Miomas uterinos e a preservação do útero

Dr. Daniel Pereira da Silva, ginecologista e presidente da FSPOG
08/07/16
Miomas uterinos e a preservação do útero

O primeiro estudo sobre histerectomias, levado a cabo pela Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), revelou que, em 15 anos, a realização desta cirurgia diminuiu em quase 20%.
Em entrevista a um dos médicos envolvidos neste estudo, nomeadamente o ginecologista e presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e de Ginecologia (FSPOG), Dr. Daniel Pereira da Silva, a News Farma procurou aprofundar os resultados obtidos e dar a conhecer melhor esta temática das histerectomias e dos miomas uterinos.

News Farma (NF) | O que são miomas uterinos?
Dr. Daniel da Silva (DS) | Os miomas uterinos são tumores que se desenvolvem na parede muscular do útero. São tumores benignos, excecionalmente podem ser malignos.
São muito comuns nas mulheres em idade reprodutiva e atingem cerca das 70% daquelas que têm 50 anos de idade. Podem assumir implicações muito variadas, que estão dependentes do número de nódulos, tamanho e localização.

NF | Quais os sintomas e como diagnosticar?
DS | Cerca de 50% dos miomas não dão qualquer sinal ou sintoma. A outra metade pode provocar sintomas muito diversos: hemorragias, que podem ser discretas, apenas com aumento nem sempre óbvio da menstruação, ou pelo contrário muito abundantes com grave rebate na vida da mulher; dores e outros sinais de compressão, que estão na dependência do volume dos miomas e das estruturas vizinhas, é o efeito de massa, que ocupa espaço e pode prejudicar a função da bexiga, circulação sanguínea, intestino ou de um nervo específico;

NF | Em que medida os miomas podem interferir na fertilidade?
DS | As perturbações na fertilidade são uma das consequências possíveis, porque o ou os miomas podem impedir ou dificultar que a mulher engravide, que o seu parto chegue a termo, e podem criar problemas no trabalho de parto ou na realização da cesariana.
Estas situações tendem a ser mais comuns atendendo à idade com que as mulheres engravidam atualmente, na medida em que a prevalência de miomas aumenta com a idade.

NF | O que é a histerectomia? Quando é que é recomendada?
DS | Histerectomia é um termo médico que significa a extração da totalidade do útero. Note-se que não implica a remoção dos ovários que outra designação. Esta é a cirurgia mais realizada pelos ginecologistas em todo o mundo, recomendada para tratamento de situações benignas e malignas do útero, entre os quais os miomas uterinos.

NF | Quais os riscos?
DS | É uma grande cirurgia e comporta os riscos que são inerentes a uma intervenção desse tipo. Os riscos gerais são essencialmente infeciosos, hemorrágicos e embólicos. Outros riscos decorrem da execução da técnica cirúrgica, dos quais os mais comuns são a ocorrência de lesão num órgão ou estrutura vizinha do útero e que não é suposto acontecer. Naturalmente que as intercorrências dependem das condições da doente, das condições logísticas e da experiência da equipa médica e de enfermagem. Hoje em dia, os riscos estão muito minimizados graças aos conhecimentos e condições que temos.

NF | Quais os benefícios da preservação do útero?
DS | Em primeiro lugar é bom referir que nem sempre é possível ou é melhor preservar o útero.
São discutíveis as repercussões de realizar uma histerectomia. Diga-se que a imensa maioria das mulheres submetidas a esse tipo de cirurgia ficam muito satisfeitas, porque melhoram muito a sua qualidade de vida ao verem resolvidos os problemas que as afetavam. Outras há em que isso não acontece, sentem-se afetadas pela perda do órgão. De qualquer forma não é exatamente igual ter ou não útero, mesmo que seja após a menopausa, as perturbações urinárias tendem a ser mais frequentes nas mulheres sem útero.
Naturalmente que devemos preservar qualquer órgão que reúna condições para tal. Em termos práticos os problemas de decisão de conservar ou não colocam-se em situações clínicas concretas, em que há prós e contras para qualquer das opções. Tudo depende do caso específico, o que implica a ponderação cuidada da doença no contexto da doente. Costumamos dizer, duma forma, eufemística, que não há doenças, há doentes. Os desejos e vontade da doente devem ser ponderados nas suas vantagens e inconvenientes, num processo de decisão conjunto entre o médico e a paciente.
Há um facto que me parece também incontestável nos tempos atuais – os médicos não podem indicar a histerectomia, quando a mulher pode preservar o órgão, apenas porque ela está próxima da menopausa e não pode ou não vai pretender engravidar.

NF | De acordo com o estudo da SPG, em 15 anos o número de histerectomias diminuiu em quase 20%. A que se deve essa diminuição?
DS | Note-se que essa redução global aconteceu apesar de aumentar o número de casos de histerectomias por cancro e por prolapso genital (órgãos genitais descaídos), onde essa cirurgia é indispensável. Isso significa que a redução fez-se sobretudo nos casos de doença benigna, principalmente nos miomas uterinos, onde a redução foi muito superior aos 20%.
Houve uma alteração progressiva de conceitos por parte dos médicos e das mulheres. Hoje é, relativamente, frequente as mulheres pretenderem que o útero seja preservado e há 20-30 anos isso não acontecia, eramos mais apologistas do "corta-se o mal pela raiz". Essa mudança de valores por parte das mulheres tem sido muito importante e tem sido acompanhada de uma alteração da postura médica em geral, onde se verifica mais rigor nos nossos procedimentos e maior tendência a tratamentos mais personalizados e conservadores. Hoje, pautamos a conduta médica por conceitos científicos e éticos mais rigorosos. A opinião médica não pode estar apenas fundamentada na sua experiência, tem de basear-se em evidência científica.

NF | Porque razão o estudo aponta para uma diferença tão acentuada em termos regionais? Qual a razão para o número de histerectomias ser mais baixo na região Norte?
DS | Os resultados conhecidos não dão resposta a essa questão. Há realmente diferenças importantes, que importa avaliar em pormenor para identificar a sua fundamentação, se é que existe.

NF | Qual a perspetiva para a área de tratamento dos miomas uterinos?
DS | Os miomas uterinos são o principal motivo da cirurgia ginecológica em todo o mundo. Tradicionalmente as histerectomias e nas últimas duas décadas a miomectomia (extração dos miomas). Tal é o número de cirurgias e as suas repercussões económicas e sociais, que se têm procurado técnicas alternativas, das quais a que teve maior penetração entre nós foi a embolização das artérias uterinas.
Mas são técnicas invasivas, umas mais outras menos, e todas elas com vantagens e desvantagens e custos consideráveis.
A procura de um medicamento eficaz para tratamento dos miomas uterinos que seja usado isoladamente ou associado a essas técnicas é um objetivo que tem sido perseguido de longa data. Nos anos 90 tivemos a ilusão de o ter encontrado quando apareceram os estudos com o uso dos análogos do LhRh, mas a prática não o comprovou. Os miomas voltavam a crescer mal se parava o medicamento e as mulheres não toleravam os seus efeitos adversos – tinham sintomas muitos agudos com se estivessem em menopausa e isso não era tolerável. Foi um avanço importante a descoberta da ação do acetato de ulipristal nos miomas. É muito rápido a atuar no controlo dos sintomas (hemorragia e dor) e reduz significativamente o volume após 2 ciclos de tratamento de 12 semanas cada. Tal facto pode facilitar a realização das cirurgias conservadoras e pode, mesmo, evitar algumas cirurgias. É bem tolerado, não tem efeitos adversos significativos. Já temos uma boa experiência no país, inclusive com mulheres que desejavam engravidar mas tinham a recomendação de histerectomia e viam o seu projeto de maternidade amputado. Temos mais opções que nos permitem personalizar melhor o tratamento.

NF | Há mais alguma informação que queira acrescentar?
DS | O estudo das histerectomias revela, mais uma vez, o nível de excelência dos nossos serviços de Saúde. Que a ginecologia portuguesa está na vanguarda do que de melhor se faz no mundo.

Dr. Daniel Pereira da Silva
Ginecologista e presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e de Ginecologia

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