Mais de 14 mil jovens da região centro avaliaram o seu risco arrítmico

Dr. Rui Providência, Cardiologista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
09/02/15
Mais de 14 mil jovens da região centro avaliaram o seu risco arrítmicoAs doenças cardíacas são a quinta causa de morte mais comum nos jovens. A morte súbita cardíaca, definida como morte de causa cardíaca (previamente conhecida ou não), que ocorre no intervalo de uma hora após início dos sintomas (em geral, em poucos minutos), é a forma de apresentação na maior parte dos casos. Tendo em conta o número de jovens na faixa etária abaixo dos 35 anos, morrem em Portugal, anualmente, mais de 100 jovens por este motivo.



Para a grande maioria dos casos, se tivessem sido atempadamente diagnosticados, existem intervenções que poderiam ter evitado o desfecho trágico. Dispomos de tratamentos curativos (é o caso da ablação percutânea, possível em doentes com síndromes de pré-excitação); de terapêutica médica que permite melhorar o prognóstico (nomeadamente, através da administração de beta-bloqueantes a doentes com síndrome de QT longo); ou a evicção de certos fármacos (por exemplo, na síndrome de Brugada e na síndrome de QT longo). Existem ainda casos em que o risco é de tal forma elevado que pode mesmo haver uma indicação para a implantação de cardioversor-desfibrilhador de forma profilática.

É também sabido que na maioria dos casos, nomeadamente nas formas mais prevalentes (miocardiopatia hipertrófica [1/500] e síndrome de pré-excitação [1/333], entre outras) o simples eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações pode fornecer fortes bases para o diagnóstico.

Em grande parte dos casos (por exemplo: miocardiopatia hipertrófica, síndrome de QT longo), existem também outros familiares afetados com estas patologias. Por esse motivo, a identificação de indivíduos acometidos é de grande importância, não só para os mesmos, mas também para os seus familiares, que também poderão vir a beneficiar de medidas terapêuticas apropriadas. Tal leva a que em certos países existam consultas hospitalares para avaliação sistemática de familiares de vítimas de morte súbita em idade jovem.


Dados do rastreio estarão disponíveis no final de 2015

Os valores de prevalência de cardiopatias e canalopatias disrítmicas na população jovem que utilizamos diariamente são provenientes da literatura internacional. Não são conhecidas as particularidades no nosso país. Atendendo a estas premissas, foi conduzido um rastreio de larga escala na região centro do País, entre 2011 e 2012, que avaliou a população jovem, com idades inferiores aos 35 anos, através da realização de um ECG de 12 derivações e de um questionário informatizado, pesquisando a presença de determinados sinais de alarme (baseado em indicações da American Heart Association e da European Society of Cardiology).

O objetivo foi testar ao nível regional um sistema simples de rastreio, de forma a equacionar a sua aplicabilidade futura em larga escala (avaliação global de populações).
Mais de 14.000 jovens participaram neste estudo. A análise dos primeiros milhares de participantes revelou novos casos de doença, em número semelhante às prevalências reportadas internacionalmente. Vários indivíduos com síndromes de pré-excitação foram referenciados para ablação percutânea, alguns jovens começaram tratamento médico com beta-bloqueantes e em dois casos foram implantados cardioversores-desfibrilhadores. Devido ao extenso tamanho da amostra os resultados finais do estudo estarão disponíveis no final de 2015.


Prevenção da morte súbita cardíaca falha em Portugal

Apesar da importância da prevenção primária, é de referir que o rastreio não é de forma alguma infalível. A ocorrência de miocardite, fibrilhação ventricular idiopática, commotio cordis, patologia aórtica e, por vezes, síndrome de Brugada são causas que poderão passar despercebidas. Tal deriva do facto de algumas poderem acontecer em indivíduos previamente saudáveis e/ou com ECG normal, ou devido à presença de padrão eletrocardiográfico dinâmico.

Assim, há que ter também em conta o grande potencial da prevenção secundária. Se atendermos ao facto que na maioria dos casos o mecanismo causal são arritmias, e habitualmente taquicardia ou fibrilhação ventricular, a existência disseminada de cardioversores-desfibrilhadores automáticos externos e pessoas treinadas e habilitadas para a sua utilização poderá ser outra forma de diminuir este tipo de mortalidade. Infelizmente, o uso desta arma não está a ser feito da melhor forma ao nível nacional, porque: 1) Existem poucos aparelhos disponíveis no país; 2) Encontram-se mal distribuídos, com imensas assimetrias; 3) A legislação não acompanha a realidade e as necessidades nacionais.

Se tivermos em conta que a morte súbita cardíaca ainda é mais frequente na população adulta com idade superior aos 35 anos, os desfibrilhadores automáticos externos têm obrigatoriamente que ser considerados opções altamente eficazes e com uma relação custo-eficácia significativamente favorável, devido à alta incidência do problema e relativo baixo custo dos mesmos. A estrada para travar a morte súbita cardíaca ainda é longa. No entanto, o rumo a seguir para chegar a um bom porto já é conhecido.

Por Dr. Rui Providência, Cardiologista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e Research Fellow, The Heart Hospital University College of London Hospitals NHS Trust

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