1.ª Conferência Internacional da ONCA em Portugal procura “garantir uma nutrição otimizada para todos”

Dr. Aníbal Marinho, presidente da APNEP
13/11/18
1.ª Conferência Internacional da ONCA em Portugal procura “garantir uma nutrição otimizada para todos”

Encontra-se a decorrer em Sintra a primeira Conferência Internacional da ONCA (Optimal Nutritional Care for All) em Portugal, promovida a nível nacional pela Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP). Em entrevista à News Farma, o Dr. Aníbal Marinho, presidente da APNEP, explica que este congresso tem como objetivo alertar para a necessidade de “compromisso e envolvimento” de “todos os agentes políticos e decisores”, bem como da sociedade, por forma a “garantir uma nutrição otimizada para todos”.

News Farma (NF) | Como se define a malnutrição por carência?

Dr. Aníbal Marinho (AM) | A malnutrição por carência, ou desnutrição, significa não comer alimentos suficientes (e, por isso, não ingerir os nutrientes necessários), durante o dia, para colmatar as necessidades nutricionais diárias. Por exemplo, um indivíduo que necessita de 2000 kcal por dia e apenas ingere 1500, 1600, 1800, 1900 kcal, não atinge as suas necessidades nutricionais diárias. A malnutrição leva a uma perda não intencional de peso, sob a forma de massa muscular.

A forma mais comum de malnutrição por carência é a "malnutrição associada à doença". Quando, num quadro de doença, a normal alimentação oral deixa de ser possível ou suficiente, há a necessidade de recorrer à nutrição clínica (via entérica ou via parentérica), que passa a ser a solução clinicamente mais eficaz para nutrir o doente.

NF | A malnutrição por carência (também designada por desnutrição), constitui um problema crescente, estimando-se que 2 em cada 4 adultos internados nos hospitais portugueses estejam em risco de malnutrição. Quais as razões subjacentes a este aumento da prevalência de desnutrição?

AM | São várias, sendo a principal a ausência de rastreio (diagnóstico) da malnutrição. Sem diagnóstico, a malnutrição permanece por reconhecer e não é tratada, aumentando a sua prevalência.

O rastreio foi recentemente regulado pelo Despacho 6634/2018 - Diário da República, 2.ª série — N.º 129 — 6 de julho de 2018, mas ainda não é realizado de forma uniforme e sistematizada.

Por outro lado, mesmo os doentes que são rastreados e diagnosticados com malnutrição por carência, não têm acesso ao tratamento que é realizado por meio de nutrição clínica (nutrição entérica – oral e por sonda e nutrição parentérica – intravenosa). A nutrição entérica não é comparticipada no ambulatório/domicílio e a nutrição parentérica é, por lei, definida como um medicamento de uso exclusivo hospitalar.

A falta de acessibilidade e comparticipação, no domicílio/ambulatório, a estas terapêuticas tem acarretado custos socioeconómicos elevados, tanto para os doentes como para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

NF | Quais as principais consequências da malnutrição por carência?

AM | A malnutrição dos doentes por carência compromete a eficácia de muitas terapêuticas farmacológicas e cirúrgicas, estando diretamente associada ao aumento do período de internamento, ao aumento dos reinternamentos e a elevadas taxas de morbilidade e mortalidade. Eleva significativamente os custos de saúde e diminui a qualidade de vida dos doentes e cuidadores.

NF | Os responsáveis da Saúde, e até mesmo a Opinião Pública, têm estado alerta para este problema?

AM | Infelizmente não. As políticas de saúde encontram-se focadas na prevenção e tratamento da obesidade, sendo alarmante as significativas assimetrias entre o apoio à obesidade em comparação com a malnutrição por carência.

Os custos, a nível europeu, com a malnutrição por carência são o dobro dos custos com a obesidade e excesso de peso.

Necessitamos do envolvimento e compromisso de todos: do ministério da saúde, das diversas autoridades de saúde, dos profissionais de saúde, das associações de doentes e das sociedades médicas.

NF | O que é necessário fazer para erradicar a malnutrição por carência, nomeadamente em Portugal?

AM | Implementar o rastreio nutricional sistematizado em todos os hospitais, públicos e privados, assim como na comunidade (centros de saúde, lares e instituições similares), assim como garantir a acessibilidade à terapêutica nutricional respetiva por meio de nutrição clínica.

NF | Nos dias 12 e 13 de novembro, realiza-se em Sintra uma Conferência Internacional da ONCA (Optimal Nutritional Care for All), que junta diversas entidades do sector da Saúde. Portugal é membro efetivo da Campanha ONCA desde 2016 e foi selecionado para organizar a Conferência este ano, entre um leque de 18 países. Porque considera que fomos o país escolhido?

AM | Consideramos que a proposta portuguesa foi selecionada porque incluía o envolvimento de diferentes entidades, unidas com o mesmo propósito de “garantir uma nutrição otimizada para todos”, como a APNEP e a Aliança nacional de doentes “Nutrição para todos”.

O apoio, a elevada consciencialização para este grave problema e o envolvimento da Câmara Municipal de Sintra foram igualmente fundamentais.

NF | Quais os objetivos subjacentes à campanha ONCA? Qual a importância do trabalho desenvolvido por esta entidade?

AM | A campanha ONCA tem como objetivo que todos os indivíduos malnutridos ou com risco de malnutrição sejam sistematicamente rastreados, avaliados e tenham acesso a cuidados nutricionais adequados, equitativos e de alta qualidade. Procura, assim, reduzir substancialmente a incidência da malnutrição associada à doença em todos os países europeus.

A campanha ONCA apoia os diferentes países na implementação do rastreio nutricional e na otimização dos cuidados nutricionais, construindo e acelerando a disseminação de boas práticas. Os progressos de cada país são monitorizados anualmente.  

NF | Há mais algum assunto que queira destacar?

AM | Gostaria de destacar que é fundamental o compromisso e envolvimento, para garantir a acessibilidade da nutrição clínica na comunidade, de todos os agentes políticos e decisores, incluindo associações e sociedades médicas, que têm elevada especialização e deverão ser os porta-vozes deste problema. Urge que todos, incluindo a opinião pública, nos juntemos para garantir a acessibilidade e a justiça de uma terapêutica nutricional para todos os doentes.

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