacionais, a má comunicação e as questões de poder, podem muitas vezes perturbar a vivência satisfatória do sexo.
A vivência da sexualidade, com o parceiro ou parceira, é um processo contínuo de descoberta e negociação constante, e não termina com o envelhecimento.
Por Ana Alexandra Carvalheira, psicoterapeuta e investigadora na área da sexualidade.
Artigo original publicado no Jornal do Congresso do Curso de Pós-graduação Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo
A sexualidade humana é um fenómeno multidimensional. Num substrato biológico, inscreve-se a dimensão psicológica que inclui as cognições, as emoções, e ainda uma dimensão social, relativa à nossa socialização, que tanto influencia a nossa vivência sexual. Trata-se duma complexa equação de várias variáveis.

