José Miguel Conceição, coordenador da unidade, conta com o know how dos profissionais e um espírito de grupo a toda a prova, que faz com que todos vistam a mesma camisola. Incluindo os oito internos de MGF desta unidade de saúde familiar que, pelo empenho na for mação pré e pós-graduada, se destaca já no panorama nacional como uma USF-escola.
Na receção da USF Condeixa há um movimento de utentes pouco habitual. Tanto mais que as consultas são programadas, mesmo as situações agudas, e todos as pessoas têm hora marcada. Meia hora é o tempo máximo que um utente demora no centro de saúde para uma consulta de rotina; 40 minutos no caso das consultas de Planeamento Familiar ou de grupos de risco, como os diabéticos ou os hipertensos.
O que se passa? Queremos saber. Pois bem, a "culpa" é do RNU (Registo Nacional de Utentes). A maioria das pessoas, ignorando que o processo decorre de forma faseada, aproveita para trazer toda a família e resolver o assunto de uma vez só. O impacto no atendimento salta à vista. Como também o profissionalismo do secretariado clínico, que consegue gerir as filas com o menor transtorno possível para utentes e profissionais de saúde, com agendas de trabalho muito apertadas.
De acordo com o coordenador da unidade de saúde familiar, José Miguel Conceição, a atualização do RNU demora cerca de 20 minutos. "O processo teve início há cerca de dois meses e, depois deste período de exceção, que espero seja breve, poderemos voltar à normalidade, ou seja, encontrar na sala de espera somente um ou dois utentes, enquanto aguardam a chamada do seu médico ou enfermeiro de família."
A qualidade da organização é um dos pontos-chave da USF. Aliás, foi objeto de uma auditoria interna há cerca de um mês, realizada pelos membros do conselho técnico da USF, com resultados muito positivos, nomeadamente na rapidez do atendimento e desaparecimento de filas de espera.
Objetivos atingidos a 100% pelo terceiro ano consecutivo
O esforço de melhoria da qualidade dos serviços prestados aos utentes é patente nos resultados obtidos pela equipa desde 2006, quando iniciou a sua atividade. Logo no ano seguinte, com a entrada em Modelo B, os profissionais obtiveram incentivos financeiros e, de acordo com José Miguel Conceição, este é o terceiro ano consecutivo em que vão receber quer os incentivos financeiros, quer institucionais.
Segundo o coordenador, estes últimos vão ser aplicados pela equipa em formação, na pintura geral da USF, em espelhar os vidros por uma questão de eficiência energética, assim como na aquisição de um quiosque eletrónico para a gestão das filas de espera.
"O passo seguinte será a contratação de um serviço externo com o objetivo de avançar para a acreditação da USF pelo Departamento de Qualidade da Direção-Geral da Saúde."
Taxa de prescrição de genéricos atinge os 47%
A USF Condeixa tem vindo a diminuir, sistematicamente, a despesa financeira anual. Com uma taxa de prescrição dos genéricos já da ordem dos 47%, José Miguel Conceição considera que ainda se pode ir um pouco mais além, mas ressalva que "estamos perto de atingir o limite no que diz respeito ao preço dos medicamentos necessários aos nossos utentes".
Quanto aos meios complementares de diagnóstico e terapêutica (MCDT), os resultados seguem a mesma linha de contenção e racionalização. Segundo aquele responsável, "um bom exame e uma boa história clínica faz-nos orientar para procedimentos muito mais cautelosos no que diz respeito ao pedido de MCDT".
Aliás, nesta área, a USF aposta numa máxima fundamental: "Primeiro as mãos; depois as imagens", de acordo com um savoir faire que o primado da tecnologia tem vindo a pôr de lado, mas que a equipa procura incutir nos internos: "Pensar com a cabeça; sentir com as mãos e só então decidir."
Oito internos de MGF
A equipa da USF Condeixa mantém-se praticamente inalterada desde 2006 (cinco médicos, seis enfermeiros e quatro secretários clínicos), mas nesta USF o todo é mais do que a soma das suas partes. A sua vertente formativa transformou-a numa USF-escola. Atualmente, possui oito internos de MGF, a par de um grande número de alunos dos 4.º e 5.º anos de Medicina, do Ano Comum, além de alunos dos 3.º e 4.º anos de Enfermagem.
Na perspetiva do coordenador, os internos fazem parte integrante da equipa. Daí a sua grande satisfação pela ampliação das instalações da USF, ocorrida em 2011, e a incorporação de mais um módulo. "Representou, finalmente, a libertação do espartilho em que nos encontrávamos."
Projeto de intervenção diminuiu faltas dos utentes em 50%
A intervenção dos internos de MGF ao nível da implementação de planos de qualidade na USF é relevante. José Miguel Conceição destaca, por exemplo, um estudo sobre a qualidade da prescrição de densitometrias que foi premiado, em dois anos consecutivos, no Congresso Português de Reumatologia.
Mais recentemente, um estudo, seguido de uma intervenção ao nível das faltas dos utentes às consultas programadas de Saúde Infantil e Saúde da Mulher, fez cair o número de faltosos para metade.
"Experimentámos um método que consiste em telefonar na semana anterior a todos os utentes marcados, recordando-lhes a consulta. Este ano, prevemos alargar o projeto aos doentes diabéticos e hipertensos", explica o nosso interlocutor. Este último grupo de doentes tem sido, aliás, objeto de intervenções a outros níveis. José Miguel Conceição refere que, "durante um ano, desenvolvemos um projeto de avaliação interna sobre a dificuldade de os captar e controlar e, neste momento, também os utentes hipertensos cumprem os indicadores".
Autonomia técnica e organizacional é fator distintivo das USF
Esta possibilidade de as equipas, dotadas de autonomia técnica e organizacional, poderem intervir em áreas sensíveis com acuidade e proximidade é um dos valores distintivos das USF que José Miguel Conceição valoriza mais.
"Antigamente, no tempo dos centros de saúde, dotados de uma cadeia de comando vertical, as normas de orientação das ARS ou da Direção-Geral da Saúde iam parar, frequentemente, ao fundo de uma gaveta. Agora, tudo é diferente. Muitas das decisões surgem internamente, nas reuniões semanais da equipa ou do conselho técnico, e são implementadas sem obstáculos".
Claro que José Miguel Conceição está ciente de que esta coordenação de esforços só é possível "pelo pioneirismo que permitiu a formação de uma equipa com interesses idênticos e já com longos anos de trabalho em conjunto, que faz com que o ambiente seja magnífico".
Nas reuniões semanais da USF discute-se, analisa-se, programa-se... desde a formação dos profissionais às questões relacionadas com a acessibilidade dos cerca de 10 mil utentes inscritos na unidade, a qualidade do atendimento ou a intersubstituição dos profissionais, um método de trabalho que permite atender às situações agudas, mesmo no caso do médico ou enfermeiro de família estarem ausentes.
Autonomia financeira continua abaixo dos mínimos
Apesar de, em termos técnicos e organizativos, a USF ter conseguido manter uma grande autonomia, José Miguel Conceição lamenta que não haja qualquer evolução relativamente à autonomia financeira. Pelo menos, "um fundo de maneio que nos permitisse fazer pequenas reparações sem necessidade de apresentar um requerimento ao ACES".
Mas essa é uma questão difícil e sensível, que terá de esperar por tempos melhores. Neste momento, na sua opinião, o importante é continuar a investir no desenvolvimento de USF Modelos A e B.
Nesse sentido, refere: "Sempre depositei alguma esperança no atual ministro da Saúde porque, como gestor que é, acabaria por confirmar que as USF constituem uma mais-valia para o sistema nacional de saúde, quer pela melhoria da qualidade dos cuidados que prestam à população, quer pelos resultados financeiros."
Se algum obstáculo houver à criação de USF Modelo B, "só pode vir do Ministério das Finanças", afirma.
Enfermeiros de família desde a primeira hora
Os enfermeiros da USF Condeixa sempre trabalharam de acordo com a filosofia do enfermeiro de família, uma figura preconizada pelo ministro da Saúde, Paulo Macedo, para a generalidade dos cuidados de saúde primários. "Cada enfermeiro de família possui uma lista que, no nosso caso, corresponde à do médico com quem trabalhamos", explica a enfermeira Paula Veríssimo, do conselho técnico da USF.
"Conhecemos a família desde a nascença até ao final da vida. Somos uma referência em termos de acessibilidade e trabalhamos em coordenação com o médico de família, o que constitui uma mais-valia para nós e para o utente."
A ação do enfermeiro de família é não só visível no ambulatório como nos cuidados domiciliários, dirigidos a utentes dependentes e/ou idosos. De acordo com Paula Veríssimo, "realizamos visitas conjuntas sempre que é necessário e tentamos dar resposta, no prazo máximo de 24 horas, a todas as solicitações que nos chegam, através de familiares, do serviço social ou da própria equipa da USF".
José Miguel Conceição: Dedicação exclusiva à Medicina Familiar
Depois de terminar o curso de Medicina, em 1976, José Miguel Conceição realizou o internato geral em Condeixa, sob a orientação do então delegado de saúde Fortunato Bandeira. E à semelhança de toda uma plêiade de médicos da sua geração, realizou o Serviço Médico à Periferia por um período de dois anos, seguindo-se um trabalho árduo como policlínico no Hospital da Universidade de Coimbra.
Mas "não era no hospital que me sentia bem". Assim que chegou a oportunidade, concorreu à carreira de Clínica Geral, tornando-se, em 1982, o primeiro clínico geral a ser colocado no Centro de Saúde de Condeixa.
O seu interesse pela reumatologia levou-o, entre 1984 e 1986, a Barcelona, onde realizou a especialização. Depois deste pequeno interregno, regressou a Condeixa. Percorreu as várias extensões do centro de saúde e conheceu bem de perto as dificuldades de um trabalho isolado.
Talvez por isso, defende, como ninguém, as vantagens do trabalho em equipa, como aquele que é realizado na USF Condeixa, a unidade de saúde que coordena desde 2006.
Casado com uma médica de família, também pertencente a uma unidade de saúde familiar (USF Rainha Santa), e com dois filhos a estudar Medicina e Engenharia Informática, resta-lhe pouco tempo para os seus hobbies: ler e esquiar. Mas garante que continua a tentar. É que, explica, o trabalho da USF é de tal forma absorvente que lhe ocupa grande parte do tempo livre.
Os fins de semana são ótimos para "fazer o trabalho de casa": programar reuniões, enviar e-mails, estudar indicadores... Mas, como diz o ditado, "correr por gosto não cansa". Por isso, se pudesse voltar atrás, José Miguel Conceição não tem dúvidas de que seguiria em frente.
A equipa da USF Condeixa, que integra o grupo das primeiras USF que surgiram a nível nacional, conseguiu obter, desde sempre, os melhores resultados a nível técnico, organiz ativo e financeiro. Volvidos mais de seis anos após o início da reforma dos cuidados de saúde primários, prepara-se agora para iniciar o desafio da acreditação.

