O termo anestesia foi já utilizado por Dioscórides (40-90 d.C), médico grego dos exércitos de Tibério e Nero, que descreveu as propriedades medicinais de inúmeras plantas. A primeira anestesia geral terá sido administrada em 1846, nos Estados Unidos da América. O reconhecimento como especialidade médica é recente. Foi nos anos cinquenta que surgiram os primeiros serviços organizados em diversos hospitais portugueses, acompanhando os desenvolvimentos que se verificavam na Europa e América.
Como especialidade médica, a Anestesiologia estrutura-se a partir do conhecimento e da capacidade de diminuir a dor e garantir a homeostasia do doente, tornando possíveis procedimentos invasivos de cura ou alívio, complexos e agressivos. Os vastos conhecimentos e experiência acumulados nesta área tornou a especialidade imprescindível noutras áreas, muitas vezes integrada em equipas multidisciplinares. As áreas de intervenção da Anestesiologia moderna são a Medicina Peri-Operatória, a Medicina da Dor, a Medicina Intensiva e a Medicina de Emergência.
A Medicina Peri-Operatória é a área central de atuação do Anestesiologista. Abrange todos os doentes submetidos a atos anestésicos e compreende a avaliação e otimização pré-anestésica, o ato anestésico propriamente dito e os cuidados pós-anestésicos. A avaliação pré-anestésica, realizada normalmente no âmbito de uma consulta externa, destina-se a obter informação sobre o historial clínico do doente (patologia associada, medicação habitual, estado clínico, antecedentes anestésicos), a realizar o exame físico, que deve incluir avaliação da via aérea, cardiovascular e pulmonar, e a consultar os exames auxiliares de diagnóstico indicados.
É também o momento de tomar as medidas adequadas à otimização do estado clínico do doente – revisão ou introdução de medicação, pedidos de observação por outras especialidades, pedidos de exames auxiliares de diagnóstico. A informação recolhida permite elaborar o plano anestésico do doente, que deve abranger o ato anestésico (tipo de anestesia, monitorização necessária, necessidades especiais) e o período pós-anestésico (analgesia, necessidade de vaga em unidades de cuidados intensivos/intermédios, outras necessidades). Este plano deve ser discutido com o doente e esclarecidas todas as questões por ele levantadas, com particular incidência sobre técnicas e riscos associados ao ato. Deve ser solicitado e obtido consentimento informado escrito para os atos propostos.
O ato anestésico pode ser motivado por uma intervenção cirúrgica ou pela realização de procedimentos de diagnóstico ou terapêutica invasivos. Pode ter lugar em ambiente de bloco operatório ou em qualquer outro local que reúna condições para tal (salas de Gastrenterologia, Pneumologia, Neurorradiologia, Cardiologia e Radiologia, etc.). É constituído por três momentos: a indução, a manutenção e a emergência da anestesia. O primeiro momento é da perda de sensações. No segundo momento, que se prolonga por todo o procedimento, o anestesiologista mantém a perda de sensações do doente e compensa todos os desequilíbrios fisiológicos resultantes da intervenção cirúrgica. No final do procedimento, reverte-se a perda de sensação.
A unidade de cuidados pós-anestésicos é o local para onde devem ser transferidos os doentes após um ato anestésico. Liderada por anestesiologistas, destina-se à vigilância e monitorização, despistando precocemente complicações anestésicas e cirúrgicas e zelando pela homeostasia dos doentes. O tempo de permanência nesta unidade depende dos procedimentos e da patologia associada do doente.
A Medicina da Dor engloba duas áreas que, embora independentes, têm múltiplos pontos de contacto – a dor aguda e a dor crónica. A abordagem destas áreas deve ser multidisciplinar, envolvendo várias especialidades médicas e outros profissionais de saúde. Os conhecimentos e experiência decorrentes da Medicina Peri-Operatória tornam os anestesiologistas nos médicos melhor preparados para coordenar estas áreas.
A dor aguda é uma dor de início recente e de provável duração limitada. Tem, normalmente, uma relação causal e temporal identificável com agressão ou doença. A dor aguda pós-operatória é a que concentra maior atenção. Para além da humanização e conforto do doente, o eficaz tratamento da dor aguda constitui um fator crucial para uma mais rápida recuperação funcional e uma alta mais precoce, permitindo substanciais ganhos em saúde. O grande número de técnicas e fármacos disponíveis tornou imperiosa a existência de unidades de dor aguda, lideradas pela Anestesiologia, que coordenem a atuação analgésica e a ação dos vários grupos profissionais envolvidos – anestesistas, cirurgiões, enfermeiros, farmacêuticos, administradores, etc. – e que lhes assegure formação e informação adequadas. A analgesia do trabalho de parto é uma secção da dor aguda em que a Anestesiologia desempenha um papel chave.
A dor crónica é definida como uma dor persistente ou recorrente, de duração igual ou superior a três meses e/ou que persiste para além da cura da lesão que lhe deu origem. Afeta o indivíduo na sua globalidade, pelo que a abordagem deve ser multidimensional, tendo em conta não só os aspetos sensoriais da dor, mas também as implicações psicológicas, sociais e até culturais, associadas à patologia dolorosa. A existência de unidades de dor crónica é fundamental para assegurar a coordenação da atuação. O tratamento inclui métodos não invasivos (medicação, fisioterapia, psicoterapia) ou métodos invasivos (bloqueios nervosos analgésicos, radiofrequência, estimulação elétrica). A Anestesiologia, pelas suas competências (nomeadamente na experiência na administração de analgésicos fortes e na realização de técnicas invasivas), é um elemento fundamental destas unidades. Os doentes em tratamento de dor crónica submetidos a intervenções cirúrgicas e o risco de dor aguda passar a crónica impõem a necessidade de interligação entre as unidades de dor aguda e crónica.
A Medicina Intensiva cuida do doente crítico, com falência de um ou mais órgãos. Para isso, recorre a monitorização avançada das funções vitais, equipamentos de substituição de órgãos (ventiladores, máquinas de diálise) e fármacos de resposta imediata. As competências, principalmente nas áreas cardiovascular e via aérea/ventilação, desenvolvidas na Medicina Peri-Operatória tornam os Anestesiologistas particularmente aptos nesta área da medicina.
A Anestesiologia é detentora de competências específicas que recomendam a sua inclusão na equipa de Medicina de Emergência. Muito para além da perícia na gestão da via aérea (sendo de realçar que a incapacidade de assegurar adequadamente a via aérea constitui a causa mais frequente de morte evitável no trauma), o Anestesiologista possui a visão e experiência que atravessa todo o percurso médico e cirúrgico do doente traumatizado grave. É reconhecida a importância da participação da Anestesiologia na emergência pré-hospitalar, nomeadamente na viatura médica de emergência e reanimação e no serviço de helicópteros de emergência médica. O transporte de doentes críticos e a emergência intra-hospitalar são também áreas para as quais a Anestesiologia possui as competências e treino necessários.
Pela sua abrangência, a Anestesiologia tem adquirido cada vez maior relevância no processo de evolução da medicina, constituindo, pelo seu conhecimento transversal a tantas áreas, o cimento agregador da atividade hospitalar, é, de facto, muito mais que adormecer e acordar doentes!


