News Farma (NF) | Em linhas gerais, quais serão os temas abordados durante o evento?
Prof.ª Doutora Isabel Pavão Martins (IPM) | O evento irá focar essencialmente o tratamento da enxaqueca e muito em particular as novas opções terapêuticas que estão a surgir no mercado para esta doença e a forma como se podem enquadrar nos planos terapêuticos existentes.
NF | Qual a mais-valia deste tipo de evento, em termos de acesso e partilha de informação e conhecimentos?
IPM | O Migraine Science Day é um evento educacional, que pretende divulgar informação sobre a enxaqueca aos profissionais de saúde e aos investigadores nesta área.
O facto de o Migraine Science Day ser um evento híbrido, com participantes presentes na sala e outros ligados por teleconferência, abre a possibilidade de ter muitas pessoas em rede que podem interagir tanto com o seu hub local como com os outros grupos à distancia.
Os palestrantes convidados são investigadores clínicos de renome, que participaram em estudos sobre os novos fármacos para a enxaqueca, o que lhes permite apresentar informação actualizada, resultante de ensaios clínicos, e também discutir o seu uso na prática clínica, assim como as questões mais complexas referentes ao tratamento da enxaqueca.
Os participantes encontram-se em vários países, nomedamente na Europa e na América do Sul, e representam realidades e sistemas de saúde diferentes. Penso que isso irá enriquecer a discussão e ajudará a compreender se os consensos sobre o uso de medicamentos se podem generalizar.
NF | A quem se dirige o evento? Por que razão é importante, para os profissionais de saúde, aderirem a esta iniciativa?
IPM | O eventos dirige-se a clínicos e a investigadores. Terá médicos neurologistas, internos de Neurologia, pediatras e penso que haverá também medicos de Cuidados de Saúde Primários (MGF) e enfermeiros. Terá ainda farmaceuticos e pessoas ligadas à industria farmacêutica.
A enxaqueca afecta cerca de 15% da população a nível mundial, particularmente mulheres e homens em idade produtiva, e é uma doença muito incapacitante, com enorme impacto sobre a qualidade de vida e sobre a produtividade laboral. Associa-se a elevados custos sociais e economicos. É muito importante envolver diferentes profissionais no seu tratamento.
NF | Qual o momento que merece, na sua perspetiva, uma maior expectativa junto da comunidade científica?
IPM | Tenho bastante expectativa sobre os momentos de debate. Teremos entre nós, aqui em Lisboa, o Prof. Doutor Katzarava, actual presidente da European Headache Federation, Sociedade que acabou de publicar recomendações sobre o uso de novos fármacos na enxaqueca, nomedamente os anticorpos monoclonais dirigidos ao CGRP e ao seu receptor. Estas recomendações eram aguardadas há muito e irão ser essenciais para a prática clínica na Europa, no que diz respeito ao tratamento da enxaqueca.
NF | O evento propõe-se promover a “transformação da prevenção da enxaqueca”. Podemos falar de uma mudança de paradigma e de abordagem a esta doença, onde se passa de pensar no tratamento para pensar na prevenção? Por que razão isto ocorre?
IPM | Estamos a assistir à chegada de fármacos com mecanismos de acção muito claros e que foram desenvolvidos especificamente para inibir uma das substâncias envolvidas no desencadear das crises de enxaqueca.
Ou seja, além da evidência que existe relativamente à sua efiácia e segurança, e que provem dos ensaios clínicos, estes fármacos representam também uma avanço na compreensão dos mecanismos subjacentes à crise. Isso é importante para os clínicos pois permite-lhes compreender o que estão a fazer, e como estão a intervir nos mecanismos da doença, o que não é inteiramente verdade para alguns dos fármacos tradicionalmente usados na prevenção das crises.
Para os doentes podemos dizer que relativamente aos medicamentos existentes no mercado, estes novos fármacos têm a vantagem de ter um início de acção rápido, uma administração mensal e poucos efeitos adversos, para além da eficácia. Para os doentes que já tinham experimentado tudo sem sucesso ou que não toleravam os medicamentos tradicionais estes fármacos representam uma nova solução terapeutica.
NF | O que é que, em termos práticos, mudará no futuro próximo, em relação à prevenção da enxaqueca?
IPM | A terapêutica preventiva destina-se a evitar que ocorram crises de enxaqueca. Ou seja, o doente faz um tratamento diário, regular, para reduzir a frequencia das crises, em vez de se limitar a esperar que estas ocorram.
Até há pouco tempo essa terapêutica preventiva destinava-se às pessoas com muitas crises ou com crises muito incapacitantes, e os fármacos usados eram com frequência mal tolerados a longo prazo. Isso levava ao abandono da terapêutica ou ao seu insucesso. A chegada de fármacos eficazes, e mais bem tolerados, permite olhar para a prevenção de outra forma. Estes anticorpos monoclonais provaram ser eficazes a partir dos quatro dias de crises por mês.
Por isso, a partir de agora podemos oferecer mais alternativas terapêuticas, que se podem enquadrar no perfil de cada doente. E, por outro lado, temos uma melhor compreensão da doença, o que nos dá a possibilidade de ajudar mais os doentes.
NF | Em que medida o papel dos profissionais de saúde, nomeadamente dos especialistas em Neurologia, pode ser importante no âmbito da prevenção? E que outros profissionais devem ser chamados a promover esta mudança?
IPM | A maior parte das pessoas que se dedica ao tratamento das dores de cabeça são neurologistas. Além das consultas de Neurologia existem consultas especializadas em cefaleias, ainda mais focadas nesse problema, e que acabam por receber os doentes com as dores de cabeça mais graves, mais persistentes e mais refractárias. Os pediatras e os neuropediatras tambem tratam doentes com enxaqueca e outras cefaleias. Dada a elevada prevalência destas doenças na população, o papel dos médicos de MGF é também muito grande.
NF | Na sua perspetiva, quais são os desafios que ainda se colocam atualmente nesta área?
IPM | Há ainda grandes desafios em termos de investigação e compreensão da doença e em termos sociais. É importante compreender os desencadeantes e poder antecipar a crise. É muito importante diagnosticar correta e precocemente e esclarecer o doente sobre aquilo que sofre. Vimos ainda muitas pessoas sem qualquer ideia sobre aquilo que têm, o que não acontece noutras doenças.
NF | Sabemos que a enxaqueca é uma doença verdadeiramente incapacitante, que tem um elevado impacto social, e que traz também aos doentes o estigma e o preconceito, nomeadamente em termos profissionais. Por que razão a sociedade civil ainda não confere a importância necessária a esta doença?
IPM | Ainda existe bastante preconceito em relação à enxaqueca, que foi tradicionalmente considerada uma doença benigna e sem importância. Os próprios doentes chegam a ter vergonha de se queixar, o que é surpreendente. Basta observar um doente em crise, com dor intensa, incapaz de ter os olhos abertos, movimentar-se, comer, ou ouvir qualquer som, para perceber como esse conceito é falso. Há que falar mais nesta doença e promover o seu esclarecimento junto do público em geral.


