O Dr. Joaquim Abreu de Sousa, presidente da SPO, fala sobre os avanços, os receios e os desafios.
"A Oncologia sofreu, ao longo dos últimos 30 anos, um espetacular desenvolvimento científico, com uma mudança qualitativa na compreensão da biologia do cancro e no desenho de novas terapêuticas, com benefícios evidentes para os doentes."
A afirmação é do Dr. Joaquim Abreu de Sousa, presidente da SPO, no âmbito da celebração do aniversário da Sociedade.
Como resultado da aceleração do progresso do conhecimento, assistiu-se a uma rápida expansão de tratamentos, mais eficazes e menos tóxicos.
Na opinião do responsável, "estes ganhos foram conquistados a um preço elevado, porque a investigação e o desenvolvimento são onerosos e, atualmente, os doentes são tratados com algoritmos terapêuticos cada vez mais complexos, o que inclui não só a terapêutica, mas também uma vigilância imagiológica e laboratorial mais intensiva, para monitorizar a resposta e a toxicidade".
No entanto, este momento de extraordinários avanços científicos coincide com um cenário de exiguidade económica e com o aumento de restrições orçamentais da medicina em geral e da oncologia em particular.
Na verdade, nesta nova era de terapêuticas mais eficazes contra o cancro, "o custo do tratamento compete diretamente com a sua disponibilidade, como um fator limitante na nossa guerra contra o cancro". Aparentemente, este progresso pode ser transformado num preocupante paradoxo: "Quanto mais avançarmos cientificamente mais constrangimentos económicos vamos enfrentar."
Controlar as despesas de saúde tem sido, nos últimos anos, e parece destinado a permanecer, o centro do debate das políticas de saúde.
A título de exemplo, o aumento do preço dos novos medicamentos oncológicos é alvo de um enorme escrutínio. "A taxa de aumento dos gastos com medicamentos de oncologia parece estar a aumentar mais rapidamente do que noutras áreas da saúde, no entanto, o desenvolvimento de novos medicamentos é condição sine qua non para o progresso na área da oncologia médica", alerta, divulgando ainda que, "devido a um processo científico cada vez mais robusto, podemos esperar, nos próximos anos, dezenas de novas terapêuticas contra o cancro. O benefício de qualquer terapêutica oncológica é frequentemente visto como marginal relativamente ao seu custo".
Algumas teorias comportamentais têm proporcionado modelos para perceber o que pode ser mais relevante para os doentes com cancro. Uma destas teorias sustenta que, "habitualmente, as pessoas tomam decisões com base no valor potencial de perdas e ganhos, em vez do resultado final, e que o valor absoluto de um resultado não é determinante das decisões de saúde de um indivíduo".
Na opinião de Joaquim Abreu de Sousa, "a definição genérica do valor de um tratamento pode levar a erros e estes erros podem ocorrer facilmente em oncologia, porque tratamos grupos de doentes que são muito heterogéneos e com situações clínicas frequentemente únicas".
Embora os médicos incluam com frequência considerações de custo-efetividade nas suas decisões, estas poderão não ser uniformes e os doentes não devem ser submetidos a graus variáveis de acesso em função de decisões individuais.
Desafios que se colocam...
Atualmente, os oncologistas trabalham num ambiente complexo, em que "muitos fatores estruturais e operacionais de saúde estão fora do seu controlo", afirma, de forma perentória, Joaquim Abreu de Sousa, sustentando ainda que "os médicos não têm controlo sobre o preço das terapêuticas. Embora possam considerar o custo de um determinado tratamento excessivo, eles podem sentir menos responsabilidade para as implicações dos custos, desde que o tratamento beneficie os doentes".
Todos estes assuntos obrigam a enfrentar várias questões essenciais sobre o custo do tratamento do cancro: Qual é o custo adequado para o tratamento do cancro? Quais são as principais causas do aumento dos custos? Quem ou que mecanismos devem determinar o custo? Até que ponto os doentes devem ser convidados a partilhar o custo de seu próprio tratamento e o que fazer quando não puderem? O que podemos fazer para reduzir o custo do tratamento?
Segundo o presidente da SPO, "as medidas que podem ser tomadas para reduzir os custos, evitando as disparidades de acesso e mantendo a qualidade e a inovação, deverão ser incluídas em programas de ação abrangentes, do ponto de vista conceptual, técnico e ético, e nunca como medidas isoladas". A comunidade científica continua a desenvolver uma enorme inovação para o tratamento de cancro.
"Mas o desafio atual passa por introduzir a inovação nos processos de prestação de cuidados, com a utilização eficaz e eficiente dos recursos existentes", finaliza.
Oncologia com tratamentos mais eficazes e menos tóxicos 

