Nem só de hepatites vive a Hepatologia

Prof.ª Doutora Helena Cortez-Pinto, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)
13/02/15
Nem só de hepatites vive a HepatologiaSão esperados no Centro Cultural de Belém cerca de 250 participantes no Congresso Português de Hepatologia /18.ª Reunião Anual da APEF, onde o objetivo será "conseguir congregar os médicos que estão interessados nas várias áreas da Hepatologia", disse em entrevista a Prof.ª Doutora Helena Cortez-Pinto, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF). Durante dois dias vão ser discutidos vários assuntos, fora do enfoque exclusivo nas hepatites, já que a Hepatologia não se dedica apenas a estas doenças do fígado.



News Farma - Quais as expectativas do Congresso Português de Hepatologia/18.ª Reunião Anual da APEF?

Prof.ª Doutora Helena Cortez-Pinto - Conseguir congregar os médicos que estão interessados nas várias áreas da Hepatologia e, de facto, são cada vez mais os médicos de outras especialidades que se interessam pela área. Para além dos gastrenterologistas, a área do fígado interessa a internistas, pediatras, infecciologistas, cirurgiões, radiologistas.

NF – Quais os principais temas abordados neste encontro?
HCP – Tentámos não repetir os temas discutidos no ano passado. Procurámos fugir um pouco do enfoque nas hepatites, abordando assuntos como o fígado gordo, por ser uma patologia frequente, mas também algumas doenças raras, a doença hepática medicamentosa (DILI) e as complicações da doença hepática. Também pretendemos dar atenção à questão dos cuidados paliativos na doença hepática.

NF– Também vai ser dado destaque à apresentação de trabalhos e casos clínicos?
HCP - Teremos duas sessões em que serão apresentadas nove comunicações orais em cada uma e mais de 100 comunicações sob o formato de poster, incluindo também a comunicação de casos clínicos como poster. Teremos como novidade a Maratona de Casos Clínicos, que consiste na apresentação de 9 casos clínicos num formato muito breve e na discussão por diferentes médicos especialistas. A apresentação de casos clínicos é uma maneira muito didática de expor as situações, sobretudo para os médicos mais novos.

NF – Qual a importância deste Congresso para os participantes?
HCP – Beneficiam pelo fato de adquirirem mais conhecimentos em determinadas áreas, fazendo uma atualização, que lhes permitirá tratar melhor os doentes. Por outro lado, ficam a conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido pelos colegas, bem como resultados da realidade nacional, através de diversos estudos, não só os epidemiológicos como os de investigação básica ou clínica.

NF – Apesar das hepatites serem menos abordadas, a hepatite C será certamente um dos temas que vai ser abordado...
HCP – Sim, estão agendados três simpósios da responsabilidade da indústria farmacêutica. Apesar de parecer uma questão fácil, ainda existem dúvidas e questões, até porque nem todos os tipos de hepatite são iguais, logo podem ter diferentes formas e tempos de tratamento, conforme o genótipo ou a gravidade da situação hepática.

NF - Qual a posição da APEF relativamente ao consenso entre a companhia farmacêutica e o Ministério da Saúde?
HCP - A APEF congratula-se com o facto de se ter conseguido chegar a um consenso e sobretudo a um preço mais baixo do que o inicial. Estamos todos de parabéns e vai haver com certeza a possibilidade de tratar um elevado número de doentes, havendo realmente a possibilidade de erradicar a hepatite C a médio prazo. Aliás, nos últimos anos, já se tinha verificado um decréscimo de novos casos de hepatite C, por isso acho que será um objetivo que iremos conseguir se conseguirmos tratar os doentes já identificados, e os que iremos identificar, sobretudo através do rastreio das populações de risco. Contudo, infelizmente algumas doenças do fígado continuam a não ser tão abordadas como desejaríamos, como acontece com a doença hepática alcoólica.

NF – Qual o motivo?
HCP - Ao contrário do que acontece com a hepatite C, a doença hepática alcoólica não tem sido alvo da mesma atenção pelos meios de comunicação. A razão principal prende-se com o facto de não haver grande interesse por parte da indústria farmacêutica, porque ainda não se encontraram fármacos eficazes para o tratamento da doença hepática alcoólica, ou porque é uma população que não tem tanto impacto junto da comunicação social. Contudo, a ingestão excessiva de álcool é de longe a causa mais frequente de doença hepática em Portugal, sendo também um cofator de progressão de todas as doenças hepáticas, aumentando significativamente o risco de evolução para cirrose e cancro do fígado. Ao longo destes anos, a APEF desenvolveu contacto com o SICAD, em particular com o Fórum Nacional Álcool e Saúde, com quem teve várias reuniões. Vou dar-lhe um exemplo desse desinteresse: há uns meses surgiu uma contestação a uma lei introduzida na Irlanda sobre o preço mínimo por cada unidade de álcool, lei esta que achamos que poderia reduzir o consumo. No entanto, vários países da União Europeia apoiaram esta contestação, incluindo Portugal. Nessa sequência, emitimos um comunicado à imprensa expressando que esse tipo de lei não devia ser contestado, uma vez que podia reduzir o consumo nocivo de álcool. No entanto, não foi dada qualquer importância a este comunicado. Na verdade alguns temas são muito mediatizados, outros não.

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