“Stent Save a Life confirma que o SNS dispõe do que de melhor existe a nível mundial”

Dr. Hélder Pereira, coordenador da Stent Save a Life na Europa e na Rússia
29/09/17
“Stent Save a Life confirma que o SNS dispõe do que de melhor existe a nível mundial”

No Dia Mundial do Coração, a News Farma dá voz ao Dr. Hélder Pereira, coordenador da Stent Save a Life na Europa e na Rússia. Nesta entrevista, o diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Garcia de Orta faz um balanço dos primeiros seis anos do projeto em Portugal e traça os principais desafios da Stent for Life a nível global, destacando que “os países mais desenvolvidos podem servir de exemplo para aqueles países que ainda não conseguiram ainda alcançar um estado de desenvolvimento que já se atingiu no nosso continente”.

News Farma (NF) | Portugal integrou o projeto Stent for Life em 2011, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC). Em termos gerais, quais os objetivos e missão subjacentes a este projeto?
Hélder Pereira (HP) | A Sociedade Europeia de Cardiologia, assim como as suas associações, verificaram que havia uma grande heterogeneidade no tratamento do enfarte a nível europeu, pelo que implementou estes programas que tinham por objetivo aumentar a oferta atempada da angioplastia primária (P-ICP) de forma a reduzir a mortalidade por enfarte.
A iniciativa Stent Save a Life (SSL) teve início este ano, mas ela é a continuação de um programa anterior, com objetivos idênticos, que foi o Stent for Life (SFL) e o qual integrámos em 2011.
Face ao sucesso alcançado a nível europeu, optou-se por tornar este projeto global, integrando também países da América do Sul, de África e da Ásia. Esta globalização aconteceu este ano e o projeto passou a designar-se Stent Save a Life.

NF | Que balanço é possível fazer destes primeiros seis anos em território nacional?
HP | É um balanço francamente positivo. O Stent for Life (SFL) veio pôr na ordem do dia a angioplastia primária, dar maior visibilidade à APIC e, de uma forma contínua e sistematizada, trouxe para a rua e para o grande público a cardiologia de intervenção.
Em meados da década passada realizavam-se em Portugal pouco mais de uma centena de P-ICP por ano e por milhão de habitantes e apenas 23% dos doentes pedia ajuda através do 112. Por essa altura éramos um dos países europeus com uma das piores performances em P-PCI. Presentemente já nos aproximamos das quatro centenas por milhão e encontramo-nos dentro da média europeia.
Durante a vigência do SFL, entre 2011 e 2016, observou-se um aumento dos doentes que ligaram para o 112 (35,2% vs. 46,6%; p=0,022) e uma diminuição da percentagem de doentes que se dirigiu para hospitais sem cardiologia de intervenção (54,5% vs. 42,4%; p=0,013). Também se observou um aumento do transporte pré-hospitalar pelo INEM (13,1% vs. 30,5%; p <0,001) e do transporte secundário (0,5% vs. 8,1%; p <0,001).
Noutros parâmetros mais ambiciosos como “Atraso do Doente” (AD) e o “Atraso do Sistema” (AS) ainda não se observou uma redução significativa (AD: 114 min em 2011 vs. 100 min em 2016; AS: 115 min em 2011 vs. 134 min em 2016) o que era espectável, pois estes não são bons indicadores para um sistema que está em fase de maturação e expansão. Todos compreendemos que, ao alargarmos o acesso a regiões menos povoadas e mais remotas, o tempo do doente forçosamente é maior. Por outro lado, à medida que o INEM passou a transportar mais doentes, o primeiro contacto médico foi mais precoce, passando o cronómetro a contar para o lado do sistema.

NF | Quais os grandes desafios para os próximos anos em Portugal?
HP | Portugal está no bom caminho em termos do tratamento do enfarte. Há ainda zonas do país com maior dificuldade de acesso, como a Beira Interior ou zonas com escassez de profissionais, como é o caso do Algarve. Mas, em geral, pode dizer-se que temos uma excelente rede de cardiologia de intervenção, boas estradas a ligarem os diferentes centros e bons profissionais. Neste sentido, o trabalho atual e futuro será afinar as várias peças deste puzzle: conseguir reduzir o atraso do doente, reduzir o atraso do sistema, substituir a pouca fibrinólise que ainda se faz pela angioplastia primária e tentar anular o número de doentes não reperfundidos.
Apesar disto, convém destacar que o enfarte é muito mais que o momento da angioplastia. Como cardiologista preocupa-me quer a prevenção primária quer a secundária do enfarte. Por isso mesmo, o Stent for Life pôs em campo vários programas que têm por objectivo melhorar essa áreas. Embora o Stent Save a Life esteja “sediado” na APIC, faz todo o sentido que estes vários programas que já estão em ação, assim como outros que pretendemos implementar, como é o exemplo dos doentes com morte súbita abortada, sejam desenvolvidos no âmbito mais geral da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e dos seus grupos de estudo. Estou em crer que esta partilha irá ser um importante passo em frente do Stent Save a Life.

NF | Na sua opinião quais são as principais lacunas da área cardiovascular no Sistema Nacional de Saúde (SNS)? E relativamente aos pontos positivos?
HP | Na minha opinião, o SNS português, em termos de doenças cardiovasculares, dispõe do que de melhor existe a nível mundial. A experiência do Stent Save a Life e o contacto com a realidade internacional veio confirmar a ideia que já tinha.
Em termos de profissionais, quer médicos, quer enfermeiros ou técnicos, é sobejamente reconhecida a nossa excelência. Devo reconhecer que para este grau de proficiência muito contribuiu a indústria farmacêutica e dos dispositivos médicos. Relativamente às infraestruturas e disponibilidade de equipamentos também estamos relativamente bem e os portugueses têm acesso quase gratuito às mais recentes inovações.
Claro que ambicionávamos ainda mais e melhor, mas para o país pequeno e com escassez de recurso que temos, parece-me que, em termos de Saúde, estamos muito bem colocados. Ao contrário de outros indicadores em que habitualmente subimos na cauda da lista, nas questões de Saúde, Portugal está habitualmente relativamente bem colocado.
Neste aspecto muito específico que é o tratamento do enfarte, em particular o acesso à angioplastia primaria, a principal barreira continua a ser o facto dos doentes não reconhecerem os sintomas e não ligarem sistematicamente para o INEM. Claro que reconhecemos outras lacunas e por isso temos uma panóplia de programas em curso. Mas se me perguntam qual a principal lacuna nesta área, eu diria que é a praticamente ausência de programas de reabilitação cardíaca nos nossos hospitais. Celebrámos com o Grupo de Estudos de Fisiologia do Esforço e Reabilitação Cardíaca, da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, um protocolo que visa aumentar a percentagem de doentes que têm acesso à reabilitação, no entanto ainda há um longo caminho a percorrer.

NF | Este ano foi nomeado coordenador da Stent for Life na Europa e na Rússia, no mesmo ano em que a iniciativa se tornou global. Esta nomeação é sinónimo de uma responsabilidade acrescida? Quais são os grandes desafios para este projeto que agrega realidades díspares de países distantes?
HP | Penso que as boas práticas que temos na Europa podem servir de exemplo para aqueles países que ainda não conseguiram ainda alcançar um estado de desenvolvimento que já se atingiu no nosso continente.
Muitos desse países ainda nem sequer dispõem das infraestruturas para oferecer angioplastia primária aos seus doentes. Mas quando as tiverem, também se irão deparar com problemas organizacionais que uma rede deste tipo comporta.
Mesmo na Europa temos dois tipos de situações: países que já dispõem de uma boa rede de hospitais que realizam angioplastia primária, onde se inclui Portugal, e países que ainda necessitam de completar a rede.
Para o segundo grupo de países há ainda que completar as redes de centros. Em ambos os grupos ainda se observam diferentes obstáculos que pretendemos ultrapassar, sobretudo do ponto de vista organizacional, quer a nível da sensibilização dos doentes quer do próprio sistema pré-hospitalar e hospitalar.
A nossa atividade está bem balizada por normas de orientação clínica imanadas por peritos da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Importa também monitorizar e documentar se a nossa prática está de acordo com essas recomendações. Isso consegue-se através de bons registos de atividade e da partilha de informação e de experiências entre os vários intervenientes.

NF | Esta sexta-feira, dia 29 de setembro, assinala-se o Dia Mundial do Coração. Que iniciativas estão agendadas para assinalar a efeméride?
HP | Tal como já vinha do nosso plano de ação anterior do Stent for Life, também no Stent Save a Life um dos principais vetores de atuação é a sensibilização da população para os sintomas de enfarte e para pedir ajuda de imediato através do 112. Se nos últimos anos melhorámos em muitas áreas, como o aumento dos doentes que ligam para o 112 e o aumento da percentagem de doentes que é transportada pelo INEM e que entra diretamente em centros com Cardiologia de Intervenção, a mediana do atraso do doente continua a ser muito elevada, cerca de duas horas, e mais de metade dos doentes não liga para o 112.
Não é caso para ficarmos desanimados pois outras experiências internacionais têm mostrado resultados semelhantes, obtendo avanços muito lentos com as campanhas de sensibilização.
Possivelmente campanhas de sensibilização mais alargadas e intensas poderiam obter resultados mais rápidos. A verdade é que esta iniciativa tem meios financeiros muito escassos e por isso grande dificuldade em atingir o grande público. Muito daquilo que temos feito resulta sobretudo de abordarmos empresas que tenham a possibilidade de fazer chegar a mensagem da campanha “NÃO PERCA TEMPO. SALVE UMA VIDA” aos seus empregados ou ao seu público ou clientes. São exemplos aquilo que fizemos com a GALP, o Pingo Doce, a NOS, a Ordem dos Farmacêuticos, a Associação Nacional de Farmácias, etc. Estes foram os casos de sucesso, mas por detrás destes casos temos dezenas de insucessos. Muitas empresas portuguesas parecem ainda não ter os seus sectores de responsabilidade social sensibilizados para esta questão.
É, em dias como este, o dia mundial do coração (ou o 14 de fevereiro) que os meios de comunicação social nos dão janelas de oportunidade fazer chegar a nossa mensagem junto do público.
Se conseguirmos também a ajuda do Ministério da Saúde estou seguro que será possível alargar ainda mais este tipo de informação.

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