News Farma (NF) | Foi recentemente eleito presidente da Secção de Cirurgia de Emergência da Sociedade Europeia de Cirurgia de Trauma e Emergência, qual a importância desta distinção?
Dr. Jorge Pereira (JP) | Esta distinção é o corolário do trabalho desenvolvido por uma série de pessoas ligadas à educação em cirurgia de urgência em Portugal, envolvendo diversas sociedades científicas como a Associação de Laserterapia e Tecnologias Afins (ALTEC) e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e a própria Direção do Colégio da Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos. No seio da Ordem dos Médicos (OM) foi criado um grupo de trabalho para promover a formação em cirurgia de urgência em Portugal cujos resultados nunca vieram a ser públicos por terem sido reprovados pelo Conselho Nacional Executivo. No entanto, dadas as ligações existentes com vários dirigentes europeus a nível científico, a partir do currículo mínimo que preconizávamos, a União Europeia de Médicos especialistas criou a divisão em Cirurgia de Emergência, da qual faço parte. A ESTEES, Sociedade Europeia que sempre primou pela educação médica e, sobretudo em cirurgia, possui no seu seio uma secção que trata dos assuntos particulares da Cirurgia de Emergência. Desde 2013 que faço parte da secção, inicialmente como membro do Comittee, depois como vice-chair e agora chair. Esta Secção foi responsável pela criação de guidelines (isquémia mesentérica aguda), cursos de formação profissional (MUSEC e ESC), publicações científicas, entre outras medidas formativas ao longo destes últimos anos. É de responsabilidade da Secção tudo o que concerne à cirurgia de emergência na organização do Congresso Anual, incluindo a elaboração do programa e da organização de cursos pré-congresso. Por estes motivos, esta distinção significa para mim a continuação do trabalho iniciado há muitos anos, ligado à formação médica pós-graduada. Recentemente, a ALTEC, através de um grupo de pessoas altamente motivadas liderado por mim, introduziu o CCrISP em Portugal com enorme sucesso. Trata-se de um curso do Royal College of Surgeons do Reino Unido, específico para internos sobre abordagem do doente critico cirúrgico, lacuna existente na formação dos nossos internos e que achamos por bem preencher. A melhor formação dos nossos médicos significa um melhor tratamento dos nossos doentes e esse é o meu objetivo último.
NF | Quais serão os principais focos do seu mandato à frente da Secção?
JP | Temos vários planos que deverão prosseguir em mandatos seguintes, sobretudo na vigência do Prof. Doutor Michael Sugrue, atual vice-chair e provavelmente próximo chair. A primeira grande tarefa é a elaboração do Programa do Congresso do próximo ano. Depois estamos envolvidos em alguns estudos colaborativos a nível Europeu através de diversos membros da ESTES. Temos estudo diversos em curso, avaliação de guidelines... múltiplas atividades que visam a educação médica e a melhoria de cuidados dos nossos doentes.
NF | Na sua opinião, quais os pontos críticos nesta área, em Portugal, e que devem ser melhorados?
JP | A proposta efetuada pelo grupo de trabalho para criação de uma subespecialidade de cirurgia de urgência (CU) foi recusada pela OM, apesar do apoio do Colégio. Apesar das falhas no sistema que têm sido apontadas e identificadas de forma sucessiva pela comunicação social, não tem havido uma preocupação genuína com o que se passa nos serviços de urgência em Portugal. Entende-se que várias áreas dentro da cirurgia merecem uma atenção especial e até criação de Centros de Referência, mas a cirurgia de urgência, exigente do ponto de vista técnico e científico, pode ser realizada por qualquer Cirurgião Geral sem nenhuma distinção especifica. Achamos que isso pode não corresponder às necessidades. Por um lado, e como foi recentemente apontado pelo Dr. Vítor Almeida, presidente do Colégio de Competência em Emergência Médica, somos o único país europeu sem especialidade de Medicina de Urgência individualizada. Isto não tem ocorrido por falta de ideias, mas por motivos políticos difíceis de compreender. Esta mudança de paradigma poderia levar a modificações radicais que revelassem a todos, e não só aos cirurgiões, a necessidade de uma diferenciação da cirurgia de urgência. A cirurgia de urgência evoluiu de forma significativa nos últimos anos, quer do ponto de vista técnico, mas, sobretudo, do ponto de vista da tomada de decisão. A formação obtida exclusivamente em ambiente de rotina não é suficiente quando se aplica à cirurgia de urgência. Por esse motivo, o Grupo de Trabalho elaborou um documento explicando as necessidades relativas ao currículo mínimo de técnicas e ao nível de conhecimentos científicos entendidos suficientes para se adquirir o grau de subespecialista em cirurgia de urgência. Não se pretende, de nenhum modo, criar uma cisão nos cirurgiões, mas, tão somente, distinguir aqueles cujo currículo os torna mais aptos para chefiar equipas de urgência cirúrgica. O Colégio de Cirurgia Geral, além das sociedades científicas envolvidas, apoia esta iniciativa.
NF | No que concerne à qualidade de cuidados em emergência e cirurgia de trauma, que boas práticas existem a nível internacional que pudessem ser implementadas em Portugal?
JP | As boas práticas internacionais são aplicadas a nível nacional. Os nossos profissionais estão a par dos avanços científicos e existem normas publicadas pela Direção Geral de Saúde (DGS) e que se relacionam com a prática nestes casos. O problema que existe é as normas não serem aplicadas. As normas são criadas por uma Comissão nomeada pela DGS onde um membro é nomeado pelo Ministério, e os restantes são peritos técnicos e representantes dos Colégios de Especialidade envolvidos. São discutidos os assuntos em questão, com base na literatura científica recente existente e são conseguidos consensos nas matérias que dão origem a linhas de orientação. Estas são publicadas no site da DGS onde permanecem durante 1 ano para discussão publica, após o que são publicadas e constituem força de lei. No entanto, na maioria das vezes isso não é aplicado na prática, apesar dos procedimentos sugeridos serem efetuados pelos profissionais. Um exemplo: há alguns anos saiu uma norma sobre a Via Verde de Trauma (VVT). Todos os hospitais de um determinado nível deveriam ter uma VVT e cumprir a norma. No entanto, apesar dos doentes serem atendido de acordo com os preceitos teóricos ali enunciados (ATLS way) muito poucos hospitais aderiram à VVT. E assim, não havia constituição de equipe de trauma, a ativação do banco de sangue não era efetuada de imediato, os registos realizados dependem de quem os faz não havendo uniformização. Enfim, não há protocolo. Felizmente não é assim de forma generalizada e muito se tem avançado nesta área. As diferentes Vias Verdes a que a maioria dos hospitais aderiu é a prova disso (sépsis, coronária, AVC, etc.)
Guidelines e protocolos existem muitos, tendo eu contribuído e participado em alguns deles a nível da ESTEES. Os profissionais portugueses têm conhecimento destes instrumentos e em geral seguem-nos. A questão, a meu ver, que se coloca relativamente ao funcionamento dos Serviços de Urgência em Portugal não é de carácter científico, mas organizacional.


