Pneumologia portuguesa preparada para "dar o salto" no panorama internacional

Redação News Farma
20/04/15
Pneumologia portuguesa preparada para “dar o salto” no panorama internacionalNo rescaldo do XXX Congresso de Pneumologia/VIII Congresso Luso-Brasileiro, que teve lugar entre os dias 6 e 8 de novembro, na Praia da Falésia, o Prof. Doutor Carlos Robalo Cordeiro sublinha os momentos chave de um Congresso que irá ficar para a história como marco da internacionalização, inovação e profissionalização, no ano em que a SPP comemorou 40 anos de existência.


Com o mandato a chegar ao fim, o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) reflete sobre os objetivos alcançados pela atual direção, anuncia os projetos para o ano de 2015, e perspetiva o futuro de uma Sociedade sólida e dinâmica no caminho do sucesso.

News Farma (NF) – Ao longo destes 30 anos, considera que o Congresso tem acompanhado e refletido o crescimento e os objetivos traçados pela SPP?
Prof. Doutor Carlos Robalo Cordeiro (CRC) – Julgo que sim. O Congresso tem acompanhado, não só o crescimento da SPP, mas também a evolução da própria especialidade. A Pneumologia é uma área com uma importância crescente e a patologia respiratória é cada vez mais abrangente. Estas tendências não podiam deixar de se refletir no Congresso com um aumento assinalável, de ano para ano, do número de participantes e de abstracts submetidos e apresentados, e também na capacidade de atração de outras áreas de conhecimento médico para além da Pneumologia como, por exemplo, a Medicina Geral e Familiar.
Chegados à 30.ª edição, alcançámos recordes nunca antes observados. A submissão de trabalhos aumentou em 30% do ano de 2013 para 2014, com 266 abstracts enviados, dos quais 264 foram aceites. Da mesma forma, o número de inscrições em 2013 foi superado, de cerca de 660 para mais de 780 em 2014. Os números atingidos espelham os "anos de ouro da Pneumologia" e colocam esta especialidade claramente em contraciclo face ao panorama nacional na área da Saúde.

NF – Este foi o primeiro Congresso após a assinatura do protocolo entre a SPP e a European Respiratory Society (ERS), em linha com o objetivo de internacionalização da SPP. De que forma este protocolo, em vigor desde o início de 2015, se refletiu desde logo no Congresso?
CRC – Houve, desde logo, uma participação oficial da ERS no Congresso da SPP, com o secretário-geral da Sociedade Europeia, Prof. Giovanni Migliori, a acompanhar o Congresso na íntegra. Durante o evento, foram promovidas reuniões conjuntas nas quais participaram também outras sociedades congéneres, como sejam a Sociedade Española de Neumología y Cirurgia Torácica, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e a Asociación Latinoamericana del Tórax. Pretendeu-se, nestes momentos, estruturar o programa de um dia em espanhol e língua portuguesa, que decorrerá já no próximo congresso da ERS, em Amesterdão.
Para além disso, o programa científico trouxe ao palco pneumológico português um membro do Hermes (programa educacional da ERS), numa sessão dedicada à formação em Pneumologia. Neste contexto, discutiu-se a harmonização curricular que, para além de definir um currículo comum para a Europa, prevê uma avaliação standard a partir da submissão a um mesmo exame, com o potencial de conferir um diploma válido em toda a Europa. No mais imediato, esta presença foi fundamental para preparar o programa de formação Best Trainees (dirigido a internos de Pneumologia) que este ano se designará Trainees Summitt. Nesta versão, a formação habitual será complementada precisamente pelo exame do Hermes enquanto ferramenta de autoavaliação e certificação de conhecimentos.
O intercâmbio com a ERS verificou-se ainda com a iniciativa "Meet the expert point", lançada pela primeira vez este ano no Congresso. Estes "pontos de encontro" com os experts decorreram durante os intervalos das sessões, acolhendo representantes considerados expoentes da Pneumologia europeia para discutir casos clínicos e apresentar novidades.

NF – Enquanto Congresso Luso Brasileiro, este ano a marcar a sua 8.ª edição, este encontro contou com a participação ativa de entidades como a Sociedade Española de Neumología y Cirurgia Torácica e a Asociación Latinoamericana del Tórax, bem como de outras sociedades parceiras, como a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, à qual este ano se juntou a Sociedade Portuguesa de Pediatria, com a assinatura de um protocolo de colaboração durante o Congresso. Qual a importância e que consequências práticas derivam da formalização deste protocolo?
CRC – Este foi um dos protocolos com uma mais rápida expressão na prática. Para começar, neste novo figurino da dupla condição societária da SPP e da ERS, verificámos que vários membros da Sociedade Portuguesa de Pediatria, mais especificamente da secção de Pneumologia Pediátrica, passaram a ser também sócios da SPP, já depois do Congresso, de forma a beneficiarem da dupla condição societária.
No entanto, mesmo antes da formalização deste protocolo, esta colaboração já vinha sendo fomentada. Recentemente promovemos um grupo de trabalho que incluiu a SPP e a SPP, em articulação com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), através do seu Grupo de Doenças Respiratórias (GRESP), o qual deu origem ao Pocket Guide, um livro de bolso de cuidados respiratórios domiciliários apresentado no Congresso.
Neste momento, está em curso a elaboração de um documento semelhante sobre terapêutica inalatória, que envolve estas mesmas entidades – SPP, SPP, GRESP (APMGF) – às quais se juntam desta vez a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) e a associação de doentes RESPIRA. O documento será apresentado no Congresso deste ano.
De resto, há ainda a perspetiva de realizar uma ação comum com a Sociedade Portuguesa de Pediatria, fruto desta parceria, com um formato a definir.

NF – O 31.º Congresso de Pneumologia será o último enquanto presidente da SPP. Qual é o balanço que faz neste mandato e quais são as expectativas para o próximo Congresso?
CRC – Julgo que, no geral, a atual direção terá desenvolvido um bom trabalho a diversos níveis, sobretudo tendo em consideração as três áreas definidas como prioritárias: formação, edição e internacionalização, a que acresce a profissionalização.
Do lado da formação, criámos alguns conceitos novos como, por exemplo, o programa Best Trainees (agora Trainees Summitt) dirigido aos internos do último ano curricular.
Iniciámos também a formação em formato e-learning, com o Curso digital de Tabagismo, o qual já conta com mais de 500 profissionais inscritos, de diversas especialidades.
Na área editorial, e apostando no formato eletrónico, criou-se a newsletter Oxigénio, a qual dá voz aos serviços e profissionais da área, divulgando também a atividade científica da SPP, nomeadamente através das suas Comissões de Trabalho. Depois, a incontornável Revista Portuguesa de Pneumologia, que foi, o ano passado e pela primeira vez, a revista médica portuguesa com maior fator de impacto, marco assinalável que nos enche de satisfação.
Num segundo plano, esta direção investiu na profissionalização da SPP em diversas níveis. Temos hoje uma assessoria jurídica que nos dá um suporte muito importante para todas as nossas atividades e modificámos radicalmente os serviços de apoio de contabilidade. Profissionalizámos também o secretariado através de um acordo com uma agência, que gere agora, com a Direcção da SPP, o respectivo Secretariado. Temos ainda um contrato com uma agência de comunicação, da qual foi selecionado um elemento para webmaster da SPP, encarregue da gestão do site (recentemente renovado), da newsletter e do facebook da Sociedade, para além de outro contrato com agência dedicada à imagem e criatividade na nossa Sociedade. Criámos também um Gabinete de Monitorização das Doenças Respiratórias.
Por fim, a terceira aposta da SPP – a internacionalização – encarada como objetivo prioritário desta direção, constitui hoje uma vertente verdadeiramente cimentada e está a dar frutos visíveis. Para além da dupla condição societária SPP/ERS, destaque-se, desde já, o dia em espanhol e língua portuguesa, que irá ter lugar durante o Congresso da ERS, e um curso pós-congresso anual no Congresso da SPP com o endorsement da ERS, para além, obviamente, de muitas outras iniciativas irão ser desenvolvidas em estreita parceria.
A direção que se segue terá, com certeza, muito espaço para desenvolver e aprofundar estas vertentes, pois julgo que estas três áreas foram bem fortalecidas com a direção que esteve à frente da SPP nos últimos seis anos.
No fundo, a comunidade pneumológica portuguesa tem belíssimos intérpretes – e agora condições – para dar o salto e tornar-se também parte integrante da comunidade científica internacional.

NF – De todos os elementos, o que é que, na sua opinião, fica por fazer para a próxima direção?
CRC – Fica sempre algo por fazer, mas ainda contamos, este ano, concretizar um ambicioso projeto. Pretendemos formalizar, em julho, a criação de uma Associação Respiratória de Língua Portuguesa, a partir de um acordo entre as comunidades pneumológicas de Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique e Brasil. Aproveitaremos a Assembleia Mundial da Global Alliance Against Chronic Respiratory Diseases (GARD), que este ano irá decorrer em Lisboa, nos dias 3 e 4 e julho, sob a organização da SPP e de outras entidades, para cumprir este objetivo. Tendo em conta as necessidades formativas de alguns destes países, esta direção sempre ambicionou constituir uma entidade desta natureza, na perspetiva de desenvolver atividades e programas conjuntos de formação.
Além disso, nos dias 1 e 2, teremos a reunião do chamado Airways ICP (Integrated Care Pathways), que contará com a presença dos representantes dos vários ICP's de toda a Europa.
De resto, julgo que talvez possa ainda ser melhorada a articulação entre a SPP e o Colégio de Pneumologia da Ordem dos Médicos, no sentido do acompanhamento mais integrado destas duas entidades na formação do médico especialista de Pneumologia e também na futura acreditação dos serviços de Pneumologia.
Por outro lado, o que, a meu ver, vai ficar como um dos mais importantes legados desta direção é o Gabinete de Monitorização de Doença Respiratória (GARE). Os primeiros estudos vão começar em abril, com o estudo epidemiológico da DPOC envolvendo 10 mil doentes de todo o país, e teremos resultados preliminares já no próximo Congresso. Terminado esse processo, seremos o primeiro país na Europa com um conhecimento exato da epidemiologia de todo o seu território continental no que diz respeito a esta patologia. Logo a seguir, o estudo de avaliação – o chamado AUDIT – adaptado da ERS, vai ser levado a cabo tanto para a DPOC como para a asma. Serão estudadas as boas práticas médicas em 20 hospitais portugueses, partindo de uma análise dos recursos humanos e técnicos implicados no tratamento destas patologias. No passado, fomos dos poucos países europeus a ficar de fora deste estudo, e é fundamental que Portugal esteja também enquadrado, de modo a melhorar a abordagem destes doentes no nosso País.
Para terminar, julgo que, com as medidas e projetos implementados por esta direção, contribuímos para que a SPP ascendesse de uma sociedade de mais pequena dimensão para uma sociedade dinâmica, articulada e com uma estrutura sólida, que pretende traçar um caminho de sucesso para o futuro.

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