O objectivo da gestão em saúde é criar as condições para, sem perda de eficiência, majorar a flexibilidade e a capacidade de adaptação aos processos contínuos de mudança. As pretensões dos médicos cada vez mais inconformados (o bom), as medidas reguladoras pontualmente contraditórias do gestor (o mau) e a rápida evolução científica, tecnológica e da inovação (o vilão), constituem, por si só, um enorme desafio (ou fardo pesado) para qualquer responsável pela administração dos serviços de saúde. Acresce a expectativa dos utentes (o alvo), cada vez mais informados, e a crescente exigência das populações em termo de qualidade e de celeridade de resposta aos seus anseios e necessidades.
De facto, a implementação e desenvolvimento de um serviço de saúde, bem como o desenho do seu perfil assistencial, devem estar subordinados às necessidade e expectativas dos utentes. O doente é o propósito principal e todo o trabalho terá de estar necessariamente subordinado aos seus interesses e necessidades, de forma a encontrar as melhores soluções para a prestação de cuidados de saúde (patient-centered medicine). A relação médico-doente, que lida com valores únicos, como a vida, a morte, a saúde, o sofrimento e o bem-estar, deverá estar sempre presente no âmbito da sua missão, nos recursos que mobiliza, nos processos que dinamiza, na produção e nos resultados obtidos (patient-centered management).
Entre os desafios mais importantes da gestão em saúde, encontra-se a capacidade de promover ações que garantam, simultaneamente: aos cidadãos o acesso em termo útil aos cuidados de que necessitam (equidade); aos serviços de saúde os recursos de que necessitam para prestar esses cuidados (efectividade); e ao sistema de saúde a resposta às necessidades dos cidadãos e dos serviços utilizando apenas os recursos adequados para tal (eficiência). No fundo, alcançar resultados adequados para os recursos despendidos e obter o custo mínimo para o nível de volume e qualidade assistencial que sejam definidos (value for money).
Na verdade, os sistemas de saúde ostentam preocupações crescentes que se prendem, não só com a iniquidade no acesso e garantia de satisfação das necessidades em saúde, mas também com a dificuldade em conter o crescimento da despesa, em virtude do envelhecimento da população, do desenvolvimento de novas tecnologias, de aumento na oferta de cuidados e do crescimento acentuado das expectativas e exigências dos cidadãos. O actual modelo de organização dos sistemas de saúde, centrado na oferta, está esgotado. Importa, pois, introduzir a mudança de paradigma, que passa por pensar o sistema na perspectiva da procura, privilegiando os resultados e a retribuição por objectivos com base em indicadores fiáveis de controlo da atividade, não só em termos de quantidade, mas essencialmente de qualidade.
Por outro lado, a inovação e o desenvolvimento devem ser encorajados e estimulados, o que se traduzirá em contexturas menos hierárquicas e na descentralização da tomada de decisão. É necessário privilegiar uma relação aberta e concreta, uma partilha de valores e um consentimento para correr alguns riscos. Contudo, a tecnologia deve ser gerida de modo benificiário e com análise custo-benefício, uma vez que esta acaba por ser matéria de conveniência de múltiplos grupos com informação suficiente para influenciarem o desenvolvimento da tecnologia, a sua aquisição, o seu uso e pagamento. É necessário perceber os motivos que levam ao êxito de certas tecnologias e à renúncia de outras, de forma a evitar investir em determinadas tecnologias que conseguem trazer apenas benefícios limitados à generalidade da população em detrimento de outras que conseguirão ser mais simples, mas trarão mais capacidade e qualidade em global (relação valor/custo).
Porém, não há inovação sem liderança! Com a pressão que se exerce nas organizações de saúde para que sejam alcançados os objetivos, não só económicos, mas também sociais, exige-se lideranças e líderes astutos, que saibam instituir empatia com os seus colaboradores, mas, e acima de tudo, que saibam compreender os sinais que a parte externa projeta, que interajam com ela e que sejam flexíveis o suficiente de modo a responder em tempo oportuno.


