Subida dos internamentos por doenças respiratórias: significado e impacto no orçamento da saúde
Redação News Farma
21/09/15
Na última década tem-se vindo a assistir a uma subida progressiva dos internamentos por doenças respiratórias nos nossos hospitais. Neste período os internamentos aumentaram mais de 15%, o que está em contra-ciclo com a desejável diminuição de internamentos, traduzindo um melhor controlo da doença, objetivo que tem vindo a ser alcançado noutros grupos nosológicos. Este simples dado pode ser indicador da falência de medidas de prevenção das doenças respiratórias, não obstante outros fatores poderem ter influência, como é o caso do envelhecimento da população.
Olhando para as curvas dos internamentos pelas diversas doenças respiratórias verifica-se uma subida abrupta, a partir de 2010, provavelmente relacionável com a crise económico-financeira, que ainda vivemos.
Dado muito relevante é o facto de que os doentes respiratórios que tiveram de ser submetidos a ventilação mecânica passaram de 2763 em 2004 para 5655 em 2013 (+105%). Este dado sugere que nos últimos anos é maior a gravidade dos doentes internados por doenças respiratórias, tanto mais que nada indica que tenha piorado a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.
É claro que estes dados têm implicações orçamentais: com internamentos por doenças respiratórias teremos um custo direto estimado de cerca de 200 milhões de euros em 2013, representando um aumento de 15,5% (base: Preços de GDHs de 2013). A esse valor há que acrescentar um custo estimado de 75 milhões de euros referente a doentes respiratórios submetidos a ventilação mecânica, representando um aumento de 48,8% em relação ao mesmo tipo de doentes em 2004.
As pneumonias, dado a sua frequência e gravidade, constituem o grupo com maiores custos de internamento, ultrapassando os 160 milhões de euros. Destes doentes 6,7% foram submetidos a ventilação mecânica que representou cerca de 25% da despesa.
Já na DPOC, que acarretou um custo estimado de 50 milhões de euros, o peso nesse valor dos 21% de doentes que foram ventilados representou 31%. No caso da DPOC cada doente internado significa que a despesa anual desse doente vai pelo menos triplicar e, se for ventilado, pode aumentar 10 vezes!
Por isso o aumento do número de internamentos tem sem dúvida um peso significativo no orçamento da saúde, mas tem também um peso significativo no orçamento geral das famílias, quer pelos custos diretos, quer indiretos que acarreta.
Mas tem ainda outros significados que devem ser tidos em atenção. Um internamento por DPOC significa uma exacerbação da doença o que piora significativamente o prognóstico da mesma e pode contribuir para uma perda de anos de vida. Igualmente uma pneumonia pode surgir em doentes com outras doenças crónicas: diabetes, doenças cardíaca, por exemplo e, mais uma vez, pode agravar a evolução dessas doenças e conduzir à morte com perda significativa de anos de vida.
É pois mandatório analisar esta subida do número de internamentos e, excluídos fatores como o envelhecimento das populações, apostar fortemente no correto acompanhamento dos doentes crónicos e na prevenção através do combate ao tabagismo e à poluição e na vacinação (gripe e pneumonia).
Dr. Artur Teles de Araújo, presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão


