Congresso de Hepatologia 2017 é “exemplo dos princípios orientadores do exercício da Medicina”

Prof.ª Doutora Isabel Pedroto, presidente da APEF
29/03/17
Congresso de Hepatologia 2017 é “exemplo dos princípios orientadores do exercício da Medicina”

A comunidade hepatológica nacional reúne-se de 30 de março a 1 de abril, no Porto. O Congresso Português de Hepatologia/20.ª Reunião Anual da APEF procura ser, nas palavras da Prof.ª Doutora Isabel Pedroto, “um fórum amplo de debate clínico e de projetos de interesse nacional na área da Hepatologia”, respondendo às necessidades dos seus especialistas, unindo todos os profissionais de Saúde envolvidos, em prol dos doentes. Em entrevista à News Farma, a presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) faz uma antevisão do evento.

News Farma (NF) | Em contagem decrescente para o Congresso Português de Hepatologia 2017 (CHP), que antevisão faz e quais os objetivos que estão na base da organização do Congresso?

Prof.ª Doutora Isabel Pedroto (IP) | O objetivo geral passa por promover um fórum amplo de debate clínico e de projetos de interesse nacional na área da Hepatologia. Especificamente, os objetivos são: contribuir para a consolidação da Hepatologia como área do conhecimento multidisciplinar; congregar a comunidade científica com interesse na Hepatologia, sobretudo quando aplicada à prática clínica; promover o intercâmbio de experiências e conhecimentos sobre variados temas, com especial relevo para alguns desafios clínicos do quotidiano; reunir especialistas de várias áreas, internos em formação e demais profissionais da área da Saúde como os enfermeiros que, mais uma vez, terão o seu espaço de intervenção; promover a divulgação dos trabalhos de investigação clínica e atribuir mais uma vez, bolsas de estágio e de investigação clínica; contribuir para uma melhoria contínua da nossa prática clínica alicerçada no conhecimento, na formação e na investigação.

NF | Em 2016, a reunião magna da Hepatologia superou as expectativas, que se pretendia “voltar a ser um exemplo da excelência na qualidade científica em benefício dos nossos doentes”. O que leva para o Congresso deste ano?

IP | O Congresso deste ano, mais uma vez, irá fomentar laços de trabalho e de colaboração, reunindo especialistas nacionais de várias áreas e, com certeza, voltará a ser um exemplo da excelência na qualidade científica orientada não só para a formação, mas sobretudo para aqueles que mais beneficiam do nosso saber e conhecimento, os nossos doentes. A formação é uma estratégia para o desenvolvimento da atividade de qualquer profissional de Saúde e em qualquer fase da sua vida profissional. É enriquecedora da prática profissional, dando resposta à rápida evolução do conhecimento e gera satisfação e empenho profissionais e consequentemente uma melhoria do desempenho clínico. Não podemos nem devemos perder o hábito de refletir e de avaliar, de uma forma sistemática e crítica, a nossa prática clínica diária. Este princípio é a base das nossas reuniões científicas e da qualidade em Saúde que todos desejámos.

NF | A quem se destina este evento científico multidisciplinar?

IP | Na nossa prática clínica devemos privilegiar sempre o trabalho organizado em equipas multidisciplinares. O programa é demonstrativo da vitalidade, do interesse e da abrangência da Hepatologia em Portugal.

NF | Quais são os hot topics em Hepatologia em 2017 que serão discutidos no Congresso?

IP | Questões que têm suscitado debate permanente como os agressores do fígado para além dos vírus, nomeadamente o álcool, a obesidade e outros. A terapêutica de algumas situações clínicas que constituem desafios permanentes da prática clínica. A hepatite B também é um tópico relevante bem como a interação do fígado com outros órgãos, nomeadamente o coração, o rim e o cérebro.

NF | O programa científico conta com um Curso Pós-graduado sobre “Carcinoma Hepatocelular”. A que se deve a escolha deste tema e o que se espera desta formação?

IP | A incidência do carcinoma hepatocelular (CHC) tem aumentado nos últimos anos, na maioria dos países ocidentais. Nestes, 70 a 90% dos casos surgem em doentes com cirrose, sendo a incidência mais elevada na etiologia vírica. O tratamento com os agentes antivíricos de ação direta revolucionou a infeção crónica pelo vírus da hepatite C. É expectável que estas novas terapêuticas reduzam a incidência de cirrose hepática e o desenvolvimento de CHC. No entanto, poderão só ter um impacto moderado na prevalência global do CHC, dadas as projeções das taxas de CHC nos próximos 30 anos. Por outro lado, a elevada prevalência global de obesidade e diabetes podem fazer deste grupo um importante alvo do CHC. Apesar de atualmente o CHC ser detetado mais precocemente, os resultados globais ainda são pobres, com uma taxa estimada de sobrevida global aos cinco anos inferior a 12%. Uma multiplicidade de ensaios clínicos e várias terapias direcionadas (quimioterapia, compostos hormonais e Imunoterapia) estão a ser exploradas como primeira ou segunda linhas de tratamento no CHC avançado. Do ponto de vista prático, a escolha da melhor terapêutica nem sempre é uma decisão fácil dado nos confrontarmos com cenários clínicos muito diversos. Esperamos poder contribuir para uma melhor clarificação das perspetivas futuras do diagnóstico, do estadiamento e do tratamento do CHC.

NF | O Congresso, em simultâneo com a Reunião Anual da APEF, que este ano assinala a 20.ª edição, aposta na participação de especialistas mais jovens?

IP | A qualidade da nossa prática clínica está intimamente ligada à formação. Não é possível exercer Medicina sem formação médica contínua. Esta é a garantia do conhecimento e da sua transmissão aos mais jovens. A APEF pretende ser um exemplo da qualidade na formação, não só através dos cursos para internos em Hepatologia mas também, através da sua participação no CPH, quer no curso pós-graduado, quer no CPH no qual terão oportunidade de apresentar os seus trabalhos nesta área de uma forma didática e construtiva. Todos desejamos que os jovens em formação pós-graduada ou os jovens especialistas constituam uma força ativa na defesa da formação e da melhoria contínua da qualidade em Saúde.

NF | Quantos trabalhos foram submetidos?

IP | Esta edição do Congresso conta com cerca de 100 trabalhos submetidos.

NF | A apresentação de casos clínicos nacionais merece um lugar de destaque no programa. Esta Reunião aposta numa componente mais prática da especialidade? Quais as mais-valias?

IP | A qualidade e sustentabilidade da saúde em Portugal só têm sido conseguidas porque os clínicos assumem uma atitude reflexiva da sua prática clínica diária. Uma tarefa exigente, mas efetiva quando enquadrada numa cultura de transparência, partilha de informação e de aprendizagem contínua. O CPH constituirá, uma vez mais, um exemplo destes princípios orientadores do exercício da Medicina em geral e da Hepatologia, em particular.

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