Voltando atrás no tempo, note-se que a criação da APCP, em 1995, foi fortemente impulsionada pelo IPO Porto, contando inicialmente com 28 associados. No mesmo ano, a associação organizou o seu primeiro Congresso, que teve lugar no Porto. Nas duas décadas seguintes, a APCP cresceu para incluir 1089 associados, em 2018. Expandiu para 39 vezes mais associados em 23 anos. Neste nono Congresso, regressámos ao Porto, com a participação de 542 conferencistas de todas as regiões de Portugal e de seis outros países (Brasil, Espanha, Irlanda, Estados Unidos, Holanda e Reino Unido).
Com o mote “Preparar o Futuro, Novas Soluções”, o programa do Congresso incluiu 46 sessões paralelas, seis sessões plenárias e dois simpósios. Contou com 106 palestrantes e fantásticas apresentações sobre 76 estudos portugueses e o trabalho de clínicos, investigadores, voluntários e utentes de Cuidados Paliativos. Foram ouvidos especialistas nacionais e internacionais sobre tópicos-chave para ajudar a melhorar os cuidados no futuro.
O mote do Congresso não poderia ter sido melhor lançado do que pela Prof.ª Doutora Diane Meier, reconhecida médica norte-americana, líder mundial nos Cuidados Paliativos, que se distingue pelo olhar visionário com que cria novas iniciativas, como o Center to Advance Palliative Care, do qual é diretora.
Um ponto alto foi a mensagem enviada pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, na qual frisou a urgência de acabar com a iniquidade no acesso a Cuidados Paliativos, deu os parabéns a Portugal pela liderança na prestação de Cuidados Paliativos no contexto de uma cobertura universal em saúde.
Outro ponto alto foi a revelação dos resultados da eleição do top 10 dos visionários dos Cuidados Paliativos em Portugal, com exibição de um vídeo de homenagem e uma palestra inspiradora proferida pela Dr.ª Isabel Galriça Neto, que encabeçou o grupo, integrando o top 10 de 83% dos votantes (255 associados da APCP).
Foram revistos e debatidos os últimos dois anos de desenvolvimento dos cuidados paliativos em Portugal, com o plano estratégico nacional 2017-2018 em vigor e respetiva coordenação pela Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, presidida pela Dr.ª Edna Gonçalves.
Numa fase de transição e com a recém-nomeada equipa governativa da Saúde, vimos reforçado o compromisso de continuação do trabalho de desenvolvimento da área, pela secretária de estado da Saúde, Prof.ª Doutora Raquel Duarte, que presidiu ao encerramento do Congresso.
Destaca-se ainda a participação de importantes palestrantes internacionais: o Prof. Doutor Paddy Stone sobre predição de sobrevivência, Prof.ª Doutora Jenny van der Steen sobre intervenção em demência avançada e em lares de idosos, Dr.ª Cristina Quesada sobre prevenção e cuidados de úlceras de pressão em crianças, Prof.ª Doutora Maria Aparício sobre tratamento de feridas malignas e melhorias nos cuidados que decorrem das cartas de gratidão dos utentes, Dr.ª Sara Booth sobre doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e tratamento da dispneia, Prof. Doutora Fliss Murtagh sobre doença renal e medição dos benefícios dos cuidados paliativos, Prof. Doutor Charles Normand sobre a avaliação económica e desafios para a universalidade e sustentabilidade dos cuidados paliativos, Prof. Doutor Win van der Brink sobre a prescrição de opióides no tratamento da dor, Prof.ª Doutora Mary Turner sobre valor e desafios nos cuidados domiciliários, Prof.ª Doutora Catherine Walshe sobre voluntariado e publicação em revistas científicas, Prof. Doutor Ricardo Martino sobre inovação em cuidados paliativos pediátricos e Prof.ª Doutora Bobbie Farsides com uma reflexão ética sobre cuidados paliativos e morte assistida no Reino Unido.
O formato do Congresso promoveu interação entre participantes incluindo sessões abertas dos grupos de trabalho da APCP, do Observatório Português de Cuidados Paliativos e das Ordens Profissionais.
Para além de tópicos-chave para o futuro, a comissão científica incluiu no programa conteúdos menos convencionais como a gestão e liderança de equipas clínicas, contextos e terapias emergentes, a relação com os media, a reconstrução de espaços físicos, e um cine-debate dedicado à integração dos cuidados paliativos e dos cuidados intensivos.
A sessão plenária dedicada à perspetiva dos utentes foi um momento marcante, onde um auditório cheio se levantou por duas vezes para aplaudir os testemunhos de Sandra Neves e Carlos Rebocho sobre as suas vivências de doença complexa avançada, sobre como os Cuidados Paliativos fazem diferença e como poderão fazer mais ainda.
As sessões de discussão de posters acrescentaram valor ao desvendar estudos que poderiam passar desapercebidos, como seja do inquérito nacional a 1812 pessoas enlutadas sobre os últimos três meses de vida na perspetiva do cuidador, realizado pela Prof.ª Doutora Alexandra Pereira e colegas, distinguido como melhor poster com discussão. O Congresso atingiu muitos dos seus objetivos e fortaleceu-se como ponto de encontro para partilha de conhecimento. Com base no feedback dos participantes, cabe à APCP manter ou elevar mais ainda a fasquia da qualidade científica no próximo Congresso e jornadas de investigação. Cabe a todos nós contribuir no mesmo sentido, para conseguirmos transformar a forma como as pessoas vivem e morrem em Portugal, para que seja o melhor possível, agora e no futuro.


