O pioneirismo que está na essência da APDP tem sido a pedra basilar da linha de continuidade do trabalho desenvolvido na Associação, a casa formadora de muitos profissionais envolvidos no tratamento da diabetes. E o porto seguro de milhares de doentes que aqui encontram a melhor experiência nos cuidados assistenciais.
News Farma (NF) A longevidade da APDP é um sinal do dinamismo desta casa quase centenária. No entanto, uma “máquina bem oleada” é também onerosa. À semelhança de outras instituições no país, o orçamento é, muito provavelmente, uma preocupação para a APDP. Como é que esta questão está a ser gerida de forma a garantir a continuidade da Associação nos moldes existentes?
Dr. Luís Gardete Correia (LGC) | Recentemente apresentámos uma petição às instâncias competentes – Assembleia da República – para que a nossa associação seja integrada no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ao abrigo de um decreto-lei (DL-138/2013) que foi já utilizado pelo Executivo anterior para outras instituições. O processo envolve um acordo que pode prolongar-se até cinco anos.
Quer isto dizer que a concretizar-se o teor da petição, a APDP passaria a ser, durante cinco anos, uma ainda maior integração na estrutura do SNS. Esta integração leva em linha de conta com a produção e o planeamento, como se na realidade fosse uma instituição do SNS.
NF | O que sabe mais sobre o estado da petição?
LGC | Como lhe disse, a petição foi entregue. Agora resta-nos aguardar, uma vez que o documento está naturalmente a seguir os trâmites regulamentares. Estamos expectantes, como é de calcular.
Este é, como se pode imaginar, um assunto que nos preocupa bastante, tanto mais que o acordo vigente termina este ano.
Registarmos cerca de 60 mil novos casos de diabetes e só um trabalho conjunto com a estrutura do SNS (Hospitais e Centros de Saúde) podem dar conta desta chegada pandémica de doentes. Como clínica especializada no que nos diz diretamente respeito a grande maioria dos doentes que nos procura apresenta situações mais complexas.
NF | Recebem muitos diabéticos de fora da região de Lisboa?
LGC | Sim, efetivamente recebemos. Cerca de 20 por cento dos doentes são provenientes de fora da Região de Lisboa e, por norma, configuram os casos mais complicados. Cerca de 80 por cento apresentam-se referenciados pelo SNS, enquanto outros são-no por subsistemas como, por exemplo, a ADSE, o SAMS e a EDP.
Muitos doentes são provenientes do sul do país (Alentejo e Algarve), uma das zonas mais carenciadas em termos de estruturas neste domínio. Aqui, na APDP, temos a vantagem de possuir muita experiência, fruto dos casos que acompanhamos, para além de disponibilizarmos diversas valências, o que é muito vantajoso para o doente. Ou seja, para além da Consulta da Diabetes, o doente tem acesso, no mesmo local, à Consulta de Oftalmologia, pode tratar do pé, ou ir à Consulta de Cardiologia, entre outras especialidades.
NF | Quantas consultas oferecem para o tratamento do doente diabético?
LGC | Contamos com mais de uma dezena de consultas, a saber: Diabetologia (Adultos e Crianças e Jovens), Apoio psicológico/Saúde Mental, Saúde Reprodutiva, Nefrologia, Urologia, Cardiologia, Oftalmologia, Pé Diabético, Bombas de Insulina, Monitorização Contínua de Glicose e Nutrição. Em termos de valência, a APDP oferece Ótica, Unidade de Diálise, Farmácia, Espaço de Educação Física, Cozinha, Laboratório de Análises Clínicas e Endocrinologia e Bloco Operatório.
Nunca será demais recordar que em virtude de a diabetes ser, sobretudo, uma doença com repercussão vascular, atinge vários órgãos e sistemas. Portanto, uma pessoa que tenha uma ferida no pé pode ter que fazer laser, por exemplo, porque pode ter uma retinopatia diabética e estar a fazer tratamentos com laser ou ter que ir à Cardiologia porque sofre de cardiopatia ou ter hipertensão que não se consegue controlar ou ainda apresentar problemas de disfunção sexual. Ou seja, há alterações vasculares dos grandes e pequenos vaso e não apenas num único sítio.
NF | A APDP é também um centro de formação. Os profissionais que aqui trabalham são oriundos desta mesma escola?
LGC | Uma parte sim, mas a maioria destes profissionais é proveniente de centros de saúde. Cabe, no entanto, salientar que uma grande parte das consultas de diabetes que estão a ser desenvolvidas fora, tanto a Norte como a Sul, são asseguradas por profissionais formados aqui.
Organizamos, de modo contínuo, cursos de uma semana com enfoque em todas as valências, envolvendo médios e enfermeiros, iniciais e avançados, cursos de pé, cursos de confecção de alimentos e um ginásio onde se dá formação em termos de actividade física.
Asseguramos também um curso pós-graduado que ministramos em colaboração com a Universidade Nova de Lisboa. Não havendo uma especialização em diabetes, o curso dá reconhecida competência nesta área.
NF| Na sua opinião, o ratio entre profissionais e doentes na área da diabetes é razoável?
LGC | O número de pessoas que nos procura é muito superior à capacidade de resposta, mas há várias maneiras de abordar esta situação. Uma parte dos cuidados aqui realizados são de competências dos enfermeiros. São os chamados enfermeiros - educadores. Talvez mais de 80 por cento da responsabilidade seja confiada a este enfermeiro, que sabe tratar de um pé, gerir o autocontrolo e as doses de insulina, para além de dar formação aos doentes. Ao médico, é lhe atribuída principalmente a parte clínica.
Aqui há toda uma concepção de trabalho em equipa, que praticamente não existe para as doenças agudas, mas que é importante nas doenças crónicas. E doença que, neste contexto, sempre esteve mais avançada ao longo dos anos é, sem dúvida, a diabetes.
NF | A APDP é um case-study por ser a primeira associação de diabéticos no mundo e também pela sua longevidade. O que nos pode dizer sobre a sua evolução?
LGC | Esta casa nasceu em 1926, por iniciativa do Dr. Ernesto Roma, que estava nos Estados Unidos da América quando, pouco tempo depois, foi anunciada a descoberta da insulina.
Naquela altura o que era preponderante em Portugal era a diabetes tipo 1, sendo que a diabetes tipo 2 tinha um impacto pequeno. Acresce o facto de os serviços médicos e clínicos nacionais não existirem ainda e os doentes, às vezes, morriam sem se saber bem porquê.
Quando regressou de Boston, a Portugal, o Dr. Ernesto Roma trouxe a gestão da insulina recentemente descoberta e aplicada e a taxa de sobrevivência aumentou consequentemente. Passou a haver doentes, medicamente acompanhados, que viveram com diabetes 20, 30 ou mais anos, o que não acontecia até esta altura.
Em simultâneo, começou a conhecer-se melhor a doença, o que não acontecia antes, porque as pessoas morriam antes de haver aquilo a que hoje se chamam as complicações tardias da diabetes. Começou-se a perceber que as pessoas cegavam, que eram amputadas, que não podiam ter filhos, e procurou-se perceber porquê. A APDP acompanhou todo este processo, tentando perceber, nomeadamente, como se trata o pé para evitar a amputação ou como se deve ver o fundo dos olhos e tratar para evitar a cegueira.
Aos poucos, e em resposta às necessidades que foram surgindo, começaram a surgir as consultas de Oftalmologia e de Podologia, curiosamente a primeira criada em Portugal. Mas importa recordar que aquilo que na verdade sempre pesou muito ao longo dos anos foram os olhos, porque os doentes iam cegando, assim como o pé, porque muitas vezes era necessário recorrer a amputações.
Depois, nas décadas de 30, 40 e 50 e a pouco e pouco foram surgindo estruturas satélite. A dada altura criou-se um laboratório de análises clínicas para avaliar o estado metabólico dos doentes. O aparecimentos de novos equipamentos levou ao salto qualitativo da melhor gestão da diabetes com o autocontrolo. A administração de insulina e o controlo era muito complexo porque, as administrações de insulina eram feitas de forma muito arcaica, com insulinas de ação curta, o que obrigava o diabético a fazer três e quatro injeções por dia. Os diabéticos tinham que aprender a injetar-se, o que incluía agulhas, caixas e lamparinas. Era necessária, por assim dizer, toda uma panóplia de material.
NF| De onde eram provenientes os profissionais que começaram a trabalhar aqui?
LGC | Foi o Dr. Ernesto Roma que os contratou e formou. Recordo até o facto de, nos anos 40, duas enfermeiras, uma britânica e outra norte-americana, terem estado cá a dar formação. Contudo, no tratamento dos pés era o Dr. Ernesto Roma quem fazia a formação. Formou também dietistas, porque não havia nenhuma especialização nesta área e criou uma cozinha específica para que os formandos ali pudessem ensinar os doentes. Aos poucos foi criando tudo isto de acordo com as necessidades dos doentes e do País, sendo de destacar que durante muito tempo a APDP foi a única estrutura do género em Portugal.
Nos anos 40, a JABA fazia-nos chegar a insulina e nós encarregávamo-nos de a distribuir para o resto do País, enviando-a para as Câmaras Municipais, responsáveis pela distribuição local. Até aos anos 80 realizávamos também reuniões clínicas à quarta-feira nas nossas instalações para que profissionais das mais diversas proveniências pudessem discutir os casos clínicos. Digamos que funcionávamos como um polo na área da diabetes, muito por influência do Dr. Ernesto Roma, que trouxe de Boston este modo de trabalho.
Hoje tudo é diferente e os próprios doentes têm competências que, muitas vezes, partilham com os profissionais de Saúde, principalmente os que sofrem de diabetes de tipo 1. Internados e se mantêm a lucidez, são eles muitas vezes que devem gerir a administração de insulina, porque, melhor do que ninguém, sabem como é que o seu corpo reage. Às vezes, nem precisam de fazer a glicémia para saber que valor têm, tal é o seu nível de conhecimento.
Entrevista publicada na publicação da News Farma "90 anos - Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal"


