“O futuro da Cirurgia passa pela criação de centros de excelência”
Redação News Farma
01/12/14
Numa retrospetiva dos últimos 30 anos, o presidente da SPCCTV, Prof. Doutor R. Roncon de Albuquerque, fala ao Jornal do Congresso sobre o futuro da especialidade, do caminho já percorrido e do caminho a percorrer pela geração vindoura.Jornal do Congresso | A SPCCTV comemora 30 anos. Como nasceu esta Sociedade?
Prof. Doutor R. Roncon de Albuquerque | A Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardiotorácia e Vascular (SPCCTV), fundada oficialmente em 1984, partiu de uma ideia do grande mestre da Cirurgia Cardíaca, o Prof. Doutor Manuel Eugénio Machado Macedo. Alguns anos antes, em 1979, este professor teve a sensibilidade de perceber que existiam em Portugal cirurgiões e outros especialistas dedicados a um campo da cirurgia muito específico, que não a Cirurgia Geral, mas a Cirurgia Cardiotorácica e Vascular. Tendo em vista a criação de uma sociedade científica que pudesse reunir estes especialistas, o grande objetivo deste projeto foi, desde a sua fase embrionária, o de promover o desenvolvimento da cirurgia cardiotorácica e vascular em prol da saúde dos portugueses. Para esse fim, foi convocada uma reunião informal em março desse ano, na qual ficou patente a necessidade de se constituir uma sociedade de Cirurgia Cardiotorácia e Vascular, que levou cinco anos para se concretizar.
JC | Nessa altura, a Cirurgia Cardiotorácica e Vascular já existia enquanto especialidade?
RRA | Não, nessa altura estávamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Os cirurgiões dedicados a estas áreas não estavam associados a uma sociedade especializada, pertenciam pois à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, que incorporava também a Cirurgia Geral. Após a sua fundação em 1984, a SPCCTV permaneceu ainda ligada à Sociedade de Ciências Médicas, tendo ganho autonomia apenas em 2000, com a direção do Prof. Doutor José Manuel Roquette.
JC | De que forma tem acompanhado a evolução da SPCCTV ao longo destes anos até chegar a presidente?
RRA | Estive envolvido no trabalho da SPCCTV desde a data da sua fundação. Na primeira direção da sociedade, presidida pelo Prof. Doutor Jaime Celestino da Costa, fiz parte dos órgãos sociais como vice-presidente da Assembleia Geral. Nessa altura já era doutorado em Cirurgia e integrei a sociedade por convite do presidente. Vi a Sociedade crescer e transformar-se e é com muita honra que termino agora o mandato que presido desde 2013.
JC | Na sua opinião, o que é que une e caracteriza os membros da SPCCTV ao longo dos anos?
RRA | É o coração. Do coração partem os vasos, as artérias, as veias. Se há algo que nos une no corpo é o coração, e o mesmo acontece no seio da Sociedade.
JC | Nestes 30 anos, o que é que mudou na abordagem cardiotorácica e vascular?
RRA | Essencialmente mudaram duas coisas muito importantes. Primeiro, os cuidados intensivos estão cada vez melhores. Antes tínhamos de ser nós os observadores do pós- operatório destes doentes para assegurarmos a recuperação da cirurgia. Hoje em dia esta etapa é da responsabilidade de uma equipa de intensivistas, acompanhamento de grande importância visto que estamos a falar de doentes com idade avançada. Em segundo lugar, interessa referir o avanço da área da Cirurgia Minimamente Invasiva. Na prática clínica atual é possível, através de uma simples picada, compor uma coronária, uma carótida ou uma ilíaca ou, por exemplo, controlar uma situação clínica considerada grave, como o aneurisma da aorta, através de uma prótese introduzida por via femoral. Graças a estes avanços, hoje em dia praticamente não existe mortalidade no tratamento do aneurisma da aorta, o que representa um avanço sem precedentes nesta área. Em síntese, se há alguma especialidade que assistiu a um passo de gigante foi a Cirurgia Cardiotorácica e Vascular, em todos os campos, quer na Cirurgia Cardíaca e mesmo na Cirurgia do Pulmão e Vascular.
JC | Estamos a falar de 30 anos de evolução constante ao nível da tecnologia, ciência e conhecimento. De que forma é que a SPCCTV tem acompanhado estes desenvolvimentos?
RRA | A chave para este acompanhamento reside na formação. A formação em Portugal é de elevada qualidade. Como não podia deixar de ser, a SPCCTV tem feito um esforço para incentivar e apoiar a formação dos especialistas da área, sobretudo os mais novos. Recentemente foi lançado um programa de estágios gratuitos dirigido a médicos internos e especialistas mais jovens, para permitir a mobilidade entre hospitais, tendo em conta as suas valências mais fortes e as áreas em que são mais especializados. Há hospitais de excelência com serviços de excelência, pelo que é uma mais-valia possibilitarmos aos jovens especialistas uma experiência laboral nestes locais.
JC | Como prevê o futuro da Cirurgia Cardiotorácica e Vascular nos próximos 30 anos?
RRA | Penso que o futuro da Cirurgia, independentemente da área cirúrgica, é fundamentalmente a criação de centros de excelência qualificados, incrementando a rentabilidade máxima dos recursos humanos, técnicos e financeiros. É pouco relevante existirem 10 centros de transplantação no país, pois é muito mais viável que os vários doentes sejam encaminhados para um ou dois centros de excelência que possam providenciar a esses doentes todos os recursos – e os melhores recursos – quer humanos, materiais, técnicos e logísticos. Fazendo as contas, sai mais cara a manutenção dos vários centros onde é possível fazer transplantes do que a canalização dos recursos para centros qualificados, que garantam o melhor tratamento, com a mais alta tecnologia, aplicada pelos especialistas mais qualificados e experientes. Portanto, a criação de centros de excelência é algo que vejo surgir naturalmente em Portugal nos próximos 30 anos, tendo em conta os desenvolvimentos dos últimos anos. Particularizando, é também este cenário que prevejo necessário para o futuro da nossa especialidade. Infelizmente, a SPCCTV não pode assumir o papel que gostaria nesta transformação uma vez que não tem nenhum rendimento, trata-se de uma sociedade comunitária, dependente da vontade e brio profissional dos seus membros e sócios.
JC | Na sua opinião, o que poderia ser feito para mudar esta situação?
RRA | Penso que sociedades como esta deviam ser acarinhadas pelo Estado e deveria haver, dentro do Serviço de Saúde e do Ministério da Educação um esforço para enriquecer estas entidades, ao invés de as abandonar ou ignorar. Desde a sua fundação, a SPCCTV nunca teve o lucro como finalidade, mas tão só a intenção e o desejo de desenvolver o campo da Medicina a que nos dedicamos em prol da sociedade portuguesa.
JC | Finalidade essa a que SPCCTV tem dado prioridade e continuidade ao longo destes anos...
RRA | Sim, é esse o nosso grande anseio e expectativa. O nosso país tem uma massa crítica de internos e novos cirurgiões de elevada qualidade e altamente qualificados, com uma formação superior e cada vez mais vasta. No entanto, há que estar alerta para uma questão essencial na nossa especialidade: os mais novos estão a ser habituados a trabalhar com cateteres e sondas e tornam-se exímios nesses processos, porém desaprendendo, em certa medida, a cirurgia de base convencional, essencial para uma cirurgia de emergência. Dito isto, todos os avanços na área da cirurgia minimamente invasiva são bem-vindos, mas é de incontornável importância salvaguardar os métodos cirúrgicos tradicionais e incentivar a que, a par dos avanços e tecnologias inovadoras, não se perca de vista o que é fundamental: a cirurgia na sua aceção original, enquanto abordagem quirúrgica. Podemos abraçar a novidade, mas não podemos perder o comboio.
JC | Agora que o mandato da atual direção está a chegar ao fim, o que é que tem sido feito nestes dois anos para concretizar as pedras basilares desta direção – ensino, investigação e assistência?
RRA | Em primeiro lugar é importante salientar que quando um especialista assume a presidência da Sociedade, não despimos as nossas funções de ser médicos, cirurgiões, diretores e chefes de serviço, pelo que existe sempre um acompanhamento muito de perto das transformações na ciência, em função das quais atuamos no seio da SPCCTV. Tendo em conta as palavras-chave orientadoras do trabalho da atual direção, têm sido promovidos estágios e palestras, a par da manutenção dos Congressos e Reuniões, organizados alternadamente.
JC | Quais são as novidades desta 14.ª edição do Congresso da SPCCTV?
RRA | O principal objetivo dos nossos congressos e apresentações é o de promover o desenvolvimento da ciência médico-cirúrgica respeitante ao coração e aos vasos sanguíneos. Isso é o fundamental. E de que maneira o poderemos conseguir? Chamando um grupo de pessoas, que felizmente é grande, para discutir os assuntos mais prementes na área. Este Congresso vai trazer muitos palestrantes estrangeiros para partilharem connosco as suas experiências e opiniões. Os colegas virão dos mais variados pontos do mundo, desde a nossa vizinha Espanha, até Inglaterra, Holanda, Polónia e Brasil, só para mencionar alguns. Teremos a possibilidade de ouvir os jovens através das comunicações livres e posters. Este ano serão apresentados 27 posters só na área da cirurgia vascular, totalizando 47 apresentações nacionais que representam uma amostragem dos avanços científicos na área. Este Congresso é um palco onde é possível apresentar o que já fizemos, o que estamos a fazer e uma antevisão do que poderá ser feito no futuro.


