As primeiras referências ao fígado datam de 2000-3000 antes de Cristo, na antiga Babilónia. Foram encontrados modelos de fígados de carneiro, na era da escrita cuneiforme. Estes modelos serviriam para rituais de magia para adivinhação, a chamada hepatoscopia. Alguns dos modelos foram encontrados em cidades da atual Síria (Mari). Os egípcios acreditavam que o fígado teria um papel importante, sendo um dos órgãos guardados nos vasos canopos. O célebre papiro de Ebers (sexto século AC) faz referência ao fígado. Hipócrates descreveu casos de icterícia, de ascite e fígados com consistência aumentada. Passaram 5000 anos, parece que tudo se passou nos últimos 30-40 anos.
Na vertente humana, é importante considerar que as doenças do fígado no seu conjunto constituem um relevante problema de saúde pública a nível mundial. As hepatites B e C e as suas consequências estão no top ten da mortalidade. São responsáveis por mais mortes do que a malária e a tuberculose. O número de portadores crónicos das hepatites B e C afetam cerca de 10 vezes mais do que os infetados pelo VIH; a doença sétima causa de morte a nível europeu de acordo com os dados do Eurostat (2013), e em Portugal serão a 7.ª/8.ª causa de morte.
Estes dados justificam em pleno todo o investimento que se tem feito na área das doenças do fígado, aproveitando as várias e múltiplas áreas do desenvolvimento tecnológico. Não resistimos a selecionar um dos prémios Nobel mais relevantes, cujo primeiro artigo data de 25 abril de 1953 (Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid) por F. Crick e J. Watson na revista Nature, páginas 737-738, volume 171. Apenas duas páginas. Depois viria a identificação dos vírus das hepatites A, B, C, D, E, os métodos de PCR (Polymerase Chain Reaction) a vacina da hepatite B, o controlo da hepatite B crónica e a inovação disruptiva dos novos antivíricos orais na cura da hepatite C; os primeiros fármacos com eficácia no carcinoma hepatocelular, o transplante hepático, a imagiologia (ecografia, TAC, ressonância magnética, elastografia, CPRE, etc).
O futuro? Metabolómica, genómica, órgãos artificiais, data-mining, big-data, Internet of Things, a interoperabilidade, os algoritmos, a analítica preditiva, telemedicina, medicina de precisão, medicina molecular, nanofarmacologia, a imunomodulação, a logística, a oncobiologia, a medicina regenerativa, o métodos não invasivos, os drones.
Mas muito do impacto e sustentabilidade dos desenvolvimentos tecnológicos estará envolvido pelo comportamento humano, estilos de vida saudável e na aplicação dos recursos humanos e económico. Como dizia Steve Jobs, “Technology is nothing. What's important is that you have a faith in people, that they're basically good and smart, and if you give them tools, they'll do wonderful things with them”.
Prof. Doutor Tato Marinho
Vice presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
Professor Agregado em Gastrenterologia na FMUL
Artigo original publicado no Jornal do Congresso Português de Hepatologia 2016


