A Ana Filipa Sutre, a Bárbara Aguiar, o Erik Dornelles, a Maria Resende e o Nuno Machado realizaram um estágio no Hospital Dr. Agostinho Neto, na cidade da Praia, Ilha de Santiago, em Cabo Verde, que lhes deu outra perspetiva da prática médica. Agora frequentam o 5.º ano de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e, à semelhança do que acontece todos os anos, foram selecionados por sorteio entre 25 candidatos quando estavam a um passo de terminar o 4.º ano.
O projeto é da Clínica Universitária de Doenças Infecciosas e Parasitárias da FMUL, foi iniciado pelo Prof. Doutor Francisco Antunes, em 2004, e a Prof.ª Doutora Emília Valadas está a dar continuidade ao mesmo, sendo que também acompanha cada grupo de alunos nos primeiros dias do estágio de quatro semanas, para ajudar na integração. “No geral, o balanço é muito positivo, especialmente para os nossos alunos, pois regressam do estágio com uma atitude diferente. Vêm com ideias mais claras e a saber melhor o que querem”, opina a responsável pela Clínica Universitária de Doenças Infecciosas e Parasitárias.
O estágio acontece anualmente, há doze anos, no âmbito da cadeira de Medicina Tropical em Cabo Verde e a passagem dos discentes pelos diferentes serviços do hospital africano é denominada Prática Clínica Tutoral, estando também ligada ao Programa Nacional de Telemedicina do Hospital Dr. Agostinho Neto. Este programa foi iniciado também em 2004 pela cardiologista cabo-verdiana Dr.ª Vanda Azevedo, na altura diretora clínica daquele hospital.
Recentemente até foi promovida na Aula Magna da FMUL uma aula sobre a Prática Clínica Tutoral, com transmissão para Cabo Verde. “Já colaboramos várias vezes no Programa Nacional de Telemedicina, que funciona na maioria das ilhas de Cabo Verde”, indica a Prof.ª Doutora Emília Valadas, recordando que quando o Programa iniciou eram abordadas as cardiopatias nas crianças, mediante uma colaboração com a Universidade de Coimbra, mas com telefonemas e emails. A professora assinala que “a evolução das novas tecnologias permitiu a criação de um sistema em várias ilhas e a expansão foi sendo feita em colaboração com outras universidades, como a Universidade de Boston e algumas de países do Leste europeu”.
Além do intercâmbio de conhecimentos, o Programa Nacional de Telemedicina permite que sejam realizadas consultas à distância, evitando a deslocação desnecessária de doentes para a capital cabo-verdiana ou de especialistas aos locais onde se encontram, noutras ilhas. Em Cabo Verde, a maioria dos especialistas exercem a atividade na cidade da Praia, pelo que o recurso à telemedicina resulta muito útil, por exemplo, para os médicos de Medicina Geral e Familiar esclarecerem dúvidas. “Muitos doentes eram encaminhados para o Hospital Dr. Agostinho Neto sem haver necessidade. Por exemplo, as câmaras possuem uma definição que possibilita o diagnóstico feito com base na observação”, refere a professora assegurando que as consultas que são feitas por via da telemedicina funcionam muito bem e os alunos que têm a oportunidade de realizarem o estágio constatam no local as vantagens do sistema.
Infecciologia mas não só
O Hospital Dr. Agostinho Neto é o hospital de referência para os doentes com VIH. Por este motivo, os alunos que realizam o estágio no âmbito da cadeira Medicina Tropical em Cabo Verde acabam por ter bastante contacto com a área de Infeciologia ligada ao serviço de Medicina Interna. Contudo, segundo afirma a Prof.ª Doutora Emília Valadas, “em Cabo Verde vive-se imenso problemas como a diabetes e a obesidade”.
A responsável pela Clínica Universitária de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa lembra que o estágio também já se realizou noutros países africanos, como Moçambique, Angola e S. Tomé e Príncipe, mas “por razões várias concentramo-nos em Cabo Verde, até porque é um país com vários bons fatores, tais como a existência de muitos medicamentos, exames complementares de diagnóstico e doentes”.
Na primeira pessoa
No dia em que a revista SIDA foi à Clínica Universitária de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa para falar com os alunos que participaram no último estágio apurou que a opinião é unânime. Todos mencionaram ter sido uma experiência “muito importante”, sentiram-se bastante úteis e ficou em todos a vontade de regressar a Cabo Verde para “ajudar ainda mais”. Referiram, no entanto, que nunca abandonaram o papel de alunos finalistas do 4.º ano e que seguiam as orientações dos médicos que acompanhavam nos diversos serviços hospitalares.
Eis os testemunhos:
Bárbara Aguiar
Comunicamos com uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, por isso aprendemos a dar mais valor à clínica e observação, a par com os exames de diagnóstico que temos ao dispor. Conseguimos aprender a praticar uma medicina mais baseada no que conseguimos ver no doente em termos de sinais e sintomas e não tanto apenas basearmo-nos nos exames de diagnóstico para poder agir. Ao ver outras realidades, também aprendemos a valorizar o que temos em Portugal.
Ana Filipa Sutre
Aprendemos a estar mais atentos aos sinais e sintomas do doente e sentimo-nos muito úteis. Foi uma boa experiência. Os médicos cabo-verdianos fizeram a sua formação em diferentes países, desde Portugal, Cuba ou Brasil, pois só muito recentemente é que o curso passou a ser ministrado em Cabo Verde. Por este motivo, tivemos a oportunidade de contactar com vários e diferentes pontos de vista ao nível da aprendizagem. Além disso, ficámos com uma maior visão de como é feita a Medicina noutros países, o que nos enriquece, para além de passarmos a valorizar o que temos e ganhar um estímulo para querer fazer mais.
Nuno Machado
Conseguimos realizar algumas técnicas que ainda não fizemos na qualidade de estudantes no nosso País, como por exemplo punções lombares, mas obviamente sempre com supervisão dos médicos que acompanhámos. Também tivemos a oportunidade de contactar com algumas pessoas com doenças que não ocorrem com tanta frequência em Portugal e, em relação aos doentes infetados com VIH, constatámos que existe uma forma particular de serem tratados e de serem abordados.
Maria Resende
Foi uma experiência muito interessante. Deram-nos uma responsabilidade e credibilidade que ainda não é dada em Portugal precisamente porque somos muitos alunos por doente e por tutor. Em Cabo Verde, fomos recebidos como se fossemos um elemento novo da equipa. Por este motivo, houve um maior sentido de responsabilidade, contudo estivemos sempre sob supervisão médica e nunca deixámos de ser alunos do 4.º ano. Para mim, sentir responsabilidade deu-me muita motivação para o futuro e continuar este percurso. De facto, regressei a pensar que escolhi o curso certo.


