News Farma (NF) | Esta é a edição que marca o regresso do CPC a Vilamoura. Porquê fugir dos principais centros urbanos?
Prof. Doutor Nuno Bettencourt (NB) | Este ano voltamos para Vilamoura pois é o local que reúne mais consenso. Queremos fugir dos grandes centros para garantir que os participantes estão a 100% no congresso. O que temos verificado é que, nos congressos que realizámos no Porto ou em Lisboa, os participantes acabam por estar com um pé nas sessões e o outro nos hospitais onde exercem a sua atividade clínica. Por isso, não tivemos grandes dúvidas em eleger Vilamoura.
NF | Que grandes novidades estruturais são previstas para este CPC 2016?
NB | Queremos reduzir o número de sessões paralelas por isso vamos ter, no máximo, seis salas a funcionar em simultâneo, quando habitualmente tínhamos nove salas. Vamos também tentar que o congresso abranja todas as áreas, mas sem ir necessariamente ao pormenor de cada subespecialidade. Queremos um congresso que seja interessante para a globalidade dos participantes, incluindo não só cardiologistas, como também especialistas em Medicina Interna e Medicina Geral e Familiar, pois são estes os médicos que lidam com os doentes cardiovasculares. A pensar nisso, optámos por reduzir o número de sessões, com o intuito de aumentar a participação. Para o conseguirmos alterámos a estrutura do congresso: as sessões começam logo na tarde de sábado e, ao longo de todo o congresso cada sala terá uma linha temática. Ou seja, em cada sala serão apresentadas sessões mais dedicadas a uma área. Vai haver uma sala plenária, principal, onde terão lugar as sessões mais abrangentes, as comunicações dos maiores nomes e que, eventualmente, interessarão a um maior número de participantes. Esta será a única sala em que não haverá uma linha temática.
Além disso, criámos uma linha formativa, porque temos noção de que há muito interesse em ir ao Congresso de Cardiologia com o intuito de fazer uma atualização pessoal na área cardiovascular, até mesmo por parte de colegas de outras especialidades. Nesse sentido, haverá uma sala em que será seguido um esquema formativo à base de casos clínicos, para ilustrar os vários temas da medicina cardiovascular, desde a doença coronária, à insuficiência cardíaca, passando pela doença valvular, pela prevenção e pela reabilitação. Enfim, um conjunto de temas que permitem, sem sair da mesma sala, obter uma formação completa sobre os mais diversos e atuais temas da Medicina Cardiovascular. Pensamos que esta sala será muito participada quer por internos, quer pela Medicina Geral e Familiar, mas também por todos os que, sendo já especialistas, desejam uma revisão geral do “estado da arte”.
NF | É também nesse contexto formativo que foi criado O meu primeiro CPC e o CPC para Todos?
NB | Sim, de certa forma. E essas são duas iniciativas que até agora têm sido um sucesso. O meu primeiro CPC destina-se aos jovens internos que querem ter o seu primeiro contacto com o congresso de Cardiologia. Este programa inclui uma tarifa muito baixa de inscrição na qual está incluída alojamento partilhado. Em relação ao CPC para Todos, trata-se também de um sistema mais acessível de participação no congresso e destina-se aos profissionais que não são convidados pela indústria farmacêutica, mas que querem submeter os seus trabalhos ao congresso. Ou seja, não queremos que a falta de apoio para ir ao congresso seja uma restrição para a apresentação de trabalhos propostos pelos profissionais. Desta forma, o CPC para Todos acaba por ser um sistema de inscrição de baixo custo, também com alojamento partilhado, destinado a profissionais de saúde, desde médicos, enfermeiros, técnicos, investigadores, académicos, etc.
NF | Relativamente ao conteúdo do programa científico, quais os grandes temas de destaque?
NB | O programa científico tenta dar destaque, em cada área da cardiologia, às principais novidades que podem vir a alterar a nossa prática clínica. Nos últimos anos tivemos desenvolvimentos importantes na área da insuficiência cardíaca, das doença valvulares e dos cuidados intensivos, bem como na intervenção cardiovascular e imagiologia cardíaca. É claro que não posso deixar de destacar as grandes conferências do congresso, que focarão a prevenção primária e secundária, o papel do ventrículo direito na Insuficiência Cardíaca, a avaliação funcional da cardiopatia isquémica, a promessa de um coração totalmente artificial e a estratificação do risco de morte súbita.
Depois, como é habitual, convidamos a indústria farmacêutica e do dispositivo médico a trazer as suas novidades no que respeita a terapêutica, novas evidências e novos estudos. Tentaremos que haja uma certa complementaridade entre o programa e os simpósios promovidos pela indústria. Neste contexto, este ano temo-nos empenhado em aumentar a presença da indústria dos dispositivos médicos no nosso congresso porque há muitas novidades que não devem ficar restritas aos médicos mais subespecializados na área da Cardiologia de Intervenção e que devem ser partilhadas com os médicos mais generalistas.
NF | O CPC é tradicionalmente o palco onde são revistas as mais recentes guidelines internacionais em torno da Medicina Cardiovascular. Este ano, quais as áreas que foram alvo de novas recomendações?
NB | Sempre que há novas guidelines internacionais, nós procuramos trazê-las para o congresso. Este ano não será exceção até porque há novas recomendações em várias áreas patológicas. Temos novas guidelines sobre a endocardite, sobre doença do pericárdio, atualização sobre o papel do ventrículo direito na insuficiência cardíaca, etc. Tudo o que é novidade é inevitavelmente abordado no congresso.
Convidados internacionais
NF | Quais os principais nomes internacionais que vão passar por este CPC 2016?
NB | Este ano temos muitos nomes sonantes da Cardiologia Internacional presentes no nosso congresso. O Prof. Valentin Fuster será homenageado neste congresso e vai receber o título de sócio honorário da SPC. Além disso será ele o responsável pela conferência inaugural do CPC2016, que se realizará durante a sessão de abertura, no Sábado, dia 23/04. Também temos outra pessoa que queríamos imenso que viesse e que já confirmou a sua presença. Estou a falar do Prof. Alain Carpentier. Trata-se do pai de muitas inovações na cardiologia e na cirurgia cardíaca e vem falar-nos de um tema absolutamente fascinante que é o coração totalmente artificial. Neste momento, já há doentes a viverem com um coração totalmente artificial, inventado pelo Prof. Carpentier. Tudo o que há de mais inovador em termos de cirurgia cardíaca tem tido o envolvimento deste especialista, que é um grande nome da cardiologia e cirurgia cardíaca mundial. Para além destes notáveis, será um prazer, e uma mais-valia para o congresso, receber nomes internacionais de referência como Mebazaa, Pedro Brugada, João Lima, Manuel Cerqueira e Alain Klein, entre outros destacados conferencistas da cardiologia mundial.
NF | Quantos participantes estão previstos para esta edição?
NB | Penso que vamos aumentar o número de participantes relativamente às edições anteriores, até porque temos a oportunidade de trazer ao congresso pessoas que nunca vieram, nomeadamente através dos programas O meu primeiro CPC e CPC para todos. Por outro lado, estes nomes sonantes também acabam por tornar o congresso mais apelativo até para profissionais de outras especialidades.
Levar a inovação a quem dela precisa
NF | Quais são, na sua perspetiva, os grandes desafios atuais da Cardiologia?
NB | Penso que o grande desafio passa por conseguirmos transformar tudo aquilo que nós sabemos em termos de doença cardiovascular num benefício para os doentes, e de forma ajustada às nossas possibilidades financeiras.
Cada vez temos mais possibilidades de tratar, cada vez dispomos de mais desenvolvimentos técnicos e de dispositivos, mas o que tem vindo a acontecer é que, algumas destas terapias são limitadas a determinadas populações. Infelizmente, a nível nacional, ainda não conseguimos ter uma Cardiologia completamente uniforme. Penso que é esse o grande desafio, ou seja, dar tudo o que temos, a todos os doentes que disso vão beneficiar.
NF | E em termos de prevenção?
NB | Esse é outro grande desafio. Em termos de prevenção primária, que cabe mais à Medicina Geral e Familiar, penso que temos conseguido uma evolução importante. Temos conseguido transmitir à população alguns conceitos de prevenção primária e há hoje uma sensibilização para a promoção da saúde cardiovascular que não havia há uns anos. As pessoas começam a ter mais cuidado com a alimentação e com a atividade física, o que significa que aos poucos a mensagem vai passando.
Relativamente à prevenção secundária, em pessoas que já tiveram eventos, também se sente uma evolução, nomeadamente na mudança dos estilos de vida e na melhoria do controlo dos fatores de risco, o que se traduz numa melhoria do nível de estabilização da doença cardiovascular. E é por isso que os doentes cardiovasculares vivem durante mais tempo.
Prof. Doutor Nuno Bettencourt revela novidades no CPC 2016
Prof. Doutor Nuno Bettencourt
05/01/16
Menos sessões paralelas, salas com linhas temáticas e um sistema de inscrição e alojamento low-cost para jovens especialistas são algumas das novidades desta edição do Congresso Português de Cardiologia. Em declarações à News Farma, o Prof. Doutor Nuno Bettencourt afirma que no programa científico constam temas atuais, variados e que interessam à globalidade dos participantes. O presidente deste congresso realça ainda a presença de dois nomes pesados da Cardiologia Mundial: “o Prof. Fuster e o Prof. Carpentier”.


