News Farma (NF) | Como surgiu a oportunidade de apresentar este tema no Dia da Língua Portuguesa e Espanhola?
Dr.ª Fátima Rodrigues (FR) | A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) foi convidada, em conjunto com outras sociedades que falam português e espanhol, nomeadamente a Sociedad Española de Neumología y Cirurgía Torácica (SEPAR), a Sociedade Brasileira de Pneumologia de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e a Associação Latino-America do Tórax, para participar num tema genérico nomeado sobre o exercício e outros comportamentos de estilo de vida com vista a uma melhor saúde pulmonar a nível mundial.
Aceitei o desafio e decidi colocar como hipótese se o exercício pode modificar a evolução natural da doença respiratória. A comunicação teve como base vários estudos científicos, incluindo alguns trabalhos da nossa unidade.
NF | Quais foram os principais resultados apresentados?
FR | A sociedade atual convida ao sedentarismo, há uma tendência natural para se estar parado. A maior parte das profissões implica estar sentado muitas horas e muitas “viagens” fazem-se hoje em dia, através da televisão, sem se sair do sofá... A Organização Mundial de Saúde coloca o sedentarismo como a 4ª principal causa de morte, a seguir à hipertensão, o tabagismo e a hiperglicemia. O sedentarismo contribui para o aparecimento de doenças cardiovasculares como o AVC ou a hipertensão arterial; a diabetes, a osteoporose, a obesidade e até certos tipos de cancro. Em todo o mundo, é atribuída 9% da mortalidade prematura ao sedentarismo, e este foi já designado como a nova epidemia tabágica.
Se o sedentarismo já afeta a população em geral, quando pensamos nos nossos doentes respiratórios, naturalmente que a tendência é acrescida. É importante contrariar esta tendência do doente respiratório para o sedentarismo e, através da reabilitação respiratória, tentar aumentar a capacidade e a tolerância ao esforço, por forma a melhorar a qualidade de vida.
De acordo com um estudo publicado em 2011, concluiu-se que de todos os parâmetros cínicos e funcionais avaliados, o exercício físico era aquele que mais impacto tinha a nível da mortalidade.
A reabilitação respiratória consegue reverter este aspeto e devolver ao doente a qualidade de vida pois aumenta a capacidade para retomar a atividade física com melhor tolerância ao esforço. Assim, a reabilitação altera o curso natural da doença porque diminui a falta de ar e os internamentos, bem como a mortalidade e melhora a qualidade de vida.
Após os programas de reabilitação, é necessário manter a atividade física para que se mantenham os benefícios ali adquiridos. A atividade física é para toda a vida. Hoje em dia existem vários aparelhos e sistemas que podem monitorizar e avaliar a atividade física realizada pelos doentes, para que se possa quantificar o exercício e os níveis de oxigénio.
Em conclusão, os doentes respiratórios são muitos inativos, é preciso conhecermos as barreiras que os impedem de ser ativos e quebrar essas barreiras, bem como explicar ao doente que esta é uma atitude que deve ter para toda a vida para que os benefícios possam perdurar.
NF | Da perspetiva do doente é de facto preciso iniciativa, força de vontade e disciplina para continuar com o exercício regular, mesmo após a reabilitação respiratória. E do ponto de vista da reabilitação respiratória em si, considera que em Portugal existe o suficiente, ou há um défice na sua intervenção? Como poderia caracterizar esta realidade no nosso País?
FR | Há realmente um défice em todo o mundo, infelizmente, bem como uma grande dificuldade em abranger todas as pessoas que necessitam de reabilitação. No caso da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), estimamos que nem 1% dos doentes com DPOC é abrangido pela reabilitação. Isto deve-se ao facto de esta patologia ser altamente subdiagnosticada. Na maior parte dos casos, apenas os doentes mais graves são acompanhados. Mas na restante população, para além de ser urgente atuar o mais cedo possível, é necessário que estas pessoas tenham educação para a saúde, para que a atividade física faça parte das suas vidas. Relevo aqui o papel dos colegas de Medicina Geral e Familiar no incentivo de todas pessoas para serem ativas, no diagnóstico dos casos de DPOC, e a referenciá-los precocemente para programas de exercício regular na comunidade ou, em casos mais graves, a referenciá-los para os programas de reabilitação respiratória em meio hospitalar.
NF | Em conclusão, atendendo à questão que intitula a sua apresentação “Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias?”, conclui-se que sim.
FR | Sem dúvida que pode, a todos os níveis da patologia. Antes de estar doente o exercício é um meio de prevenção. Igualmente na fase inicial da doença e nas fases mais graves a implementação da atividade física regular pode alterar a sua evolução natural.
Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias? Sim
Dr.ª Fátima Rodrigues
28/09/15
"A sociedade atual convida ao sedentarismo, há uma tendência natural para se estar parado", realidade que pode ser alterada através do exercício físico regular, explica em entrevista a Dr.ª Fátima Rodrigues. No Dia da Língua Portuguesa e Espanhola, decorrido no dia 27 de setembro no ERS International Congress, a coordenadora da Unidade de Reabilitação Respiratória do CHLN-Hospital Pulido Valente coloca a questão “Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias?”. Leia aqui as considerações da especialista.


