Curso internacional de Imagiologia Desportiva – “The Fever of Sports”: o balanço final

Dr. Alberto Vieira
22/10/18
Curso internacional de Imagiologia Desportiva – “The Fever of Sports”: o balanço final

O curso de Imagiologia Desportiva The Fever of Sports veio pela primeira vez a Portugal, nos dias 24 e 25 de setembro. O Dr. Alberto Vieira e o Dr. Franz Kainberger fazem, em exclusivo para a News Farma, um balanço do evento e revelam a importância da Sociedade Europeia de Radiologia Musculosquelética (ESSR) para a Medicina Desportiva.

News Farma (NF) | O que motivou a criação deste primeiro curso internacional em imagiologia desportiva em Portugal?

Dr. Alberto Vieira (AV) | Foi exatamente o crescente interesse que os clínicos, e mesmo o público em geral, têm mostrado pelo desporto. Obviamente, com o aumento da prática desportiva também o número de lesões aumenta, sendo crucial a comunicação entre o radiologista e aquele que trata a lesão. A imagiologia desportiva tem um papel preponderante neste capítulo.

 

NF | Qual a importância de uma organização como a Sociedade Europeia de Radiologia Musculosquelética (ESSR), da qual é atual presidente eleito, para a medicina desportiva no nosso país?

AV | É muito importante, porque embora felizmente tenhamos uma Medicina considerada ao nível dos padrões europeus, obviamente que o apoio de uma sociedade europeia, que lida com todas as sociedades a nível mundial, nos traz mais saber e nos prestigia muito no nosso trabalho.

 

NF | Tratando-se de um curso especialmente dirigido a radiologistas, ortopedistas e especialistas em medicina física e de reabilitação, como reagiram estes profissionais em termos de adesão ao evento?

AV | Reagiram extremamente bem, tanto assim é, que o curso ficou completamente esgotado cerca de um mês antes da sua realização. Tivemos uma longa lista de espera, e, precisamente hoje, o presidente da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (SPRMN), Dr. Filipe Caseiro Alves, desafiou-me para realizarmos mais um curso a nível nacional, também de patologia desportiva, dado o crescente interesse na área, não só por parte da comunidade médica, mas também radiológica.

 

NF | Para além do extenso painel de oradores, houve muita participação internacional?

AV | Sim. Temos entre nós especialistas de 11 países e participantes de 20 países, demonstrando uma aceitação internacional muito grande, o que nos gratifica muito e motiva a realizar mais eventos como este.

 

NF | Quais as principais novidades e desafios em destaque nesta primeira edição do curso?
AV | O primeiro desafio foi precisamente a novidade. Não sabíamos qual seria o nível aceitação por parte deste público especializado. Mas como o comprova a sala completamente esgotada, havia claramente espaço para um evento assim.

 

NF | O que podemos esperar para a edição de 2019 em Lisboa?

AV | Em 2019 teremos o congresso europeu da ESSR. Será um evento muito importante, que há muitos anos procuro trazer para o nosso país, coincidindo com o ano em que serei presidente pleno da sociedade, e, portanto, extremamente gratificante. As expectativas apontam para 1000-1200 participantes, a grande maioria proveniente de outros países. A ESSR tem uma implantação enorme e também crescente em Portugal, trazendo participantes de todo o mundo, como os USA, Austrália, Brasil. As expectativas para o congresso de 2019 são naturalmente superiores às deste curso, porque não se trata apenas do subcomité de imagiologia desportiva, mas sim da radiologia musculosquelética em geral, em que obviamente os capítulos da imagiologia desportiva também serão tratados.

 

NF | Para finalizar, como responsável da organização do evento, o que gostaria de salientar?

AV | Gostava de salientar o convívio e a amizade, para além da componente científica que o congresso seguramente tem, mas também acho muito interessante este envolvimento com os atletas – é por causa deles que a imagiologia desportiva existe. Por outro lado, quero realçar também a componente prática que quisemos introduzir neste curso, o qual teve já inúmeras edições a nível europeu, mas nunca incluiu uma vertente prática, colocando os participantes também a correr, juntamente com a associação que vamos ajudar. Podermos ser úteis a quem precisa é deveras muito recompensador.

 

NF | Como membro da Sociedade Europeia de Radiologia Musculosquelética (ESSR), qual é o papel desta organização na medicina desportiva?

Dr. Franz Kainberger (FK) | A medicina desportiva teve desde sempre um lugar preponderante no seio desta associação, que celebra já 25 anos de existência. De facto, um dos primeiros subcomités desta associação foi formado por profissionais interessados em medicina desportiva, que tinham o grande desejo de uniformizar a metodologia de aquisição imagiológica e de detetar sintomas e sinais radiológicos peculiares, para diagnóstico e quantificação de lesões associadas ao desporto.

 

NF| Ao dia de hoje, quais são as inovações mais promissoras e os principais desafios nesta área da medicina?

FK | Existem dois avanços importantes a destacar. O primeiro é o ultrassom, que tem a capacidade de expor as anomalias com elevada resolução. Atualmente temos equipamentos com uma frequência de 22 MHz, o que para o mundo da radiologia é incrível. Aliando a precisão imagiológica às avançadas tecnologias de processamento de imagem, hoje é possível visualizar detalhes em estruturas tão finas como os tendões ou os nervos, e descriminar alterações extremamente subtis que estão na origem da dor. O segundo grande avanço é a ressonância magnética, também em constante evolução no mercado. A complementaridade destes dois métodos de diagnóstico é evidente na procura do melhor diagnóstico e tratamento possível para o doente.

 

NF | Que mensagens gostaria de transmitir para a audiência hoje?

FK | A mensagem a transmitir é a da importância da colaboração interdisciplinar e da comunicação. O aumento do conhecimento neste ramo da medicina é tão exponencial, que os clínicos sentem inevitavelmente a necessidade de mais e mais especializações. Reuniões como esta permitem um rápido disseminar do conhecimento e da prática clínica, originando sinergias inteligentes entre diferentes especialidades e formas de conhecimento.

 

NF |  O que achou do painel de oradores selecionado para esta primeira edição do curso em Portugal? E sobre a organização do evento em geral?

FK | O evento teve uma organização exemplar, sendo importante enfatizar que foram capazes de concretizar uma vontade que a ESSR tinha há já cerca de 20 anos, que era a de juntar numa mesma sala radiologistas, cirurgiões ortopédicos, traumatologistas, entre outros especialistas em medicina desportiva, e atletas. Uma outra novidade e peculiaridade que eu descobri, e que julgo muito importante numa perspetiva de futuras colaborações, foi a inclusão da medicina de reabilitação física e da reumatologia. De facto, no caso da medicina desportiva, o foco é essencialmente o atleta. Mas e então as pessoas mais velhas? Na prática clínica aconselhámos vivamente a movimentação constante e a prática do desporto. Todavia, não informamos quanto ao melhor modo de o fazer. Este é um ponto crucial que foi trazido para discussão nesta reunião.

 

NF | No decorrer do primeiro dia do curso fará duas intervenções em painéis distintos. Sobre o que irá falar?

FK | Um dos tópicos será a coluna em desenvolvimento. Este é um tema que não desperta o maior interesse neste ramo específico da medicina, mas é importante destacar que as crianças e os adolescentes também podem ter problemas na coluna, como a dor, sendo que esta se manifesta de um modo totalmente diferente da dor nas costas de um atleta adulto. É um assunto que necessita de mais estudos para identificação das possíveis causas associadas a esta potologia. O outro tópico que venho expor são as alterações que temos vindo a assistir ao nível da epidemiologia. Um exemplo: quando iniciei a prática clínica, o tendão de Aquiles foi o meu primeiro foco de interesse. No decorrer dos nossos estudos foi possível aferir que o doente típico com problemas no tendão de Aquiles era um jovem com 22 anos, geralmente praticante de ténis ou corrida. Hoje esta já não é mais a realidade dos fatos. Há algum tempo atrás tive um paciente de 78 anos com rutura no tendão de Aquiles, devido à prática de montanhismo. Se observarmos as maratonas, que têm regularmente lugar nas várias cidades europeias, podemos reparar que a média de idades dos participantes sofreu claramente um incremento substancial.

 

NF | Finalmente, gostaria de ressalvar alguma outra questão relativamente a este evento?

FK | Um ponto que gostaria de destacar foi a excelente seleção dos tópicos de discussão. O foco desta reunião não se prendeu unicamente com temas comuns como o joelho, a pélvis, o ombro, entre outros. Houve o especial cuidado de escolher temas controversos em investigação e de elevado interesse clínico, que obrigaram a um esforço elevado de preparação internacional por parte dos oradores. 

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