Sociedade Portuguesa de Neurologia celebra 30 anos

Redação News Farma
21/02/13

Prof. Vítor OliveiraEpilepsia, patologia do sono e doença de Parkinson registaram grandes avanços 

A área das Neurociências sofreu uma grande evolução ao longo dos últimos anos. A Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), que assinala agora 30 anos de existência, acompanhou este desenvolvimento.


O Prof. Doutor Vítor Oliveira, presidente da SPN, além de destacar alguns avanços relacionados com a epilepsia, com a patologia do sono e com a doença de Parkinson, afirma que, para benefício dos doentes, a SPN deve ser cada vez mais ativa e atuante em Portugal.

"A epilepsia conheceu avanços extraordinários, não só com as novas terapêuticas medicamentosas, incomparavelmente mais eficazes do que na época da constituição da SPN, como enveredou por caminhos então insuspeitáveis, como as terapêuticas cirúrgicas e as estimulações elétricas."

A explicação é dada pelo Prof. Vítor Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), afirmando que tais progressos só foram possíveis num contexto de interligação com outras áreas científicas e tecnológicas, de que "salientamos a imagem (primeiro a TAC e depois a ressonância magnética e a tomografia de emissão de positrões)".

A eletroencefalografia, instrumento inseparável da prática neurológica, teve igualmente um papel fundamental no conhecimento dos mecanismos da epilepsia e permitiu identificar, com grande precisão, os focos epiléticos quer com registos sobre o escalpe, quer ainda, diretamente, sobre o próprio cérebro, durante as cirurgias. A monitorização das crises com vídeo-EEG constituiu também uma mais-valia importante.

A patologia do sono foi uma nova área que, segundo Vítor Oliveira, "surgiu e que tem vindo a ganhar uma dimensão importante. Estranho é que situações tão relevantes que ocorrem em um terço da nossa vida que passamos a dormir não tenham despertado interesse há mais tempo". E acrescenta: "Aqui, também, o progresso da engenharia no âmbito da eletromedicina foi fundamental, ao desenvolver instrumentos de registo prolongado do sono com eletroencefalografia, associados ao registo simultâneo em vídeo, e os equipamentos de monitorização cardíaca, ventilatória e muscular."

Evolução terapêutica ajuda doentes

As doenças associadas ao envelhecimento ganharam uma nova expressão não só devido ao aumento da longevidade da população e a maior exigência com a saúde, como ao aparecimento de terapêuticas mais eficazes.

"A doença de Parkinson, por exemplo, beneficia atualmente de tratamentos que revolucionaram a qualidade de vida dos seus portadores", informa o neurologista, enfatizando ainda que "na doença de Alzheimer e noutras demências também se verificaram progressos notáveis, com repercussão direta na qualidade de vida não só dos seus portadores, como dos seus cuidadores e familiares".

As doenças desmielinizantes, de que a mais comum é a esclerose múltipla, particularmente importante e dramática ao atingir pessoas na força das suas vidas, "têm beneficiado de um progresso extraordinário, através de medicação incomparavelmente mais eficaz do que existia há alguns anos".

A área do estudo das cefaleias constitui também um componente importante da Neurologia, com trabalhos publicados em revistas científicas internacionais.

As doenças vasculares cerebrais, nessa época, área órfã da Medicina, dada a escassez de meios de diagnóstico e de terapêuticas, não obstante o trabalho de Egas Moniz e colaboradores, foram conquistadas para a Neurologia. A sua expressão mais paradigmática traduziu-se na via verde do AVC e nas unidades de AVC, desenvolvidas nos últimos anos por todo o país.

Um passado que merece reflexão

Nas palavras de Vítor Oliveira, ao olhar para trás, "todos os neurologistas portugueses certamente se sentem orgulhosos do contributo da Neurologia Portuguesa para o progresso da especialidade".

O especialista salienta ainda, "naturalmente, a obra e a figura de Corino de Andrade e colaboradores, no Porto, com a identificação da paramiloidose familiar (PAF) ou "doença dos pezinhos", para a qual surgiu agora uma terapêutica medicamentosa para que todos olhamos com esperança".

A Unidade de Estudos das Funções Nervosas Superiores (Laboratório de Estudos de Linguagem), em Lisboa, fundada por António Damásio, hoje um cientista de reputação mundial a dirigir uma unidade numa prestigiada universidade dos Estados Unidos, a par de Alexandre Castro-Caldas, mantém hoje um laboratório em atividade que lhe assegura uma reputação internacional.

As áreas de investigação básica em Neurociências têm-se desenvolvido com considerável pujança, existindo atualmente vários centros de investigação espalhados pelo país.

"Vemos, hoje, que proliferam em Portugal unidades de Neurologia, as quais, não obstante os condicionalismos que o país atravessa, vão lutando incansavelmente por prestar às populações que servem um serviço da maior qualidade, tendo em vista os padrões internacionais", revela.

É com justificado regozijo que "vemos os neurologistas portugueses e estrangeiros a exercer em Portugal, bem como neurocientistas oriundos de várias áreas, juntarem-se sob a égide da SPN, para partilharem os seus conhecimentos e discutirem os assuntos que lhes dizem respeito".

Missão da SPN

À SPN cabe também uma missão de grande relevância (talvez a mais importante), que é a de promover a formação dos médicos mais novos, que dão os seus primeiros passos na especialidade de Neurologia. A vitalidade da SPN mantém-se, enfrentando novos desafios, com vista a satisfazer os sócios no que eles poderão esperar de uma sociedade científica que é a sua.

Assim, de acordo com Vítor Oliveira, "no nosso congresso anual, procuramos trazer colegas nacionais e estrangeiros que estejam a desenvolver trabalhos da maior qualidade e interesse para a nossa prática. Incentivamos o caminho dos mais novos com a atribuição de prémios para os melhores trabalhos apresentados nas nossas reuniões, bem como apoiamos a investigação com a atribuição de bolsas, após escrutínio rigoroso pelos pares".

Temos sentido o reconhecimento de outras sociedades médicas em Portugal, bem como o apoio da indústria farmacêutica e de equipamentos médicos, que "veem na nossa Sociedade o meio privilegiado quando querem contactar a comunidade da Neurologia Portuguesa.

Ao finalizar, o presidente da SPN diz: "Queremos uma SPN cada vez mais ativa e atuante no nosso país, de modo a melhor servir a valorização profissional dos seus membros e a contribuir para melhorar a saúde dos cidadãos."

SPN seguiu o progresso das Neurociências

Três décadas da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) são motivo de regozijo para todos os neurologistas que nela participam e também para um momento de reflexão.

A SPN surgiu da separação entre os neurologistas e os psiquiatras que integravam a anterior Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria.

Tratou-se de uma separação natural, feita de comum acordo, pois as respetivas especialidades estavam a ganhar um desenvolvimento científico de tal ordem específico e vasto que passava a ser muito difícil, se não impossível, aos seus membros interessarem-se e abarcarem todos os conhecimentos que iam surgindo.

Por isso, "os seus membros optaram por abraçar uma das duas áreas que se constituíam e seguir os seus caminhos. Esta separação era a resultante natural da separação já ocorrida da especialidade de Neuropsiquiatra em Neurologia e Psiquiatria", explica Vítor Oliveira, presidente da SPN.

Sendo assim, a vida da novel SPN começava com a eleição dos seus órgãos sociais, pela primeira vez, em 1982.

Olhando o percurso percorrido, vemos que "a SPN acompanhou, nestas três décadas, o progresso fascinante das Neurociências".

Alguns dos momentos mais marcantes da Sociedade

1949 - No dia 20 de Abril deste ano são aprovados os estatutos da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria (SPNP).

1950 - A sessão inaugural, que decorreu no dia 21 de Janeiro, é presidida pelos Drs. Trigo de Negreiros e Veiga de Macedo. Na mesma sessão, o Prof. Doutor Egas Moniz proferiu a oração "Conceitos neurológicos em Psiquiatria". Neste ano, toma posse a primeira direção da SPNP, cuja duração do mandato era de dois anos.

1951 - Mais um marco histórico na vida longa da SPN. No dia 28 de Junho, assinalou--se o 25.º aniversário da primeira angiografia cerebral, com uma homenagem ao Prof. Doutor Egas Moniz. Esta sessão comemorativa decorreu no Hospital Miguel Bombarda, na altura a sede da SPN (com a designação de SPNP).

1952 - A segunda direção da SPNP toma posse neste ano, sob a presidência do Prof. Doutor Barahona Fernandes.

1960 - Pela primeira vez, as reuniões da SPNP decorrem fora da capital portuguesa.

A 17 de Dezembro, a reunião anual é organizada na cidade do Porto, «cumprindo-se o estabelecido» nos estatutos da SPNP.

1971 - Discute-se o anteprojecto que poderá conduzir à revisão dos estatutos da SPNP, que pretende separar as secções de Neurologia e Psiquiatria, o que se concretiza, oficialmente, dois anos mais tarde.

1977 - É eleita a última direção da SPNP (com esta designação), presidida pelo Dr. António Fernandes da Fonseca.

1979 - É debatida a cisão da SPNP, com o objectivo de se criarem duas sociedades científicas independentes: Psiquiatria e Neurologia. Esta divisão acontece em 1979. A SPNP é extinta neste ano, mas surge, entretanto, a Sociedade Portuguesa de Neurologia. Uma comissão instaladora, presidida pelo Prof. Doutor João Alfredo Lobo Antunes, elaborou os estatutos, que acabaram por ser aprovados no dia 28 de Julho de 1981.

1982 - No dia 11 de Dezembro, é elaborada a acta inaugural da SPN, sobre a reunião do dia anterior, que juntou os 18 sócios fundadores da recém-criada Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN).

SPN 30 anos depois

A SPN foi fundada em 1982, tendo resultado da antiga Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria, criada em 1975. Sem fins lucrativos, é constituída por neurologistas e por outros especialistas dedicados às ciências neurológicas.

A Sociedade tem como principal finalidade a promoção do desenvolvimento da Neurologia ao serviço da população portuguesa, através do fomento do ensino, da investigação científica, do intercâmbio e divulgação de conhecimentos sobre as ciências neurológicas e da promoção de melhores condições de prestação de cuidados médicos e assistência aos cidadãos com doenças neurológicas.

É filiada na World Federation of Neurology e na European Federation of Neurological Societies.

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