Sabe-se hoje que esse processo, quando identificado e tratado nas fases iniciais, pode ser travado, evitando a evolução da doença para lesões irreversíveis.
Outrora descrita como uma fase final da degradação de uma articulação, muitas vezes confundida com o processo natural de envelhecimento, a osteoartrose é hoje reconhecida como uma doença “mais transversal, mais evolutiva e com um início muito mais precoce do que se pensava”, explica o Dr. Augusto Faustino, em declarações ao Jornal de Saúde Pública.
Na opinião do especialista do Instituto Português de Reumatologia e da Clínica de Reumatologia de Lisboa, têm ocorrido grandes evoluções na área do conhecimento sobre a patogenia da osteoartrose que levam a uma melhor compreensão dos mecanismos mais precoces responsáveis pelas alterações da cartilagem.
Por outras palavras, “a artrose não é um simples desgaste da articulação causado pela idade, na medida em que todas as estruturas intracartilares estão implicadas, muito em especial o osso subcondral e a membrana sinovial. Começamos a perceber que a doença começa muito mais cedo do que pensávamos de forma quase assintomática”, esclarece o reumatologista.
“Com estas descobertas, a osteoartrose passou a ser encarada não como um desgaste terminal da articulação, não como uma doença mecânica, mas sim como um processo metabólico e inflamatório evolutivo que, se não for controlado, acaba por levar a uma degradação da estrutura articular e a manifestações mais avançadas da doença. Até dispormos destes conhecimentos fisiopatológicos da osteoartrose, o tratamento passava, essencialmente, pelo alívio da dor, pela manutenção da função e pela cirurgia para substituição da articulação”, sublinha Augusto Faustino.
Diagnóstico da osteoartrose
Hoje em dia, sem necessitar de grandes exames de diagnóstico, apenas com as queixas do doente e com manifestações radiológicas da osteoartrose, é possível iniciar uma intervenção para evitar que o doente chegue aos últimos estádios da patologia, pois, “parece evidente que, se intervirmos nessas fases mais precoces, conseguimos evitar ou atrasar a evolução para as fases mais avançadas, só tratáveis adequadamente com recurso a cirurgia ortopédica para substituição da articulação por uma prótese”.
Fatores de risco
Os principais fatores de predisposição para o desenvolvimento da osteoartrose não são modificáveis, nomeadamente a idade, o sexo e as condicionantes genéticas inerentes a cada indivíduo.
Porém, há fatores que contribuem para o agravamento da artrose que podem ser minimizados, como qualquer fator mecânico que incida numa articulação que esteja num processo de artrose “É o caso do excesso de peso, bem como o excesso de atividade física, o desalinhamento articular e todos os fatores que causem sobrecarga numa articulação”, descreve Augusto Faustino.
“O controlo do peso, não só para alívio da sobrecarga, mas também para a redução dos indicadores inflamatórios, assume uma enorme importância, independentemente do tratamento farmacológico”, concluiu o reumatologista.
Novas perspectivas no tratamento da osteoartrose
Os doentes que sofrem de osteoartrose poderão vir a ter, num futuro próximo, novas “armas” terapêuticas para combater eficazmente uma patologia como a osteoartrose, que é tão dolorosa como incapacitante.
Estas foram as palavras iniciais do Prof. Jean-Yves Reginster, presidente da Sociedade Europeia para os Aspetos Económicos e Clínicos da Osteoporose e da Osteoartrose (ESCEO), na sessão “Repensar a osteoartrose”, que decorreu nas XX Jornadas Internacionais do Instituto Português de Reumatologia, no passado mês de novembro.
O orador destacou os resultados de um estudo que demonstrou que o ranelato de estrôncio – um medicamento que está aprovado atualmente para o tratamento da osteoporose, na prevenção das fraturas vertebrais e da anca – tem também efeitos benéficos no tratamento da osteoartrose, atrasando a progressão da doença e melhorando a sintomatologia associada.
Os resultados do estudo, realizado em mais de 1600 doentes com osteoartrose do joelho e que seguiu uma metodologia rigorosa, de acordo com os critérios de avaliação definidos pelas Agências do Medicamento Europeia e Norte-americana (EMA e FDA), vêm demonstrar em termos clínicos que “três anos de tratamento com o fármaco equivalem a um atraso de cerca de um ano na progressão da osteoartrose”.
Como referiu J. Y. Reginster, o tratamento com ranelato de estrôncio demonstrou retardar a evolução da doença, cuja consequência mais grave é a necessidade de cirurgia de substituição da articulação do joelho. Além disso, o orador sublinhou que os efeitos do ranelato de estrôncio a nível estrutural da articulação foram acompanhados de uma melhoria significativa da sintomatologia.
Jean-Yves Reginster concluiu que “estes dados, obtidos com o ranelato de estrôncio, representam uma nova esperança para os médicos e doentes que procuram uma gestão mais eficaz e global da osteoartrose”.
Afeta cerca de 80% dos indivíduos com mais de 70 anos e é, provavelmente, a doença crónica mais prevalente no adulto idoso. A osteoartrose caracteriza-se por uma degradação lenta das articulações, cujo desfecho poderá ser a necessidade de substituição cirúrgica da articulação por uma prótese.

