News Farma (NF) | Qual foi o ponto de partida para desenvolver o sistema HVITAL? (a que desafios pretende responder e quais os principais objetivos da sua criação).
Dr. José Pedro Almeida | O HVITAL nasce em pleno período da TROIKA, onde a eficiência operacional a todos os níveis passou a ser um fator critico de sobrevivência, sobretudo para os hospitais públicos que viram o seu financiamento drasticamente reduzido. Nestes momentos a necessidade aguça o engenho, e o nosso foi saber tirar partidos dos nossos dados como ninguém. Tínhamos a visão de que uma grande organização como é o Centro Hospitalar de São João não pode ser gerida com base em feelings, tem de ser gerida com base em números. Hoje em dia, faz parte da nossa cultura, não vivemos sem dados em tempo real que o HVITAL calcula e disponibiliza a cada momento.
NF | Qual é o estado de implementação do sistema no Centro Hospitalar de São João? (quantidade de informação armazenada, serviços e hospitais que utilizam, pessoas envolvidas)
JPA | Armazenamos vários terabytes de informação, mas a grande mais valia é a forma como a correlacionamos e, acima de tudo, a conseguimos transformar em conhecimento. Não vale a pena dizermos que temos 10 petabytes de informação armazenada se não tirarmos partido dela, é um erro comum nesta era do Big Data. A nossa plataforma é utilizada diretamente por um conjunto de cerca de 100 “Power Users” diretos que fazem a interligação com todos os serviços do hospital, e por mais de 1000 utilizadores indiretos, muitos dos quais médicos e enfermeiros. Os utilizadores indiretos muitas vezes recebem insights pertinentes da nossa solução, que podem até chegar através de um simples SMS, mas muitos não sabem que foi o HVITAL que os enviou. Por exemplo, um médico pode ir a caminhar pelo piso 2 do hospital e receber um SMS acerca de uma queda de hemoglobina preocupante num doente que está no Piso 9 do hospital, que foi detetada mais rapidamente pela capacidade de cálculo matemático imediato desta plataforma de Big Data, que está permanentemente a analisar os dados. Inovamos diariamente em prol da segurança do doente e o que mais nos interessa é que a informação pertinente, que permite uma ação, chegue rapidamente a quem a pode utilizar. É um instrumento fundamental para a nossa atividade. Hoje em dia, se o HVITAL parar uns minutos, começam a chover chamadas. As pessoas habituaram-se a ter dados em real-time. A equipa que diariamente dá contributos para o desenvolvimento do HVITAL é vasta, podendo ir desde os órgãos de gestão, a um conjunto de médicos e enfermeiros de excelência, até aos parceiros externos com os quais discutimos e implementamos as inovações tecnologias mais recentes para passarmos das ideias às soluções. Isto só é possível trabalhando em equipa.
NF | Esta plataforma é reconhecida como uma das soluções de big data mais avançadas do mundo na área hospitalar, tendo já recebido vários prémios. Na sua opinião, que funcionalidades estão na base deste reconhecimento?
JPA | Tecnicamente são várias as funcionalidades, mas numa única frase diria que é a capacidade de transformar dados dispersos em conhecimento “acionável”. Ou seja, nós conseguimos transformar milhões de pontos de informação sobre os nossos utentes que estão dispersos por múltiplos sistemas informáticos, correlaciona-los e produzir inferências sobre os mesmos à velocidade da luz. Os médicos que não possuem esta ferramenta têm a tarefa inglória de procurar em milhares de registos pela informação dos seus utentes e, no entretanto, está-se a perder uma oportunidade de atuar mais rapidamente. Isto pode significar avisar mais rápido o médico de que o seu doente está com um padrão preocupante de evolução de sinais vitais e de análises, ou que se encontra colonizado por uma infeção multirresistente, ou de que é necessário parar a terapêutica antibiótica prolongada porque já excedeu um nº limite de dias. Ou, por exemplo, prever que nos próximos 3 dias virão 20% mais utentes à urgência, possibilitando um planeamento de recursos humanos preventivo, e não reactivo. Todos estes dados já existiam em sistema, a diferença agora é que há um motor inteligente que os interpreta, correlaciona, e entrega às equipas clinicas de um modo imediato e inteligível, permitindo tomar uma ação.
Mas os aspetos técnicos são uma ínfima parte do sucesso, o mais importante é a ambição que temos como equipa. Pessoalmente, acho que o fato de trabalhar diariamente com grande resiliência e paixão é também um fator que faz a diferença. Tento transmitir a missão de que podemos usar este nosso know-how para fazer mais pelas pessoas, e penso que é algo que acaba por transmitir-se a todos os elementos da equipa e salienta o melhor que há em cada um deles. Só assim é que chegamos tão longe.
NF | Para além das vantagens do ponto de vista administrativo, a HVITAL também se assume como uma ferramenta de auxilio para a decisão médica. De que potencialidades falamos neste caso concreto?
JPA | A automação na área de previsão do risco de deterioração clinica é claramente das mais desafiantes e onde o HVITAL já mostrou ser exemplo único a nível mundial. Através da análise e correlação evolutiva de todos os sinais vitais e resultados de análises de um paciente, o HVITAL consegue inferir padrões de risco que podem ajudar a antecipar até 30% das admissões em unidades de cuidados intensivos até 7 dias antes de ocorrerem. Fazendo a sinalização automática destes pacientes através de uma lista de doentes em risco, à qual podem aceder diariamente todos os médicos e enfermeiros, o trabalho computacional que é feito pela máquina permite ganhar tempo e traduz-se numa aplicação com utilidade real, chegando ao paciente.
A área do controlo da infeção e da vigilância aos antibióticos é também uma área onde claramente estamos na linha da frente. O HVITAL consegue alertar em segundos para casos colonizados com infeção multirresistente ou com padrões de terapêutica antibiótica prolongada, que poderiam demorar horas ou mesmo dias até serem detetados. Ou, por exemplo, começar a perceber que uma determinada bactéria está numa trajetória crescente de resistência a determinados antibióticos, através de um conjunto de algoritmos matemáticos, e alertar as nossas equipas clinicas sobre estes cenários.
Mas em breve poderá ir ainda mais além, propondo o conjunto de antibióticos que, tendo em conta o ambiente de microrganismos que habita o hospital a cada momento, poderá vir a ter uma atuação mais eficaz.
A grande revolução é a automação do HVITAL, não se trata de uma solução que apenas funciona quando clicamos no botão, é uma solução autónoma, que não dorme, e que age proactivamente em determinados níveis de alerta. É esta a visão que a área do Machine Learning vai começar a trazer para a saúde, e nós vamos continuar a desenvolve-la com casos reais no HVITAL.
É certamente um dos instrumentos de gestão operacional e clinica mais poderosos que existem no âmbito hospitalar a nível mundial, quer a nível publico quer a nível privado.
NF | O projeto tem despertado o interesse de unidades hospitalares nacionais e internacionais. Já há perspetivas de comercialização?
JPA | Sim a nossa perspetiva da comercialização é a de que a solução deve ser comercializada por um parceiro externo, que possa garantir o suporte e a manutenção da solução nos futuros clientes. Neste momento a solução está no mercado e pronta a ser comercializada pela DevScope, empresa com quem trabalhamos desde o inicio no desenvolvimento desta plataforma.
NF | A fama da HVITAL já chegou aos Estados Unidos da América, onde já arrecadou um prémio e também foi referenciado por pelo cronista Bernard Marr da Forbes num dos seus artigos. Como é que este tipo de reações são recebidas pela equipa responsável pelo seu desenvolvimento?
JPA | Num ambiente de elevada restrição orçamental como o ambiente público, no qual é muito difícil arranjar investimento para inovação, conseguir mostrar que fazemos melhor do que organizações americanas que conseguem contratar centenas de pessoas e disponibilizar milhões de dólares de investimento para trabalhar os mesmos problemas, é um fator altamente motivador. E tem ainda mais mérito porque ninguém imagina as dificuldades burocráticas com que nos deparamos para conseguir desenvolver algo desta dimensão, num hospital público tão complexo.
Por vezes sentimos é que somos mais reconhecidos fora do país, do que dentro dele. Gostávamos que, a nível nacional, casos de excecional inovação como o nosso pudessem ter mais instrumentos ao seu dispor para acelerar o ritmo de inovação, uma espécie de “fast-track to innovation” que possibilitasse o acesso direto a fundos especificamente direcionados a estes exemplos de inovação com provas já dadas. A inovação não acontece só na WebSummit, também ocorre dentro das organizações, e penso que já provamos o retorno que esse investimento poderia ter.
NF | Do ponto de vista económico quais são os benefícios da plataforma, tendo em conta o investimento inicial que implica?
JPA | Os benefícios são irrefutáveis. O investimento inicial na plataforma já foi largamente recompensado há vários anos, sendo que se estimam poupanças de vários milhões de euros em áreas tão diversas como o apoio ao controlo de infeção e às resistências aos antimicrobianos, a eficiência operacional com uma gestão em tempo real da capacidade instalada, às análises imediatas de custo-efetividade de um conjunto de processos clínicos que demorariam meses a ser concluídas se esta ferramenta não existisse. A título de exemplo, quando foi necessário tomar uma decisão sobre investir no reprocessamento de algum material cirúrgico, o motor analítico do HVITAL revelou em poucos segundos não só o impacto financeiro dessa medida mas também permitiu ajudar a estudar o impacto nos outcomes clínicos, quando comparada com a pratica corrente. A diferença está em conseguir analisar 560 biliões de combinações de números a cada momento.
É certamente um dos instrumentos de gestão operacional e clinica mais poderosos que existem no âmbito hospitalar a nível mundial, quer a nível publico quer a nível privado.
NF | Relativamente ao futuro, de que forma perspetiva o crescimento desta aplicação? Há novas funcionalidades em vista?
JPA | A área de Machine Learning (Inteligência Artificial) é a nossa grande prioridade de desenvolvimento, queremos ser lideres no espaço internacional. Estamos agora a construir os alicerces para os próximos 10 anos, no qual acreditamos que a prática da medicina terá um forte alicerce na inteligência artificial. Queremos, cada vez mais, ser capazes de prever o futuro e de o antecipar sinalizando ações preventivas que podem mudar o percurso clinico de um paciente. Mas esta visão exige muito mais do que apenas palavras soltas. Há todo um trabalho de preparação que começa anos antes e onde é preciso tentar vislumbrar o que vamos precisar no futuro. Esse desenho já começou há vários anos e vai desde o planeamento exaustivo das características do hardware de que vamos precisar, ao desenho do repositório de Big Data, ou mesmo aos recursos humanos altamente especializados em áreas de nicho que procuramos captar. Por outro lado, estamos permanentemente atentos aos algoritmos que gigantes como a Google, Facebook e a Netflix disponibilizam diariamente à comunidade, e à forma como podemos reaproveitar e adaptar todo este know-how para o apoio à decisão clinica.
NF | E de um modo geral, o que é que a inteligência artificial pode trazer à Medicina nos próximos anos?
JP | Grandes centros de excelência a nível mundial já começaram este caminho, como por exemplo o Mount Sinai em Nova York. Usando o Machine Learning e Big Data conseguiram descobrir que a diabetes tipo 2 pode, na realidade, ser representada por 3 subgrupos de doentes muito bem definidos, que um supercomputador conseguiu identificar recorrendo à Inteligência Artificial, e que nunca ninguém se tinha apercebido. Este artigo foi publicado imediatamente na Science Translacional. Estamos a falar em passar de anos de investigação clinica para conseguir testar uma hipótese, para apenas alguns minutos. Mas muitos outros exemplos poderiam ser dados, como é o caso da capacidade de deteção de retinopatia diabética por algoritmos de DeepLearning pela Google, que provou ser mais precisa do que um painel reconhecido de oftalmologistas.
A capacidade computacional das máquinas vai certamente revolucionar o modo de diagnóstico e também de previsão. Com o know-how que hoje em dia tenho de ambos os mundos (médico e inteligência artificial), acredito plenamente que inteligência artificial vai permitir trazer um nível de excelência de cuidados a que nunca assistimos e, acima de tudo, vai trazer também muita equidade nesses tratamentos. Quer sejamos tratados no interior ou no litoral, os algoritmos vão permitir que tenhamos sempre acesso ao estado da arte em termos da capacidade diagnóstica de alguns problemas.


