Havendo uma grande diversidade de apps para a saúde, a sua classificação é ainda um tema em aberto e muito atual. Vários estudos e autores têm proposto classificações para as diferentes tipologias de apps. Começo por partilhar com os leitores desta revista, uma classificação para reflexões futuras em Portugal.
Para fins de simplificação, podemos assumir que têm sido desenvolvidas cinco tipos de apps para o setor da saúde. Na minha visão do que se observa em Portugal, ainda que na relação com a realidade internacional, podemos também assumir a seguinte classificação:
1 - Apps de Estilo de Vida. Normalmente posicionadas como tecnologia de apoio à promoção da saúde individual, a maioria incluem opções de controlo de etilo de vida (sono, peso, nutrição, atividade física, ritmo cardíaco, contador de calorias, etc.). Algumas incluem alertas (notificações push) e Métricas (relatórios com recomendações). Este tipo de apps tem merecido muito pouco interesse por parte dos médicos ou das organizações de saúde.
2 - Apps hospitalares. Normalmente produzidas por unidades de saúde com o propósito primário de reforçar a sua imagem (branding), promovendo a impressão de que estão a acompanhar a “revolução digital”. Na sua dinâmica internacional, estas apps incluem também a anterior tipologia de apps de estilo de vida, acrescentando mais algumas opções adicionais como marcação de consultas, alguma forma de registo eletrónico do doente, calendário com notificações para o regime terapêutico, pedido de renovação de receitas ao médico responsável, receção de faturas ou saldos do cliente. No caso nacional, as apps hospitalares são ainda extremamente básicas e incluem poucas destas opções.
3 - Registo Eletrónico de Saúde Individual. Estas distinguem-se da anterior tipologia na medida em que não há relação ou referência a nenhuma clínica ou unidade de saúde. O seu enfoque é gerarem um processo interativo de gestão de informação clínica e informação de saúde individual controlado pelo cidadão que decide a quem autoriza acesso e em que circunstancias. São, portanto, apps orientadas para os sistemas de saúde sem relação com nenhuma unidade de saúde em particular. As mais avançadas, incluem opções para a realização de consultas online, um modo de acesso em caso de emergência (facilitando a partilha de informação life-saving em caso de acidente), algumas formas de self-diagnosis e, mais recentemente, identificamos apps desta tipologia que aplicam algoritmos de Inteligência Artificial para pré-diagnóstico e análise de sintomas. Em Portugal estas apps não têm merecido grande atenção por parte de nenhum dos agentes do SNS sendo que as poucas disponibilizadas ou são muito limitadas ou apenas traduzidas para português a partir de outras existentes em outros países. Estas apps entram em concorrência direta com o projeto megalómano que o Ministério da Saúde tem alimentado, faz mais de dez anos, e um anunciado e já mitológico Registo Clínico Eletrónico nacional que ainda esperamos para ver implementado, conforme as suas potencialidades demonstradas em realidades internacionais. Este é, de qualquer forma, um projeto nacional inovador de elevada complexidade o que justifica o ritmo lento de implementação. Ainda assim, estas apps são de uso individual e é essa característica que tem permitido o crescimento da adesão internacional. Não há muitos dados nacionais sobre o tema.
4 - Apps para gestão clínica e investigação farmacológica. São apps criadas para estabelecer uma ligação direta entre doentes e médicos, sobretudo em contextos de doentes crónicos. São, habitualmente, desenvolvidas por, ou para, médicos individualmente que as distribuem, também individualmente, entre os seus doentes/clientes no contexto da atividade nos seus consultórios privados. Incluem funções como calendários e alertas individualizados definidos pelo médico, marcação de consultas, módulos para consultas online, gestão do plano terapêutico, registo de exames e análises, algoritmos para diagnóstico e módulos para ensaios clínicos, etc. Ainda são pouco utilizadas pelos médicos em Portugal em termos proporcionais.
5 - Apps para tele-saúde e tele-cuidados. Desenvolvidas para outras profissões da saúde, incluindo terapeutas, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, assistentes sociais, etc. Incluem, habitualmente, opções de contacto para informações e aconselhamento, pré-diagnóstico, serviços de monitorização de sinais vitais, monitorização pós-cirúrgica, módulos de educação para doentes crónicos e familiares, registos de informação de saúde individual, sobretudo informações dependentes de não-médicos, relatórios multiprofissionais, etc. São um concorrente direto às linhas de saúde (tipo linha SNS ou Saúde24, em Portugal) e, em muitos casos, são lançadas comercialmente por empresas de data management ou plataformas de utilização grátis oferecendo serviços que reduzem a procura hospitalar, ou de outras ofertas tradicionais de serviços de saúde, e como tal têm sido pouco apoiadas na sua disseminação por parte de grande parte de muitos ministérios da saúde na Europa.
Há ainda um conjunto de apps que são uma espécie de híbridos pois combinam características e funções de várias das tipologias indicadas. De uma forma geral, em Portugal, as apps na saúde enfrentam três desafios que, na sua maioria, não têm sido ultrapassados de forma sustentada no tempo.
Um primeiro desafio é constatado pelas baixíssimas taxas de adoção pelos utentes e cidadãos. Um segundo desafio ainda diz respeito ao vazio da legislação no âmbito da regulamentação das profissões na dinâmica de utilização de algumas das tipologias acima indicadas, apesar de ter já passado mais de uma década desde as primeiras soluções terem aparecido nos mercados. Um terceiro desafio diz respeito à necessidade de aumentar a literacia tecnológica de grandes segmentos dos médicos portugueses, nomeadamente, no que diz respeito á utilização de apps com bases de algoritmos de apoio à gestão clínica.
Entretanto, uma estimativa recente indica que existem mais de dois milhões de apps de saúde disponíveis no planeta, o que estabelece a necessidade de partilhar conhecimento estruturado sobre o tema. Proponho explorar este tema nesta revista em alguns artigos subsequentes.


