News Farma (NF) | Entre os dias 13 e 16 de outubro, Lisboa recebe o XX Congresso Nacional da APNEP. “Cuidados Nutricionais para Todos” é o mote subjacente a esta edição do Congresso. Quais as razões para a escolha deste tema?
Dr. Aníbal Marinho (AM) | A promoção de adequados cuidados nutricionais para toda a população tem de passar a ser uma prioridade para todos os governos dos países europeus. Não podemos continuar a ignorar uma realidade que está mais do que estudada, ou seja, que cerca de 40% dos doentes na data de admissão hospitalar se encontram desnutridos ou em risco nutricional e que cerca de 40 a 80% dos idosos residentes em lares de terceira idade se encontram desnutridos ou em risco nutricional.
Existe desde há mais de uma década uma preocupação crescente com o excesso de peso/obesidade, nomeadamente nos países desenvolvidos, com um apoio financeiro significativo dos governos para o controlo desta realidade, mas não se observa o mesmo empenho relativamente ao combate à desnutrição.
Tal como a obesidade, a desnutrição não é um problema de saúde isolado, mas sim uma realidade que compromete a qualidade de vida das pessoas e que tem um impacto significativo no prognóstico dos doentes, nomeadamente dos doentes neoplásicos, que consomem vastos recursos financeiros, em que se investe com terapêuticas de última geração e que por vezes acabam por não ter o benefício desejado por se encontrarem desnutridos, o que vai comprometer de uma forma decisiva a morbilidade e a sua mortalidade. Seria incompreensível em pleno século XXI, que em Portugal houvesse doentes que, tendo sido recuperados para a vida, graças aos extraordinários avanços da ciência médica e da tecnologia, viessem a morrer por carência nutricional.
Por outro lado, a população mundial está a envelhecer e em Portugal a realidade não é diferente. Portugal é o quarto país da União Europeia com maior percentagem de idosos. Se esta realidade significa que os portugueses vivem cada vez mais tempo (o que poderá não ser totalmente verdade se tivermos em conta a imigração), por outro lado verificamos que este aumento da esperança de vida não é acompanhado por um aumento da qualidade de vida da nossa população idosa.
Portugal surge em sétimo lugar entre os países com maior percentagem de pessoas idosas que vivem sozinhas e abaixo do limiar de pobreza. Esta realidade traduz-se numa população muito fragilizada, muito carenciada do ponto de vista nutricional, muitas delas institucionalizadas em lares de terceira idade, que sobrevivem muitas vezes em condições que envergonham a dignidade de um ser humano. Não é admissível que 40 a 80% dos nossos idosos institucionalizados se encontrem desnutridos ou em risco nutricional. É importante que lhes sejam dadas condições que lhes permitam preservar a sua autonomia e a sua independência. Para que isso ocorra, será fundamental que se forneça um adequado suporte nutricional a toda a população.
NF | O que foi considerado na elaboração do programa científico do Congresso?
AM | Procurou-se fornecer um vasto leque de palestras que abrangem diferentes áreas relativas ao suporte nutricional: a nutrição no idoso e na criança, na promoção da saúde, na alimentação saudável e, em especial, no doente cirúrgico, oncológico, com diabetes, obesidade, no doente crítico; a ausência de um suporte nutricional adequado; a necessidade da implementação de um rastreio obrigatório do risco nutricional da nossa população. Todas estas matérias vão ser abordadas no XX Congresso Anual da APNEP.
É importante que todos os congressistas sintam a “angústia” saudável de não poderem assistir a todos os temas que lhes interessam e que, portanto, a oferta exceda em muito as necessidades de cada um. Por isso, a APNEP realiza um dos maiores congressos anuais a nível europeu na área da nutrição.
Para que tal seja possível, dispomos de seis salas em que decorrem palestras em simultâneo durante todo o dia. Dispomos também de variados cursos pré-congresso, certificados pela sociedade europeia.No último dia, vamos realizar um simpósio para promover o Dia Mundial da Alimentação, no sentido de alertar para a necessidade de um investimento equitativo no combate à obesidade e à desnutrição. A efeméride convida os governos a implementarem múltiplas medidas, nomeadamente programas de proteção social para os mais vulneráveis, para aqueles que têm mais dificuldades. A nutrição entérica e parentérica em Portugal, por incrível que pareça, necessita de uma forma emergente de agarrar este desafio.
NF | Qual o público-alvo do Congresso?
AM | Todos os profissionais de saúde deveriam ter formação pré-graduada sobre nutrição/alimentação. Não têm, não sabem, mas não se inibem de emitir opiniões e conselhos, muitos vezes baseados em ditados populares ou em leitura de revistas “cor de rosa” sem qualquer base científica.
Todos esses profissionais de saúde deveriam participar ativamente neste congresso, que aborda temas transversais a todas as especialidades médicas, de enfermagem, nutricionistas, farmacêuticos, etc. Aliás, a APNEP é uma Associação que, de uma forma transversal, abarca todos os profissionais de saúde sem distinção.
NF | A APNEP está ainda a organizar a 1.ª Conferencia ONCA em Portugal (Sintra), nos dias 12 e 13 de novembro. O que significa receber este evento internacional e de que forma o XX Congresso da APNEP se vai cruzar com esta conferência?
AM | A Conferência Internacional “Uma nutrição adequada para todos” (ONCA) procura sensibilizar os governantes dos países europeus para a importância de que um adequado suporte nutricional pode fornecer à sua população.
A ONCA congrega atualmente 18 países europeus, unidos pelo mesmo objetivo (um suporte nutricional adequado para todos), se bem que a realidade nos diferentes países seja muito desigual. Na nossa vizinha Espanha, por exemplo, o suporte nutricional no doente não hospitalizado é comparticipado há mais de duas décadas, o que ainda não se verifica em Portugal. Em muitos países do norte da Europa, o Ministro da Saúde consegue ter um retrato fidedigno do estado nutricional da sua população. Em Portugal vivemos apenas de estimativas e da extrapolação dos resultados obtidos nesses países.
A APNEP foi admitida na ONCA em dezembro de 2017 e desde essa altura tem-se desmultiplicado em iniciativas para sensibilizar os diferentes interlocutores, mas principalmente o governo português, para a nossa realidade. Estamos ainda muito longe do nível médio europeu. Mas temos feito um esforço significativo para melhorar esta realidade e, por isso, foi-nos concedida a honra de podermos realizar esta Conferência, a mais importante iniciativa anual da ONCA, em Sintra no próximo mês de novembro. Seria um marco importante se nessa data, a exemplo do que sucede nos países desenvolvidos em que a nutrição clínica é comparticipada, Portugal terminasse com a “fome zero” dos nossos doentes que necessitam de uma nutrição clínica no ambulatório comparticipada.
NF | No dia 15 de outubro, irão ter lugar durante o congresso as eleições para os órgãos sociais da APNEP para o triénio 2019 - 2021. Que balanço faz do tempo que esteve à frente da APNEP?
AM | Procuramos de uma forma inovadora (evitando centros de congressos/hotéis e promovendo os cursos/congressos/simpósios científicos em espaços localizados em centros comerciais), levar a cabo as nossas atividades, em locais de baixo custo, mas sem prejuízo da qualidade que uma das maiores Associações de Nutrição a nível europeu assim o exige.
Ao longo do nosso mandato, a APNEP tem procurado manter a quota de associado em valores simbólicos, o mesmo acontecendo com as inscrições para os sucessivos congressos e simpósios que vem realizando.
Os sócios para nós estiveram sempre em primeiro, evitando mordomias desnecessárias e reduzindo ao máximo os custos, o que nos permitiu, por exemplo, na altura da crise económica, implementar uma medida de apenas ser necessário o pagamento durante três anos de uma quota da APNEP para se poderem manter como sócios efetivos.
Durante o nosso mandato, a APNEP transformou-se numa das maiores Associações europeias de nutrição clínica e realiza anualmente um dos maiores congressos nesta área a nível europeu.
Nos últimos dois anos obtiveram-se importantes conquistas na área da nutrição clínica em Portugal: conseguimos a admissão na ONCA; conseguimos que a Conferência da ONCA nos fosse atribuída um ano após termos sido admitidos oficialmente na entidade; i apoiámos este ano a nova direção da ESPEN; após várias reuniões na Assembleia da República conseguimos que o Bloco de Esquerda aprovasse um projeto de resolução a recomendar ao governo a implementação de uma comparticipação da nutrição clínica ambulatório/domiciliária; após reuniões com o Ministro da Saúde, com a DGS, a Secretaria de Estado da Saúde e múltiplas reuniões na Assembleia da República, conseguimos que o Secretário de Estado da Saúde criasse um grupo para elaborar uma Norma sobre a Nutrição Clínica Domiciliária, com representantes da APNEP e das Ordens da Saúde; conseguimos o apoio das associações de doentes para esta iniciativa.
Temos a consciência que quem nos substituir receberá uma APNEP reforçada e prestigiada, quer a nível nacional, quer ao nível internacional.
NF | Que expectativas e objetivos estão traçados para este Congresso, que assinala a sua 20.ª edição?
AM | Procuramos manter a qualidade formativa de um evento de referência na área da nutrição clínica em Portugal, mesmo tendo em conta a necessidade de reduzir a dimensão do evento, para podermos comportar os custos associados à realização da Conferência Internacional da ONCA em novembro. Para a vitalidade de uma Associação é sempre importante preservar a sua autonomia financeira, pelo que o rigor financeiro foi sempre uma batalha em que a direção da APNEP procurou preservar.


