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Reportagem sobre a USF Âncora

06/06/13

O momento é crítico, reconhecem os profissionais da USF Âncora. A crise económica que o país atravessa não pode deixar de ter impacto no setor da Saúde. Contudo, longe de desanimar, a primeira USF a surgir no Algarve continua a trabalhar com o mesmo entusiasmo de sempre. "Não podemos estagnar", afirma a coordenadora. Novos projetos de intervenção junto de grupos de risco e a acreditação da USF são os próximos passos da equipa.

 
Solidez, maturidade e coesão são os três grandes pilares que têm contribuído para o bom desempenho da equipa da USF Âncora, em Olhão, a primeira a avançar no Algarve e a evoluir para Modelo B. "No início, foi precisa muita coragem", reconhece a coordenadora, Irene Cardoso. "Já conhecíamos o Regime Remuneratório Experimental (RRE), mas também este teve muitas dificuldades para se afirmar. Apesar disso, quando surgiu a ideia das USF, decidimos avançar. Na altura, a responsável do Centro de Saúde de Olhão, Filomena Neto, estava um pouco cansada das tarefas inerentes à direção e considerou que este era um modelo atrativo para os profissionais. Mas não foi fácil constituir a equipa. Desejávamos integrar um sexto elemento na equipa médica, mas não o conseguimos porque existia muita desconfiança em relação à sustentabilidade do modelo. A equipa avançou, assim, com cinco médicos, cinco enfermeiros e cinco secretários clínicos."

Até 2011, a USF teve um horário alargado, das 8 às 22 horas, incluindo a abertura aos sábados, das 8 às 14 horas. No ano seguinte, esse alargamento de horário foi retirado. Contudo, a médica de família considera conveniente voltar ao sistema anterior, dadas "as vantagens que oferece às pessoas em idade ativa e em termos da solução de situações agudas e urgentes da generalidade dos utentes, evitando o recurso ao Hospital de Faro".

 

Nesse sentido, Irene Cardoso congratula-se com a possibilidade, avançada pelo secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, Leal da Costa, de aumentar o horário de funcionamento das USF e UCSP, embora isso possa implicar um esforço adicional e a reorganização da equipa. Esta é responsável por uma população de mais de 9500 utentes, o que significa existirem listas de 1900 utentes por médico, com elevadas taxas de utilização dos serviços.

 

"Em 2012, a taxa de cobertura global atingiu os 67%. Trata-se de uma população muito carenciada economicamente que recorre, maioritariamente, aos serviços da USF." Além disso, a USF possui uma carteira adicional de utentes do Centro de Saúde de Olhão que não têm médico de família atribuído. "Prestamos cuidados ao nível da Saúde Materna, do Planeamento Familiar e da Saúde Infantil. Muitos deles são imigrantes ou pessoas em trânsito." Contudo, este compromisso deverá chegar ao fim dentro em breve, à semelhança do que acontece com outras USF do ACES Central.

 

"Por razões económicas", avança a coordenadora, que lamenta a perda de mais esta valência da carteira adicional, "gostamos daquilo que fazemos, é uma população diferente daquela a que nós assistimos e vamos deixar de ter a possibilidade de prestar cuidados a muitos imigrantes".

 


 

Aplicação dos incentivos institucionais não chega aos 30%

 

Em 2012, a equipa atingiu a maioria das metas contratualizadas e desde 2011 que recebe quer incentivos financeiros, quer institucionais. O processo de aplicação destes últimos decorre, no entanto, "com alguma morosidade". Essencialmente, "têm sido direcionados para formação dos profissionais da USF, mas ainda não conseguimos concretizar muitos dos projetos. O ACES dá o aval positivo, mas a ARS tarda em responder". Até agora, "foram aplicados menos de 30% dos incentivos institucionais, o que resulta um pouco desmotivador para a equipa, cujos projetos incidem sobretudo na melhoria das instalações". Nomeadamente, intervenções de beneficiação da sala de arrumos e do equipamento da copa, renovação das fardas do secretariado clínico, transformação da atual sala de reuniões num consultório médico e aproveitamento de um espaço do centro de saúde, contíguo à USF, para uma sala de reuniões mais ampla do que a atual.

 

Apesar deste aspeto poder conduzir a alguma desmotivação da equipa, um risco apontado pela própria coordenadora numa recente reunião da USF, "fiquei satisfeita ao ouvir uma colega argumentar que, se estamos a trabalhar bem, é para continuar assim, independentemente das nossas condições não serem as melhores. De facto, a nossa maior motivação é a satisfação revelada pelos utentes relativamente ao nosso trabalho".

 

Autonomia organizacional permite melhorar a resposta no terreno

A autonomia organizacional é uma das vertentes mais interessantes das USF. A este nível, Irene Cardoso salienta a intersubstituição, a capacidade de organizar os horários dos profissionais de acordo com as necessidades da população abrangida, as reuniões clínicas quinzenais e as reuniões de trabalho mensais com toda a equipa.

 

"No início, como estávamos habituados a que as orientações viessem de cima, o processo deu um pouco de trabalho, mas pouco depois a equipa entrou em velocidade de cruzeiro. Estamos no terreno, conhecemos as necessidades da nossa população e respondemos em conformidade." Por exemplo, existe uma procura muito elevada ao nível da consulta do dia. "Não possuímos um sistema de triagem, de modo que procuramos educar o doente para que só nos procure em caso de doença aguda. Mas a população estava habituada a recorrer ao SAP (Serviço de Atendimento Permanente) e muitas pessoas mantêm o mesmo comportamento.

 

O secretariado clínico procura organizar os doentes e mesmo no que se refere à consulta do dia, é feita a marcação da hora, o que evita que o utente aguarde na sala de espera. Contudo, muitos continuam a preferir ficar quando, na realidade, com a consulta do dia marcada, o seu tempo de permanência na USF poderia oscilar entre meia hora e uma hora, dependendo de cada situação específica".

 

O trabalho domiciliário é outra vertente importante do trabalho desenvolvido pela equipa da USF. Cada médico
realiza uma média de 10 domicílios por mês, mas, na área da enfermagem, esse número é mais elevado. "Respondemos a todos os pedidos de domicílios, quer por doença crónica, quer por doença aguda."

 

A população abrangida pela USF é muito envelhecida. "Transitoriamente, alguns idosos poderão precisar de apoio domiciliário e. para nós, é uma grande satisfação verificar como alguns, progressivamente, recuperam a autonomia".

 

 

Ligação por telemedicina ao Hospital de Faro

 

O Centro de Saúde de Olhão está equipado com telemedicina. O equipamento é utilizado pelas várias unidades localizadas no edifício do centro de saúde, na valência de Dermatologia, em ligação ao Hospital de Faro.

 

"Estamos a oito quilómetros do hospital, mas, em virtude da escassez de recursos humanos desta especialidade, o colega do hospital consegue resolver muitos casos à distância", explica a coordenadora. "Alguns utentes não necessitam sequer de deslocar-se ao hospital. Quando isso acontece, as consultas são marcadas muito rapidamente, o que constitui uma vantagem em caso de suspeita de malignidade".

 

Por facilitação de uma companhia farmacêutica, a USF conta ainda com uma consultadoria periódica do Núcleo de Diabetes do Hospital de Faro.

 

"Não possuímos estatísticas, mas temos a perceção de que os nossos utentes não recorrem muito aos cuidados de saúde secundários. Normalmente, quando têm uma consulta no hospital comunicam-nos e trazem-nos uma carta do colega. São mais os casos que nós referenciamos, por motivo de urgência e de necessidade de cuidados hospitalares, do que aqueles que vão por iniciativa própria. Também, de acordo com os nossos internos, que realizam trabalho no Hospital de Faro, são raros os utentes da USF que recorrem às urgências. Sobretudo agora, que as taxas moderadoras são muito elevadas no hospital, fazemos um esforço suplementar para atender o máximo de doentes possível, mesmo aqueles que chegam pouco antes das oito da noite. Ficamos até mais tarde, mas vamos para casa satisfeitos porque evitamos que o doente se tenha que deslocar ao Hospital de Faro ou esteja toda a noite em sofrimento. Como eu costumo dizer, uma infeção urinária ou uma amigdalite não é uma emergência, mas dói! Obviar o sofrimento dos nossos utentes representa uma grande satisfação para todos nós."

 

 

Acreditação da USF será o passo seguinte

 

Em termos de projetos futuros, além da melhoria das instalações, através da aplicação integral dos incentivos institucionais, Irene Cardoso salienta: "Gostaríamos de trabalhar mais para a comunidade, com projetos de ensino a grupos específicos, como aquele que desenvolvemos, atualmente, em relação aos doentes diabéticos." E, simultaneamente, avançar com o projeto de candidatura à acreditação da USF junto da Direção-Geral da Saúde. "Não podemos estagnar. A acreditação representa muito esforço da equipa, mas também uma evolução, e vamos trabalhar para a conseguir."

 

 

 

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