A independência das farmácias

Dr. João Cordeiro, ex-presidente da Associação Nacional das Farmácias
13/05/16
A independência das farmácias

Um dos maiores ativos das farmácias portuguesas é a sua independência. Independência construída ao longo de décadas, com o esforço e a unidade de todas as farmácias.

Quando surgiram os grupos de compras, a direção da ANF, a que então presidia, analisou internamente essa nova realidade. Não havia unanimidade de opiniões quanto aos grupos de compras.

Pessoalmente, sempre considerei como positivo o seu aparecimento porque eram estruturas de proximidade das farmácias, que reuniam condições adequadas para a implementação de uma estratégia de desenvolvimento de serviços farmacêuticos, que evidenciassem a mais-valia da sua intervenção, de acordo com a política sempre defendida e apoiada pela direção da ANF.

Simultaneamente, os grupos de compras eram e são um instrumento poderoso de negociação com as empresas grossistas e a própria indústria farmacêutica. Mantenho hoje a mesma opinião.

Já quanto ao envolvimento de grupos de compras em estruturas cooperativas do setor grossista manifestei sempre as maiores preocupações.

Os resultados estão à vista: a maior cooperativa do setor, a Udifar, gerida nos últimos seis anos pelos mesmos responsáveis do grupo de compras Holon, está à beira da destruição. Os interesses da cooperativa e do grupo de compras não eram coincidentes e este conflito de interesses exigia uma relação absolutamente transparente e permanentemente submetida a escrutínio dos associados.

Não vi transparência nessa relação nem o seu escrutínio pelos cooperantes. Como se não bastasse o agravamento sucessivo da situação económica e financeira da cooperativa nos últimos seis anos, o setor foi agora surpreendido com a venda daquele grupo de compras ao grossista OCP.

O valor dos grupos de compras é o valor das farmácias que o constituem, pelo mercado que representam. Sem as farmácias, os grupos de compras não valem nada. Por isso, a imprensa noticiou que o grossista em causa tinha adquirido uma cadeia de farmácias.

Ninguém tenha dúvidas, a OCP adquiriu o grupo de compras porque quis adquirir o mercado das farmácias que o constituem. As minhas preocupações quanto a este negócio são muitas.

Quanto mais as farmácias dependerem do setor grossista, menos independentes serão. A partir do momento em que se deixam capturar por uma empresa grossista passam a estar ao serviço dos interesses dos outros e não dos seus próprios interesses.

O caminho escolhido pelas direções da ANF a que presidi foi diametralmente oposto. Quando em 2005, um ex-ministro da Saúde inglês, consultor da Alliance Healthcare, veio a Portugal elogiar o papel das cadeias de farmácias no controlo da despesa pública, constatei que tínhamos pela frente um problema sério para as farmácias portuguesas e que alguém estava a tentar fazer o caminho da liberalização completa do setor.

Foi para responder a estas preocupações que a direção da ANF em conjunto com o grupo José de Mello tomaram em 2005 a decisão de adquirir uma posição maioritária de 51% do capital da Alliance Healthcare. Foi uma decisão polémica, incompreendida na altura pelas estruturas cooperativas e por muitos associados.

Julgo que hoje há um grande consenso no setor de farmácias quanto ao acerto daquela aquisição. Uma intervenção forte das farmácias no setor grossista é um dos caminhos de defesa da sua independência ao nível da relação com os seus fornecedores principais e com a própria indústria farmacêutica.

Inversamente, quanto maior for o poder do setor grossista sobre as farmácias mais dependentes estas serão e menos capacidade negocial terão numa relação que já lhe é desfavorável, pela maior concentração do setor grossista e pela maior dimensão das empresas que o constituem.

Tenho, por isso, muita dificuldade em compreender a alienação de um grupo de compras à multinacional OCP. Convém ter presente que este grossista defende a liberalização do setor de farmácias e a sua integração com o setor grossista.

Não podemos estar distraídos, porque isso nos pode custar muito caro. Aceito que para os acionistas do grupo de compras o negócio possa ter sido muito rentável e que tenham bons motivos de satisfação. Mas, em termos estratégicos a decisão é manifestamente indefensável.

Por outro lado, a Udifar atravessa a maior crise da sua existência e é necessário debater as razões que a conduziram a esta situação. A coincidência nos últimos seis anos entre a direção do grupo de compras e a direção da Udifar exige, na minha opinião, que se analise o relacionamento existente entre as duas entidades ao longo desse período.

É fundamental que se identifiquem com rigor as razões da delicada situação económica e financeira em que se encontra a cooperativa, a maior cooperativa de distribuição farmacêutica, que foi no passado uma empresa muito relevante no setor da distribuição grossista em Portugal.

Não me parece aceitável uma solução de alteração da gestão que não passe por este tipo de esclarecimento em eleições livres para os órgãos sociais da cooperativa. É urgente dar a palavra às farmácias para que avaliem as consequências deste negócio entre o grupo de compras Holon e a OCP.

Mas, não quero ser excessivamente pessimista. O setor de farmácias está preparado para reagir e vencer as dificuldades. A liderança da Associação na área profissional é incontestável. Os progressos feitos nos últimos três anos são evidentes. A profissão no seu conjunto está mais unida do que nunca, como resultou evidente na sessão de abertura do último congresso, por sinal um grande Congresso de Farmácias.

A nossa organização de cúpula tem hoje uma credibilidade incontestável, quer junto do poder político, quer junto da população.

A venda de um grupo de compras à OCP é apenas um percalço que o setor ultrapassará com a determinação e a unidade que fizeram e fazem dele um grande setor da vida nacional.

Artigo de Opinião
Dr. João Cordeiro
Ex-presidente da Associação Nacional das Farmácias

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