Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias? Sim

Dr.ª Fátima Rodrigues
28/09/15
Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias? Sim
"A sociedade atual convida ao sedentarismo, há uma tendência natural para se estar parado", realidade que pode ser alterada através do exercício físico regular, explica em entrevista a Dr.ª Fátima Rodrigues. No Dia da Língua Portuguesa e Espanhola, decorrido no dia 27 de setembro no ERS International Congress, a coordenadora da Unidade de Reabilitação Respiratória do CHLN-Hospital Pulido Valente coloca a questão “Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias?”. Leia aqui as considerações da especialista.
News Farma (NF) | Como surgiu a oportunidade de apresentar este tema no Dia da Língua Portuguesa e Espanhola?
Dr.ª Fátima Rodrigues (FR) | A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) foi convidada, em conjunto com outras sociedades que falam português e espanhol, nomeadamente a Sociedad Española de Neumología y Cirurgía Torácica (SEPAR), a Sociedade Brasileira de Pneumologia de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e a Associação Latino-America do Tórax, para participar num tema genérico nomeado sobre o exercício e outros comportamentos de estilo de vida com vista a uma melhor saúde pulmonar a nível mundial.
Aceitei o desafio e decidi colocar como hipótese se o exercício pode modificar a evolução natural da doença respiratória. A comunicação teve como base vários estudos científicos, incluindo alguns trabalhos da nossa unidade.

NF | Quais foram os principais resultados apresentados?
FR | A sociedade atual convida ao sedentarismo, há uma tendência natural para se estar parado. A maior parte das profissões implica estar sentado muitas horas e muitas “viagens” fazem-se hoje em dia, através da televisão, sem se sair do sofá... A Organização Mundial de Saúde coloca o sedentarismo como a 4ª principal causa de morte, a seguir à hipertensão, o tabagismo e a hiperglicemia. O sedentarismo contribui para o aparecimento de doenças cardiovasculares como o AVC ou a hipertensão arterial; a diabetes, a osteoporose, a obesidade e até certos tipos de cancro. Em todo o mundo, é atribuída 9% da mortalidade prematura ao sedentarismo, e este foi já designado como a nova epidemia tabágica.
Se o sedentarismo já afeta a população em geral, quando pensamos nos nossos doentes respiratórios, naturalmente que a tendência é acrescida. É importante contrariar esta tendência do doente respiratório para o sedentarismo e, através da reabilitação respiratória, tentar aumentar a capacidade e a tolerância ao esforço, por forma a melhorar a qualidade de vida.
De acordo com um estudo publicado em 2011, concluiu-se que de todos os parâmetros cínicos e funcionais avaliados, o exercício físico era aquele que mais impacto tinha a nível da mortalidade.
A reabilitação respiratória consegue reverter este aspeto e devolver ao doente a qualidade de vida pois aumenta a capacidade para retomar a atividade física com melhor tolerância ao esforço. Assim, a reabilitação altera o curso natural da doença porque diminui a falta de ar e os internamentos, bem como a mortalidade e melhora a qualidade de vida.
Após os programas de reabilitação, é necessário manter a atividade física para que se mantenham os benefícios ali adquiridos. A atividade física é para toda a vida. Hoje em dia existem vários aparelhos e sistemas que podem monitorizar e avaliar a atividade física realizada pelos doentes, para que se possa quantificar o exercício e os níveis de oxigénio.
Em conclusão, os doentes respiratórios são muitos inativos, é preciso conhecermos as barreiras que os impedem de ser ativos e quebrar essas barreiras, bem como explicar ao doente que esta é uma atitude que deve ter para toda a vida para que os benefícios possam perdurar.

NF | Da perspetiva do doente é de facto preciso iniciativa, força de vontade e disciplina para continuar com o exercício regular, mesmo após a reabilitação respiratória. E do ponto de vista da reabilitação respiratória em si, considera que em Portugal existe o suficiente, ou há um défice na sua intervenção? Como poderia caracterizar esta realidade no nosso País?
FR | Há realmente um défice em todo o mundo, infelizmente, bem como uma grande dificuldade em abranger todas as pessoas que necessitam de reabilitação. No caso da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), estimamos que nem 1% dos doentes com DPOC é abrangido pela reabilitação. Isto deve-se ao facto de esta patologia ser altamente subdiagnosticada. Na maior parte dos casos, apenas os doentes mais graves são acompanhados. Mas na restante população, para além de ser urgente atuar o mais cedo possível, é necessário que estas pessoas tenham educação para a saúde, para que a atividade física faça parte das suas vidas. Relevo aqui o papel dos colegas de Medicina Geral e Familiar no incentivo de todas pessoas para serem ativas, no diagnóstico dos casos de DPOC, e a referenciá-los precocemente para programas de exercício regular na comunidade ou, em casos mais graves, a referenciá-los para os programas de reabilitação respiratória em meio hospitalar.

NF | Em conclusão, atendendo à questão que intitula a sua apresentação “Pode o exercício mudar a evolução das doenças respiratórias?”, conclui-se que sim.
FR | Sem dúvida que pode, a todos os níveis da patologia. Antes de estar doente o exercício é um meio de prevenção. Igualmente na fase inicial da doença e nas fases mais graves a implementação da atividade física regular pode alterar a sua evolução natural.

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