Hoje em dia, já se contabilizam mais de 80 doenças em cujo tratamento podem ser utilizadas células estaminais hematopoiéticas (medula óssea, sangue do cordão umbilical), nomeadamente, doenças oncológicas, hemoglobinopatias, doenças metabólicas, imunodeficiências e deficiências medulares.
Foi recentemente divulgado, pelo jornal espanhol El País, que um doente com uma forma agressiva de doença de Crohn recuperou da doença após tratamento experimental com células estaminais hematopoiéticas autólogas, ou seja, células do próprio.
Javier Casado foi diagnosticado com doença de Crohn aos 12 anos (idade em que a doença aparece frequentemente na sua forma mais agressiva). Aos 15 anos já tinha sido submetido a uma colostomia (perfuração do abdómen para ligar o intestino a um saco externo para evacuar as fezes) e, entre cirurgias e cortisona, a doença manteve-se controlada até aos 24 anos.
Entretanto, numa consulta de acompanhamento detetou-se que a doença estava a evoluir muito rapidamente. Os médicos explicaram ao Javier que seria necessário remover-lhe a totalidade do cólon, que teria de usar um saco coletor para o resto da vida e esperar que a doença não se disseminasse a outros órgãos. Javier recusou esta opção. Foi nesse momento que lhe falaram do tratamento experimental que estava a ser realizado no Hospital Clínic de Barcelona. Foi-lhe explicado que se tratava de um tratamento arriscado, embora estivesse a funcionar bem com outros doentes.
O tratamento consistia na colheita de células estaminais da medula óssea do doente, seguida da destruição do seu sistema imunitário através de quimioterapia, procedendo-se posteriormente ao transplante das células estaminais (anteriormente recolhidas) para gerar um novo sistema imunitário, sem a memória do anterior, na esperança de que não atacasse o organismo.
Javier foi incluído no estudo e dez dias após o transplante o seu sangue já tinha um nível normal de linfócitos, plaquetas e outras células do sistema imunitário. Este novo sistema não tinha memória e Javier teve por isso de ser vacinado de novo. Durante este processo sofreu uma infeção grave, mas recuperou. Quatro anos e meio após o transplante a doença desapareceu por completo. O Javier tem agora uma vida normal e refere que pode fazer coisas que antes eram impossíveis.
O grupo da Dr.ª Elena Ricart, médica responsável pelo estudo, prevê publicar este ano os resultados do estudo, que incluiu mais 30 doentes. Segundo a mesma, os resultados demonstram que um ano após o tratamento a doença tinha entrado em remissão em 90% dos doentes, sem necessidade de recorrer a fármacos. Aos poucos, alguns doentes voltaram a ter alguns sintomas, embora muito mais suaves do que antes do transplante. Em 25% dos doentes (incluindo o Javier) após 4 anos e meio, a doença tinha desaparecido por completo. No entanto, apesar dos resultados positivos, trata-se de um tratamento com algum risco. Um dos doentes tratados sofreu uma infeção grave enquanto estava imunossuprimido e faleceu apesar de todos os esforços para salvar a sua vida.
O caso do Javier demonstra o potencial do transplante autólogo de células estaminais hematopoiéticas para reiniciar o sistema imunitário, constituindo uma esperança para os muitos doentes com doenças autoimunes em todo o mundo.
Artigo de Opinião escrito por:
Dr.ª Teresa Matos, PhD
Investigadora Crioestaminal


