Análise à gestão do risco no setor farmacêutico e biotecnológico

Henrique Koenders
17/12/15
Análise à gestão do risco no setor farmacêutico e biotecnológico

Um estudo levado a cabo pela Aon revelou que a maior parte das empresas estão mal preparadas para responder a riscos suscetíveis de afetar negativamente a sua atividade. O setor farmacêutico e biotecnológico não é excepção. Em entrevista, Henrique Koenders, Risk Prevention & Engineering Manager da Aon Portugal, explica em que consistiu este estudo e quais as suas principais conclusões.

News Farma (NF) | Em que consiste o relatório mundial elaborado pela Aon – Global Risk Management Survey?
Henrique Koenders (HK) | O estudo conduzido pela Aon “Global Risk Management Survey” é uma ferramenta importante para as empresas identificarem os riscos que mais as preocupam neste momento, e também no futuro. Este relatório disponibiliza às empresas informação, por indústria, dimensão e geografia de forma a apoiá-las a utilizarem a variável risco como uma vantagem competitiva num ambiente empresarial que é cada vez mais complexo e interconectado. Realizado de forma bianual, este estudo recolheu respostas de mais de 1400 participantes, de empresas públicas e privadas de todas as dimensões, vários sectores de atividade, em todo o mundo. Os resultados deste estudo, que em 2015 foi realizado em 10 línguas diferentes e por participantes de múltiplos países, indicam que existe uma coerência relativamente aos principais riscos que afetam as empresas, independentemente da sua dimensão, sector de atividade ou geografia, a relevância da emergência de novos riscos e que existe uma divergência de opinião sobre a priorização e a melhor forma de responder aos desafios.

NF | Quais as principais conclusões deste relatório?
HK | O relatório prioriza os riscos, que são o reflexo dos temas que mais preocupam as empresas por indústria, sector e geografia. O risco de danos à marca e à reputação é indicado como sendo a maior preocupação das organizações em quase todas as regiões geográficas e sectores de atividade. Os cinco primeiros riscos repetem-se com ordem diferente em quase todas as geografias. Sendo temas transversais como, por exemplo, Danos à reputação/Marca; Abrandamento Económico/Recuperação lenta; Mudanças Regulatórias/legislativas; Aumento da competição e Falha em atrair e reter talento. A nível global, o cibercrime é identificado como um risco muito relevante para as empresas, tendo saltado da 18.ª posição em 2013 para o 9º lugar em 2015 e 82% das empresas inquiridas consideram-se prontas e capazes para enfrentar este tipo de riscos, sendo que este risco figura pela primeira vez no TOP 10 riscos.
Este relatório também faz uma previsão dos principais riscos que as empresas esperam em enfrentar em 2018. O risco “Falha em Inovar/responder a necessidades de clientes” é algo que preocupa as empresas no futuro, pois figura nos principais 5 riscos em quase todas as regiões.

NF | Qual a relevância deste estudo para as empresas portuguesas?
HK | Este ano é o primeiro ano em que existe um relatório personalizado com respostas das empresas portuguesas. Esta versão do relatório, além de produzir resultados para o mercado português, permite entender quais os principais riscos que as empresas identificam como obstáculo ao bom funcionamento dos seus negócios. O risco principal que se destaca em Portugal são as Alterações Legislativas e Regulatórias, sendo que este risco figura na terceira posição do ranking mundial. Este facto reflete a situação política e económica atual.

NF | As conclusões retiradas quanto à realidade portuguesa enquadram-se no panorama internacional?
HK | O ranking dos 10 principais riscos são semelhantes. No entanto, em Portugal, destaca-se as alterações legislativas/ regulatórias como algo que preocupa muito as empresas, sendo que 25% das empresas inquiridas associou este risco a perdas financeiras registadas nos últimos 12 meses. Esta preocupação demonstra o reflexo que as contínuas alterações legislativas e regulatórias têm nas empresas.

NF | Quais os principais riscos que afetam ou podem afetar as empresas setor farmacêutico e biotecnológico?
HK | Os três principais riscos que podem afetar a indústria Farmacêutica e da Biotecnologia são o risco de distribuição ou falha da cadeia de distribuição, alterações legislativas e regulatórias e a continuidade de negócio. No entanto, para os próximos três anos as empresas deste sector inquiridas identificam alterações legislativas e regulatórias como o principal risco, seguido de falha na cadeia de distribuição e Falha em Inovar/responder a necessidades de clientes com os três principais riscos que podem afetar as empresas desta área.

NF | Que procedimentos devem ser postos em prática para identificar e gerir os riscos emergentes? As empresas portuguesas estão preparadas para esta questão?
HK | As empresas devem nomear formalmente as funções e responsabilidades pela gestão de riscos na estrutura da própria organização. Empresas com maior dimensão geralmente têm uma área dedicada à Gestão de Risco. No entanto, a maior parte das empresas não tem dimensão para ter recursos alocados a esta área mas, no entanto, podem identificar padrões de risco, mitigá-los e transferi-los para outra entidade.
Ao analisarmos os resultados para Portugal, a percentagem de empresas que indica não ter nomeado formalmente uma área para a gestão de riscos é cerca de 40% contra os cerca de 30% para os resultados globais.

NF | Qual a importância da gestão do risco para a competitividade das empresas?
HK | Em traços gerais, uma empresa melhor preparada para enfrentar os riscos, ou seja, uma empresa que faz uma boa gestão de riscos, apresenta uma melhor performance financeira.
É interessante notar estes resultados no Aon Risk Maturity Index (RMI), uma ferramenta desenvolvida pela Aon e que quantifica com uma pontuação (índice) o grau de maturidade da gestão de riscos da sua empresa e indicações de medidas concretas para a sua melhoria.
A Aon associou-se com a Wharton School da Universidade da Pensilvânia para o desenvolvimento deste índice, assim como para a investigação da relação entre as práticas de gestão de risco e os resultados empresariais. No RMI verifica-se que empresas com um melhor nível de gestão de risco estão associadas a uma menor volatilidade em bolsa, existindo uma correlação forte entre estas duas variáveis.
Destes estudos podemos concluir que uma melhor gestão de risco leva a uma maior resiliência das organizações, tornando-as muito mais atrativa para investidores (captando capitais) e para clientes e fornecedores (respondendo de forma mais previsível em caso de disrupção).

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