Bexiga hiperativa e a importância da abordagem centrada no doente

Dr. Ricardo Pereira e Silva, urologista no Hospital de Santa Maria
07/12/17
Bexiga hiperativa e a importância da abordagem centrada no doente

Estima-se que a bexiga hiperativa afete cerca de 17% da população europeia com mais de 40 anos de idade. A comunidade médica tem um papel muito importante no que respeita a consciencializar os doentes que os sintomas desta patologia não fazem parte do envelhecimento natural e que vale a pena falarem com os seus médicos no sentido de tentarem recuperar a qualidade de vida. Em entrevista à News Farma, o Dr. Ricardo Pereira e Silva, urologista no Hospital de Santa Maria, explica os principais desafios que a bexiga hiperativa apresenta atualmente ao setor médico e dá a conhecer algumas ferramentas que podem ser uma mais-valia para os profissionais que lidam com esta doença.

News Farma (NF) | Estima-se que a bexiga hiperativa afete cerca de 1.700.000 portugueses com mais de 40 anos de idade. Em que consiste esta síndrome?

Dr. Ricardo Pereira e Silva (RPS) | O sintoma central da síndrome de bexiga hiperativa é a urgência urinária, que consiste numa vontade súbita e inadiável de urinar. Dependendo dos casos, pode mesmo haver perda involuntária de urina (incontinência urinária de urgência), por vezes em grande quantidade e francamente visível, o que é uma situação devastadora para o doente. É frequente, para além da urgência miccional, o doente apresentar também aumento da frequência urinária durante o dia (idas demasiado frequentes à casa de banho) ou ter que se levantar durante a noite para urinar o que, mesmo no homem, é um sintoma de doença e não um fenómeno normal do envelhecimento.

Estes sintomas podem ter um grande impacto na qualidade de vida dos doentes e podem limitar muito as suas atividades no dia a dia, a nível laboral, social e pessoal. É frequente os doentes evitarem determinados locais ou situações nos quais o acesso à casa de banho possa ser difícil.

NF | Existem diferenças significativas entre o sexo masculino e feminino no que diz respeito a esta patologia?

RPS | A bexiga hiperativa afeta doentes de ambos os sexos – no homem, estes sintomas podem estar associados ao aumento do volume da próstata, mas derivam essencialmente de uma perturbação do funcionamento da bexiga, tal como nas mulheres. Em doentes do sexo feminino, pelas suas características anatómicas, poderá ser mais frequente a ocorrência de incontinência urinária concomitante. O impacto na qualidade de vida é similar em ambos os sexos, sendo que nas mulheres poderá haver maior predisposição para disfunção sexual associada à bexiga hiperativa.

NF | Quais são os principais desafios que a bexiga hiperativa apresenta à comunidade médica?

RPS | O principal desafio é mesmo dar a conhecer esta entidade, esclarecer a população e estimular os doentes a procurar ajuda médica. Para ajudar a colmatar estes desafios, existem plataformas online com conteúdos educativos e informativos para a população em geral sobre a bexiga hiperativa, que embora não substituíam de todo a ida ao médico, podem ser relevantes para aumentar o conhecimento da população e em especial dos doentes sobre a patologia. Estas plataformas têm disponível um questionário de auto-avaliação, que poderão ajudar o doente a identificar os seus sintomas e incentivar a ida ao médico. Adicionalmente, disponibilizam informação útil para a gestão no dia a dia da doença. Um exemplo destas plataformas é a campanha “Na Bexiga Mando Eu”, que é complementada pelo blog “Comece Hoje”, onde são partilhados conselhos úteis à adoção de um estilo de vida mais saudável, com potencial melhoria da sintomatologia daí decorrente.

A partir do momento em que o doente consulta o urologista, o diagnóstico é essencialmente clínico, podendo ser confirmado com exames complementares de diagnóstico - o tratamento poderá então ser instituído. A grande barreira a ultrapassar é a da desvalorização e da inércia em recorrer a uma consulta para abordar este problema.

NF | Muitas vezes a bexiga hiperativa é vista como uma doença escondida, que os doentes têm algum receio de mencionar e frequentemente associada ao envelhecimento natural. Qual a veracidade desta associação?

RPS | Concordo em absoluto e acredito que existem duas mensagens fundamentais a destacar em relação a essa afirmação. A primeira é que existem doenças que não são socialmente convenientes – ninguém gosta de admitir que tem que ir a correr para a casa de banho, que já se urinou involuntariamente em público ou que usa pensos para evitar molhar a roupa; daí, a vergonha em falar sobre o assunto. A segunda é acreditar que o problema deriva da idade e que, portanto, é necessário aceitar a situação e lidar com ela sem tratamento; esta crença é totalmente errada e, ainda que exista um aumento da incidência de bexiga hiperativa com a idade, é importante destacar que é uma doença que afeta pessoas de qualquer idade.

NF | Como deve ser feita a abordagem ao doente, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde primários?

RPS | O médico de família desempenha um papel fundamental naquilo que fiz questão de mencionar como o maior desafio à comunidade médica neste âmbito – esclarecer acerca da patologia e reconhecer o problema. O doente dever-se-á sentir à vontade para conversar sobre os seus sintomas com o seu médico de família, de forma a possibilitar o diagnóstico e a instituição de tratamento adequado. Sempre que necessário, deverá ser referenciado para um urologista para prosseguir com a investigação (mediante realização, por exemplo, de um estudo urodinâmico para esclarecimento do quadro clínico) ou para realização de tratamentos diferenciados, que se destinam aos casos que não respondem adequadamente ao tratamento farmacológico inicial.

NF | Em que consiste uma abordagem centrada no doente quando falamos de bexiga hiperativa?

RPS | Não equaciono uma abordagem que não seja centrada no doente, ou seja, quando acompanhamos e tratamos um doente com bexiga hiperativa temos obrigatoriamente que ter em conta não só o comportamento da bexiga propriamente dita, mas também todo o contexto socioprofissional da pessoa em questão. O doente que procura ajuda médica por este tipo de problema tem determinadas necessidades e expectativas específicas, às quais nós devemos dar resposta. O objetivo é obter o controlo sintomatológico adequado às atividades de cada doente, de forma a assegurar uma boa qualidade de vida.

NF | Quais são as causas desta patologia? Existem comportamentos capazes de potenciar o desenvolvimento de bexiga hiperativa?

RPS | Na maioria dos casos não existe uma causa identificável. Aliás, a própria definição de síndrome de bexiga hiperativa pressupõe a exclusão de uma causa óbvia para os sintomas. Na presença, por exemplo, de uma infeção urinária, os sintomas podem ser justificáveis e ser revertidos com o tratamento da mesma. A bexiga hiperativa também pode estar associada a algumas doenças neurológicas, a hiperplasia benigna da próstata no homem ou a prolapso genital na mulher, entre outros.

Alguns comportamentos podem, de facto, agravar a sintomatologia – a ingestão excessiva de álcool, cafeína ou bebidas gaseificadas, bem como o tabagismo, são alguns exemplos. A primeira medida no tratamento da bexiga hiperativa é exatamente a reversão de alguns destes hábitos, no âmbito das ditas medidas comportamentais, que incluem também o treino vesical. A adequação do estilo de vida pode ajudar a obter melhores resultados com o tratamento medicamentoso.

NF | Relativamente às perspetivas para combater a doença: existem novos tratamentos em vista?

RPS | A Urologia Funcional, ou seja, a subespecialidade que se dedica ao estudo e tratamento dos sintomas do aparelho urinário inferior, nos quais se incluem os sintomas de bexiga hiperativa, é uma área em forte desenvolvimento.

De referir que o tratamento com medicamentos em comprimidos é eficaz na maioria dos casos. Ainda assim, existem atualmente formas alternativas de tratar os casos mais graves e que respondem de forma insuficiente a essa medicação – injeção de toxina botulínica na bexiga e neuromodulação de raízes sagradas são as principais modalidades terapêuticas disponíveis para esses doentes. Nessa perspetiva, os tratamentos que existem atualmente permitem um adequado controlo dos sintomas na quase totalidade dos doentes. Ainda assim, muita investigação continua a decorrer e é provável que novos tratamentos venham a estar disponíveis no futuro.

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