News Farma (NF) | A área da osteoporose e doenças ósseas metabólicas tem atravessado uma fase de enormes desafios. A que se deve esta realidade?
Dr.ª Ana Paula Barbosa (APB) | Esta área da Medicina tem tido um grande desenvolvimento ao nível da investigação básica e portanto na compreensão dos mecanismos básicos das doenças metabólicas do osso, nomeadamente da osteoporose. Consequentemente, a indústria farmacêutica tem tentado desenvolver medicamentos baseados nestes novos conhecimentos da fisiopatologia. Contudo, verificam-se alguns problemas, não propriamente dos novos fármacos, nem do mecanismo para tratar a doença, mas de efeitos laterais eventualmente negativos, especialmente do ponto de vista cardiovascular. São estas razões que têm impedido o surgimento de novos medicamentos. Nestes últimos anos temos assistido ao quase bloqueio da entrada de novos fármacos na prática clínica, apesar de sabermos que estes estão em investigação, aguardando-se que sejam feitas algumas alterações que possam coloca-los livremente com segurança para os doentes.
A Sociedade médica internacional nesta área também se tem virado um pouco para a vitamina D e a importância da Nutrição, pelo que têm surgido muitas publicações e trabalhos nesta área. Em Portugal, alguns dos novos tratamentos para a osteoporose são baseados em suplementos de cálcio e vitamina D sob várias formas, e ainda alguma inovação na forma de ministração de fármacos já conhecidos como os bisfosfonatos, nomeadamente em xarope e em comprimido efervescente. Continuamos a aguardar a comparticipação de um fármaco muito importante para tratar a osteoporose em doentes com insuficiência renal.
NF | Como tem contribuído a SPODOM para contornar esta situação?
APB | Como sociedade científica que é, a SPODOM continua a colaborar, sempre que solicitada, no esclarecimento da osteoporose e outras doenças ósseas metabólicas, apoiando ou desenvolvendo iniciativas científicas.
Neste âmbito, por exemplo, no ano passado fizemos a revisão e aprovação dos textos de um livro acerca da vitamina D, dado o seu patrocínio científico.
Realço também participação da SPODOM nas reuniões sobre o FRAX®, com dados de Portugal, em que participaram várias sociedades científicas nacionais no sentido de conduzir à sua aplicação adaptada à população portuguesa. O FRAX® é uma ferramenta desenvolvida por peritos da Organização Mundial de Saúde para prever o risco de fratura osteoporótica, sendo atualmente aplicado em diversos países do mundo.
NF | A formação dos especialistas é uma preocupação transversal a todas as áreas de saber da Medicina. De que forma será potenciada a formação dos especialistas no X Congresso da SPODOM?
APB | Este ano decidimos fazer um programa um pouco diferente. Teremos uma mesa dedicada a cada uma das principais especialidades ligadas à SPODOM que são, no fundo, a Reumatologia, a Ginecologia, Endocrinologia, a Ortopedia e a Medicina Física e de Reabilitação, para além da Medicina Geral e Familiar. Cada mesa tem temas que consideramos ser mais importantes e mais atuais. A osteoporose tem maior relevância no programa científico, tendo em conta a sua prevalência a nível mundial.
Contudo, abordar-se-á ainda a osteogénese imperfeita, as espondilartrites, a diabetes, a menopausa precoce e a osteoporose masculina; teremos também bastantes temas ligados aos níveis reduzidos da vitamina D, que são problemas a nível mundial pois, mesmo em locais em que há muito sol, regista-se um défice ou insuficiência de vitamina D nas populações. Queremos quase “esgotar” o tema, falar desde o diagnóstico, à problemática dos doseamentos.
Serão também abordadas as terapêuticas atuais disponíveis para a osteoporose.
Este ano teremos pela primeira vez uma reunião com a Sociedade Ucraniana de Osteoporose, uma sociedade bastante ativa, com uma forte componente de investigação. Entre os vários temas que serão abordados por estes colegas teremos a temática da dor na patologia osteoarticular, a sarcopénia, a doença periodontal e um tema relativamente recente no diagnóstico da osteoporose, o TBS, que nos permite avaliar a qualidade do osso, o que tem permitido um desenvolvimento muito importante no diagnóstico e no seguimento dos doentes.
NF | O X Congresso Português de Osteoporose marca também o final do seu mandato enquanto presidente da SPODOM. Que balanço faz dos últimos dois anos?
APB | No geral, foi bastante positivo. Conseguimos realizar em Portugal, pela primeira vez, o Congresso da Sociedade Ibero-americana de Osteologia e Metabolismo Mineral (SIBOMM), que ocorreu em agosto de 2015. Neste evento científico juntaram-se especialistas de diferentes países da América Latina e Espanha. Para além de toda a riqueza científica, foi possível trocar impressões sobre as diversas realidades de cada país e proporcionou-se um encontro amigável de colegas da área.
Tivemos, como sempre, as comemorações do Dia da Osteoporose, em que tentamos seguir as orientações da International Osteoporosis Foundation (IOF). Em 2014 o tema versou sobre a “Osteoporose no homem”, um problema um pouco esquecido pois a doença é habitualmente associada ao sexo feminino, sendo importante ter em mente que a osteoporose também afeta o sexo masculino. Em 2015, o tema foi a Nutrição na osteoporose. Tivemos também pela primeira vez a colaboração da Associação Fung Loy Kok Taoismo de Portugal através de sessões de tai-chi, que já por dois anos colaborou connosco nas celebrações do Dia da Osteoporose. Hoje em dia, sabe-se que o tai-chi é uma técnica muito importante para o treino do equilíbrio do corpo humano, fundamental para os doentes que sofrem de osteoporose, pois tudo o que evite as quedas vai, de certa forma, evitar a consequência da doença – a fratura – daí que seja muito importante o treino do equilíbrio para evitar as quedas.
Estreitámos as relações com a Sociedade Ucraniana de Osteoporose, através da participação como palestrantes e moderadores em encontros científicos realizados na Ucrânia.
Tivemos a presidência da SIBOMM durante os anos de 2013 a 2015, o que também permitiu estreitar relações e desenvolver contactos com colegas de Espanha e da América Latina que trabalham na área do metabolismo ósseo e mineral.
Sendo um dos objetivos da SPODOM, procuramos também aprofundar conhecimentos e desenvolver a formação pós-graduada dos colegas na área do Metabolismo Osteomineral.
Nestes últimos dois anos, mantivemos o funcionamento do site da Sociedade, dinamizando-o com a inclusão de várias publicações.
Em breve, iremos lançar também a nossa primeira webletter, que passará a ter uma regularidade de dois ou três envios anuais e que nos permitirá ter um contacto mais estreito com os sócios.


