Prof. Doutor Jaime Branco: “Não podemos pensar apenas nas doenças que matam”

Prof. Doutor Jaime Branco, reumatologista
19/02/15
Prof. Doutor Jaime Branco: “Não podemos pensar apenas nas doenças que matam”Apesar de não se mostrar surpreendido com os dados que apontam que mais de 50% da população portuguesa sofre, pelo menos, de uma doença reumática, o Prof. Doutor Jaime Branco assume que algumas variações regionais podem ter "leituras engraçadas".



Ainda no rescaldo da apresentação dos resultados do EpiReumaPt, o principal coordenador do primeiro e único estudo epidemiológico sobre as doenças reumáticas em Portugal adianta que há ainda um longo caminho a percorrer para melhorar os cuidados prestados aos doentes. Desde logo, o aumento do número de reumatologistas nos hospitais e a formação contínua dos médicos de Medicina Geral e Familiar.

Médico News | Já era antiga a necessidade de termos dados nacionais sobre as doenças reumáticas. A partir de que momento o projeto começou a ganhar forma?
Prof. Doutor Jaime Branco | O projeto surgiu há muito tempo, antes provavelmente de eu ser reumatologista. A existência de números nacionais sobre uma patologia tão frequente como a doença reumática sempre foi uma grande necessidade. Havia alguns dados, mas a nível regional. Não tínhamos a ideia exata de qual era o peso epidemiológico da doença reumática no nosso país. Por norma, ajustávamos os nossos dados aos de países semelhantes, como a Grécia, a Espanha, a Itália e a França, nos quais já havia estudos epidemiológicos. Ainda assim, e apesar de acreditarmos que a nossa realidade estaria muito próxima da desses países, há sempre variáveis que podem influenciar os padrões epidemiológicos. Em 2004, no contexto da Década do Osso e da Articulação (2000-2010), foi criado, no âmbito do Plano Nacional de Saúde, o Programa Nacional Contra as Doenças Reumáticas (PN-CDR), que previa, entre os seus principais objetivos, a realização de um estudo epidemiológico a nível nacional.
A partir de então eu e a Prof.ª Helena Canhão começámos a trabalhar nesse projeto, até porque queríamos dar seguimento ao esforço do Prof. Viana de Queiroz (que foi o primeiro coordenador do PNCDR) para que este estudo pudesse avançar.

MN | O financiamento foi sempre o maior entrave?
JB | Começámos por fazer o desenho geral, prevendo os vários cenários, conforme os recursos que fomos obtendo, quer financeiros, quer materiais, quer humanos. O PNCDR, em si, não tinha financiamento, pelo que o passo seguinte foi procurar financiamento por outras vias. Procurámos apoio na Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR), contudo, precisávamos, inevitavelmente de outros parceiros, como a Faculdade de Ciências Médicas, que apoiou o projeto desde o início, a Direção Geral da Saúde, que se revelou fundamental em termos financiamento e o CE SOP da Universidade Católica Portuguesa.
Portanto, este enquadramento foi-se mantendo, mas foi durante o período da direção do Dr. Rui André da SPR que nós conhecemos um maior implemento, um bocadinho devido também à maior dinâmica que a mudança de ministro do Professor Correia de Campos para a Dr.ª Ana Jorge incutiu a estes programas. Essa dinamização fez com que nós ganhássemos um segundo fôlego, programámos várias tarefas, nós e os vários programas que existiam, como era o caso da Diabetes.

MN - Qual foi o passo seguinte?
JB – A partir daí, conseguimos avançar bastante. Estruturámos o modelo do estudo e publicámos o protocolo na Acta Reumatológica Portuguesa. Conseguimos ganhar um concurso da Direção-Geral de Saúde para entidades sem fim lucrativo, (que foi a SPR), o que, de acordo com os nossos cálculos, cobria mais ou menos metade dos custos do estudo.
Angariámos, junto da indústria farmacêutica, de particulares, da Fundação Calouste Gulbenkian, o resto do financiamento e arranjámos apoios vários como a Galp, o Laboratório Germano de Sousa, etc. Depois disto tudo, conseguimos arrancar a 19 de setembro de 2011 para o terreno com duas fases. Uma primeira fase de entrevistas feitas em casa a 10 661 pessoas, por um conjunto entrevistadores não médicos, formados por nós e pelo CESOP, munidos de instrumentos eletrónicos de apoio. Numa segunda fase, uma parte das pessoas entrevistadas em casa (3886) foram convocadas para uma consulta de Reumatologia.

MN | Essas pessoas eram convocadas porque apresentavam sinais de doença reumática?
JB | A seleção era feita automaticamente pelo próprio sistema informático. As pessoas que tinham algum sinal ou sintoma de doença reumática ou já estavam a tomar medicação, eram referenciadas para a consulta. Além disso eram também selecionados 20% dos indivíduos "normais" ou seja, daqueles que, na primeira fase, não aparentavam ter doença reumática.
As consultas de Reumatologia eram realizadas nos Centros de Saúde das várias localidades com o apoio da Unidade Móvel, onde podiam fazer radiografias, medição da densidade óssea e colheita de sangue, assim como medição da tensão arterial, da altura, do peso. Dados que vão muito para além das doenças reumáticas.

MN | Destes doentes que foram chamados para consulta, era muito elevada a taxa de subdiagnóstico?
JB | A prevalência encontrada no estudo foi de 56%, contudo, apenas 22% estavam já diagnosticados com uma doença reumática.

MN | Como serão trabalhados estes dados?
JB | Neste momento, temos um call centre, onde uma equipa de seis pessoas está a fazer contactos de follow-up aos indivíduos inquiridos e avaliados. Isto é único, dispomos agora de uma coorte nacional (continente e regiões autónomas dos Açores e Madeira) da qual vamos retirar muitos dados relevantes. Temos material que dará origem a muitos trabalhos de investigação. No futuro pretendemos transformar estes dados numa base muito mais ampla do que apenas a doença reumática. A ideia é transformarmos isto numa coorte de doença crónica não transmissível, é o que estamos neste momento a fazer. Este é o futuro.

MN | E quanto ao presente?
JB | Falando do presente, o trabalho em campo terminou dentro do prazo previsto. Teve uma duração de 27 meses e foi concluído a 20 de dezembro do ano passado. Portanto foi de 19 de setembro de 2011 a 20 de dezembro de 2013. Depois disso, tivemos 9 meses de trabalho intenso, de limpeza da base de dados, estatística, informática, trabalho epidemiológico e confirmação de resultados. Neste momento, tudo isso está concluído e os nossos números estão todos limpinhos, mas não estão todos trabalhados, já que são mais de 10 milhões de dados.

MN | Em termos de recursos humanos, quantas pessoas estiveram envolvidas no estudo?
JB | O EpiReumaPt envolveu mais de 190 entrevistadores, 254 centros de saúde, durante todo o trabalho mobilizámos 7 enfermeiros, 3 técnicos de radiologia, 5 motoristas. Os médicos reumatologistas fizeram um trabalho extraordinário, 95 acabaram por fazer graciosamente consultas.

MN | Alguns destes dados o surpreende particularmente ou no fundo correspondem ao que era esperado?
JB | O facto de mais de 50% da população portuguesa ter, pelo menos, uma doença ou queixa reumática é surpreendente, não para mim que faço Reumatologia desde 1982 e portanto já vão lá 32 anos, mas para quem não faça ideia nenhuma é absolutamente surpreendente. Claro que não estamos a falar de doenças reumáticas todas com a mesma gravidade, porque estas tem um largo espectro de gravidade. Umas são patologias ligeiras outras são patologias mais graves, umas são patologias degenerativas outras inflamatórias, a maioria crónicas, mas também temos aqui com um peso de quase 16% de patologia peri-articular, que na generalidade não é crónica, é aguda. Nós procurámos sempre que a consulta não fosse distanciada da entrevista inicial mais de 15 dias, no máximo 3 semanas, exatamente para não perdermos a patologia aguda.
Há aqui alguns números que podem surpreender-me, nomeadamente, algumas variações regionais que nós ainda não trabalhámos e que eu ainda não queria aprofundar muito. Mas tenho a certeza de que esses dados terão leituras engraçadas.
A osteoporose tem números impressionantes. A osteoartrose está dentro do que nós esperávamos e acompanha precisamente o envelhecimento da população.
As autoridades têm de dar atenção a isto, às doenças reumáticas e a outras doenças crónicas. Não podemos pensar só nas doenças que matam. Não podemos, como país civilizado, pensar só na investigação das doenças que matam, isso é um sinal de subdesenvolvimento tremendo. A ideia de que só se pode ter dinheiro para a SIDA, para a doença cardiovascular, para o cancro, com todo o respeito para essas patologias, está errada. Quando eu era jovem interno de Reumatologia, já ouvia o meu patrão, o Prof. Viana Queiroz, e o diretor do serviço, o Prof. Fernando Pádua, repetirem aquilo que era a mensagem, já nessa altura, da Organização Mundial de Saúde, "é importante dar mais anos à vida, isto é, aumentar a longevidade, mas também é importante dar mais vida aos anos".
Poucos dias depois da apresentação oficial dos resultados do EpiReumaPt, foram apresentados, pela Gulbenkian os dados sobre a saúde dos portugueses. Aquilo que me choca é que, de acordo com este relatório, cinco anos depois da reforma, as pessoas estão doentes. Na Holanda há um intervalo de 15 anos, o que significa que as pessoas envelhecem com muito mais qualidade.

MN | No contexto da Reumatologia o que é que falta fazer em termos políticos?
JB | Falta colocar Reumatologistas nos hospitais, falta a formação contínua de médicos de família. A minha direção da SPR, de 2002 a 2004, começou um intercâmbio com a Associação de Médicos de Clínica Geral, agora chamada Associação de Medicina Geral e Familiar, em que na altura o Dr. Luís Pisco era o presidente. Tivemos variadíssimas ações em conjunto de que resultou um pequeno manual de bolso sobre doenças reumáticas, "Regras de Ouro em Reumatologia", que até pensaram fazer para outras especialidades, sendo que teve sete edições, uma delas feita pela própria Direção-Geral de Saúde. Além disso, desde então, eu e a Dr.ª Manuela Costa, que era na altura a minha Secretária Geral Adjunta, fazemos, anualmente, pelo menos, uma escola de Medicina Geral e Familiar, houve um ano em que até fizemos duas. A última edição foi em novembro de 2014 em Peniche.

MN | Quem trata os doentes reumáticos nas zonas do país onde não há reumatologistas?
JB | Nos locais onde não há reumatologia, esse espaço é ocupado por outras especialidades e isso é sobretudo pouco benéfico para os doentes. Estou a falar da Medicina Interna e da sua fixação com as doenças autoimunes, mas só as do foro reumatológico. Curiosamente, no contexto da doença reumática, esses especialistas têm preferência pelo lúpus eritematoso sistémico e pela artrite reumatoide. Nunca ouvi falar de um internista que se preocupasse em tratar um doente com osteoartrose. A artrite reumatoide mais o lúpus dá 0,8%, então e os outros 55%? E o pior é que, em muitos hospitais, utilizam esta sua pretensa aptidão para obstruir a contratação de reumatologistas.

MN | Essa preferência está relacionada com o uso de terapêutica biológica?
JB | Provavelmente não está longe da verdade. É engraçado que só os Gastrenterologistas têm autorização para prescrever terapêutica biológica a indivíduos com doença inflamatória do intestino. No entanto, toda a gente pode prescrever terapêutica biológica a indivíduos com doença reumática inflamatória. Isto para mim só tem um nome: desrespeito. Corremos o risco de estar a tratar doentes fora da indicação terapêutica. A SPR já mostrou os seus registos, aliás, pioneiros no país, de doentes medicados com agentes biológicos, contudo, continuamos à espera dos registos dos colegas da Medicina Interna. Se estão a prescrever dentro da indicação, então não há nada a esconder ou a recear.

Artigo publicado na revista Médico News Especial EpiReumaPt.

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