Quando chegou a Portugal, em 2006, o Instituto Valenciano de Infertilidade (IVI) dispunha de diversas técnicas e tratamento para a infertilidade. Em 2013, aumentou a oferta com a criação de um novo espaço, onde é feita procriação medicamente assistida (PMA) a pessoas com doenças infeciosas. A Dr.ª Sofia Nunes é diretora do Laboratório IVI Lisboa e explica que este espaço surgiu “aliado à procura de casais que queriam ter filhos e eram portadores de uma infeção. Como dispúnhamos de um espaço que estava subutilizado, avançamos com o projeto”.
O IVI possui, assim, dois laboratórios, que funcionam em paralelo, com circuitos diferentes, em que o mais recente tem um nível de segurança biológica, devido ao risco de infeção. Um destinado a todos os casais que pretendem realizar um tratamento para a infertilidade e outro dirigido a casais que são seropositivos para uma infeção. As hepatites B e C e a infeção pelo VIH são as mais comuns e, entre estas, é a hepatite B que mais prevalece no tocante a tratamentos. “É o único laboratório privado com esta certificação. Não foi fácil, pois houve uma série de requisitos até começar a funcionar”, garante a Dr.ª Sofia Nunes, frisando que “é um laboratório complexo com câmaras diferentes, cujo investimento foi grande”.
No geral, a taxa de sucesso (de gravidez) dos tratamentos efetuados no IVI Lisboa ronda os 55%, mas depende de vários fatores, tais como o próprio tratamento, a idade das futuras mães ou a causa de infertilidade. Especificamente, entre os seropositivos para o VIH essa taxa é de cerca de 47%. Nestes doentes, desde que o laboratório FIV exclusivo para seropositivos foi criado, já foram feitos 69 tratamentos, resultaram 33 gestações (algumas ainda decorrem) e alguns nascimentos.
Face a estes dados e a todo o trabalho que tem sido desenvolvido, para a diretora do laboratório, as expectativas estão a ser superadas pela positiva, porém, no seu entender, “ainda falta fazer um importante trabalho, no que toca à sensibilização da população geral mas também da comunidade médica”.
Sensibilizar os médicos e a população
Na opinião da Dr.ª Sofia Nunes, para sensibilizar a comunidade médica será necessário “dar a conhecer a existência do laboratório, assim como do tratamento e dos resultados a nível mundial e não apenas informar que o IVI Lisboa apresenta bons resultados”.
Em relação aos seropositivos, não são promovidas ações de formação como é feito relativamente aos doentes oncológicos. “Vamos aos hospitais e fazemos reuniões com os médicos, com o intuito de explicar que é possível preservar o potencial reprodutivo”, comenta a responsável pelo laboratório, referindo-se ao programa dirigido a pessoas com cancro que pretendam preservar a fertilidade antes de iniciarem o tratamento, já que nestes casos regra geral a infertilidade pode ser provocada pela terapêutica. “Este ano lançámos um programa em que todas as pessoas que estiverem a passar por uma doença oncológica, antes de fazerem quimioterapia, podem vir ao IVI fazer a preservação da fertilidade gratuitamente, desde que o médico especialista constate que ainda estão o tempo de preservar a fertilidade”, informa a diretora do laboratório, evidenciando que “ao longo deste ano temos estado focados em comunicar a existência deste programa junto da classe médica, com o objetivo de dar mais oportunidade às pessoas”.
No que diz respeito à população, a Dr.ª Sofia Nunes também considera que poderá haver maior sensibilização para o assunto. “É muito importante, porque muitos casais seropositivos desconhecem que podem ser tratados e que podem ter filhos saudáveis e livres da doença infeciosa. São técnicas possíveis e com uma taxa de sucesso considerável.”
A diretora do laboratório lembra a época em que o diagnóstico de VIH era encarado como uma fatalidade e até mesmo como uma sentença de morte. “Há três décadas, a preocupação maior era a estabilidade da doença e que a pessoa conseguisse uma boa qualidade de vida durante mais tempo. Hoje em dia, com o aparecimento de antirretrovirais, já é possível que os seropositivos consigam ter uma boa qualidade de vida, controlar a doença e portanto uma maior longevidade. Como tal, a questão de criar uma família e ter filhos começa a colocar-se, pelo que é importante sensibilizar a população que é possível”, afirma a especialista.
Técnicas usadas nos seropositivos
No novo laboratório FIV podem recorrer à PMA casais seropositivos ou serodiscordantes. No IVI Lisboa, é mais comum a serodiscordância no casal. A técnica que permite uma futura gravidez é utilizada em casais portadores de VIH, de forma a evitar a infeção do parceiro seronegativo e do feto/recém-nascido, mas também de ultrapassar uma causa de infertilidade.
“Se é a mulher que é seropositiva, a carga viral deve estar controlada, ou seja, com a contagem adequada de linfócitos CD4 e com a carga viral indetetável no sangue, bem como boa adesão à terapêutica antirretroviral. Também temos de ter um relatório de um médico infeciologista a atestar que a utente se encontra com saúde para engravidar, dentro do que é expectável. Só assim é que podemos avançar para um tratamento de fecundação in vitro. Se for o elemento masculino, deve igualmente ter um relatório médico a constatar que a doença está controlada”, indica a Dr.ª Sofia Nunes.
Se for o homem seropositivo, por norma a opção é a lavagem de sémen. A lavagem seminal consiste em separar o vírus que está presente no plasma seminal dos espermatozoides. Tecnicamente o sémen deve passar por um meio específico com gradiente triplo de densidade e no final é realizado um teste de deteção do VIH por Polymerase Chain Reaction (PCR). Como a análise de PCR é demorada, a amostra lavada é congelada e apenas será utilizada se o resultado confirmar a ausência do vírus. “Se estiver livre da carga viral, podemos avançar para a fecundação em laboratório”, diz a responsável pelo laboratório.
Na mulher, as técnicas a utilizar dependem da avaliação global do casal pelo especialista em reprodução humana. “Pode ser feita a inseminação intra-uterina (mais simples) ou técnicas mais complexas que envolvem a estimulação dos ovários seguida da extração dos ovócitos para fecundação em laboratório, sendo depois feita a monitorização do desenvolvimento do embrião com o objetivo final de transferir para a cavidade uterina. Nestes casos, a inseminação dos ovócitos pode ser feita por fecundação in vitro convencional (FIV) ou microinjeção intracitoplasmática de um espermatozoide (ICSI)”, explica a Dr.ª Sofia Nunes, que sublinha que “com estas técnicas estamos a dar oportunidade às mulheres que são portadoras do VIH de poderem engravidar”.


