News Farma (NF) | Pela primeira vez, Portugal irá receber a 7.ª edição do International Symposium on Hepatitis Care in Substance Users, que decorrerá em setembro (19 a 21 desse mês). Há alguma razão especial para que a organização tenha decidido realizar a edição de 2018 deste evento em Portugal?
Prof. Doutor Jason Grebely (JG) | Portugal tem sido um líder internacional no acesso universal a fármacos para o tratamento da hepatite C, tendo implementado, desde há alguns anos, várias políticas de saúde, designadamente ao nível da descriminalização do consumo de drogas. Particularmente no que diz respeito às políticas de saúde relacionadas com a hepatite C e com o acesso a novas terapêuticas para o vírus da hepatite C (VHC), Portugal destacou-se por ser um dos primeiros países a negociar os preços com a Indústria Farmacêutica, algo que permitiu um acesso generalizado dos doentes aos tratamentos antivíricos mais recentes.
NF | Quais os principais tópicos de discussão desta reunião que junta mais de 500 participantes oriundos de todo o mundo?
JG | Digamos que, no geral, a agenda destes três dias de reunião científica será bastante preenchida. O programa do primeiro dia será quase exclusivamente dedicado a medidas de saúde pública e a dados epidemiológicos da hepatite C. Com estas sessões procuramos integrar as políticas públicas relacionadas com o consumo de drogas e os programas de combate à hepatite C, dirigidos particularmente a utilizadores de drogas injetáveis. Durante o segundo dia serão focadas as novas estratégias de prevenção e de rastreio do vírus da hepatite C (VHC). O nosso objetivo é diagnosticar precocemente e garantir que aqueles que estão infetados pelo VHC tenham um acesso imediato aos cuidados de saúde. No último dia, haverá uma discussão em torno dos novos agentes antivíricos que surgiram recentemente para o tratamento do VHC. Estas novas opções são mais cómodas (implicam a toma de um comprimido diariamente), com um perfil de tolerância e segurança muito mais favoráveis. E, acima de tudo, estas alterativas de tratamento são capazes de alcançar taxas de cura superiores a 90% na maioria das populações. Este é, sem dúvida, um dos avanços mais notáveis da última década. Não obstante, temos de encontrar soluções que nos permitam aumentar o acesso global a estas novas estratégias de tratamento. Esta reunião científica contará com a presença de diversos stakeholders nesta área.
NF | Qual a epidemiologia da hepatite C em utilizadores de droga?
JG | A hepatite C é um problema de saúde pública, particularmente entre a população de utilizadores de drogas injetáveis. Globalmente, estima-se que existam 71 milhões de pessoas, em todo o mundo, que vivam com hepatite C. A prevalência da hepatite C em pessoas que utilizam drogas injetáveis é superior a 50%. Se analisarmos rigorosamente o últimos dados, verificamos que existem 5,1 milhões de utilizadores recentes de droga que, no último ano, se infetaram com o VHC. De modo geral, os utilizadores de drogas injetáveis correspondem a uma proporção significativa de doentes. Tendo em conta estes números, estamos à procura de soluções que nos permitam cumprir as metas da Organização Mundial de Saúde (OMS), que prevê eliminar o VHC até 2030.
NF | Quais as estratégias que estão a ser implementadas para reduzir a prevalência de hepatite C em utilizadores de drogas injetáveis?
JG | A nossa preocupação é prevenir e diagnosticar precocemente, garantindo que as pessoas infetadas pelo VHC acedam aos cuidados de saúde e tenham uma resposta adequada. Esta resposta passa pelo acesso a novas terapêuticas disponíveis para o tratamento da hepatite C, nomeadamente os antivirais de ação direta (direct acting antiviral - DAA). Além do acesso ao tratamento – algo que em parte está a ser ultrapassado – temos de aumentar o número de diagnósticos de hepatite C entre a população consumidora de droga. Uma grande maioria dos utilizadores de drogas injetáveis desconhece que está infetada pelo VHC, e, por isso, necessitamos de mais ferramentas de rastreio/screening. Só assim conseguimos estabelecer o contacto entre esta população de doentes e os serviços de saúde. Por outro lado, temos de considerar a criação de novos modelos de prestação de cuidados de saúde. A generalidade dos casos de pessoas que utilizam drogas injetáveis encontra-se na comunidade. Portanto, precisamos de expandir os nossos modelos de prestação de cuidados, em vez de centralizarmos todos os cuidados a nível hospitalar. Ou seja, poderíamos inaugurar novos modelos de prestação de cuidados, que poderiam passar pela criação de clínicas dirigidas apenas ao tratamento do VHC. Adicionalmente, temos de estar focados no apoio a populações de risco, nomeadamente os reclusos e os sem-abrigo. Se pensarmos particularmente na população de utilizadores de drogas injetáveis, os estabelecimentos prisionais são locais onde podemos ser bem-sucedidos com a implementação de programas de rastreio para o VHC, providenciando, após o diagnóstico, um acesso generalizado ao tratamento. Estes são pontos críticos da nossa intervenção. Adicionalmente, temos de procurar combater o estigma e a discriminação, que é uma das principais barreiras ao acesso ao tratamento da hepatite C e aos cuidados de saúde de qualidade.
NF | Considera que ainda há algumas desigualdades em termos de acesso ao tratamento a nível global?
JG | Sem dúvida. Há uma considerável heterogeneidade relativamente ao acesso a terapêuticas dirigidas ao VHC, em termos globais. Uma das principais barreiras está relacionada com as restrições associadas ao reembolso destas estratégias de tratamento. Resido há cerca de uma década na Austrália, um líder mundial no acesso generalizado ao novos DAA e aos cuidados de saúde de qualidade para doentes com hepatite C. Na Austrália, qualquer especialista de Medicina Geral e Familiar poderá prescrever fármacos antivirais. Portugal está também a realizar um excelente trabalho em termos de acesso generalizado a terapêuticas para todos os grupos de doentes com hepatite C. O grande problema é que a prescrição de fármacos DAA continua a ser feita apenas por especialistas que exercem atividade no meio hospitalar (cuidados secundários). Há outros países na Europa com restrições semelhantes. Quanto ao preço, que em alguns casos era um obstáculo ao acesso generalizado, alguns países na Europa começam a remover as restrições associadas ao custo (anteriormente elevado) destes novos fármacos.
NF | Na sua perspetiva, a reinfeção é um problema que poderá comprometer os esforços para eliminar o VHC e, deste modo, cumprir as metas da OMS até 2030?
JG | Há uma grande preocupação em torno da reinfeção pelo VHC, sobretudo no grupo de utilizadores ativos de drogas injetáveis. Na verdade, precisamos de ter consciência de que há um potencial risco de reinfeção. Aliás, a taxa de reinfeção por VHC é semelhante à taxa de infeção primária. Se queremos reduzir a taxa de reinfeção, devemos escalar a terapêutica rapidamente, promovendo um acesso generalizado. A partir do momento em que aumentamos o acesso à terapêutica na comunidade, reduzimos a taxa de infeção na população e, por conseguinte, o número de reinfeções. Neste momento, a taxa de reinfeção é de cerca de 2-5% por ano. Por outro lado, há que otimizar os programas de substituição opiácea e aumentar a cobertura do programa de troca de seringas, para prevenir um aumento da taxa de reinfeção.
NF | Quais os modelos de prevenção e tratamento do VHC que efetivamente tiveram sucesso entre a população de utilizadores de drogas injetáveis (PWID)?
JG |Existem, de facto, duas formas eficazes de prevenção da infeção por VHC, concretamente o programa de substituição opiácea e a mais elevada cobertura do programa de troca de seringas. Estas duas intervenções combinadas terão um impacto mais significativo. Para cumprirmos os alvos fixados pela OMS, para eliminação da hepatite C, precisamos de implementar estas duas abordagens. Temos de investir sobretudo na prevenção de novas infeções provocadas pelo VHC. Há dados que demonstraram que a terapêutica da hepatite C com os novos DAA, em combinação com os programas de substituição ou de troca de seringas, é capaz de reduzir o número de novas infeções e a prevalência do VHC.
NF | Qual o impacto da criação de salas de consumo assistido na prevenção do VHC?
JG |As salas de consumo assistido de droga são ferramentas importantes na estratégia de prevenção do VHC, não só porque permitem um acesso mais facilitado a seringas ou a material injetável esterilizado, como também previne a ocorrência de overdoses relacionadas com consumo de estupefacientes. Em Lisboa, está prevista a abertura de salas de consumo assistido em breve. Estes locais permitem que se crie um contacto entre os consumidores de drogas injetáveis e os cuidados de saúde. Nem sempre os utilizadores de drogas injetáveis conseguem ter um acesso facilitado e direto aos serviços de saúde, devido ao estigma associado ao consumo de estupefacientes. Logo, estes locais podem contribuir para motivar os consumidores de drogas a integrarem programas de rastreio do VHC (ou outras doenças infecciosa) e a aderirem a um tratamento adequado. É, por isso, uma forma de aproximar os utilizadores de droga e os serviços de saúde.


