“A prevenção e o tratamento de obesidade infantil deveria ser um desígnio nacional”

Dr.ª Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas
19/07/19
“A prevenção e o tratamento de obesidade infantil deveria ser um desígnio nacional”

A Ordem dos Nutricionistas congratula-se com os dados recentemente anunciados do COSI Portugal 2019, que revelam que a prevalência de excesso de peso em crianças entre os seis e os oito anos apresenta uma tendência decrescente. De 2008 até 2019 este valor baixou 8,3%, isto é de 37,9% para 29,6%. Relativamente à obesidade infantil registou-se um decréscimo de 3,3%, encontrando-se atualmente nos 12%. A bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Dr.ª Alexandra Bento, alerta que, apesar do decréscimo verificado, a obesidade infantil continua a ser um grande problema em idade pediátrica. Leia a entrevista.

News Farma (NF) | Qual o panorama da obesidade em Portugal?

Dr.ª Alexandra Bento (AB) | Segundo os dados COSI 2019 que foram recentemente apresentados, no que à obesidade infantil diz respeito, verifica-se 29,6% de prevalência de excesso de peso e 12% de obesidade, o que me parece que ainda são dados bastante preocupantes. Se efetuarmos uma análise dos indicadores desde 2008, o que se observa é uma tendência decrescente. Contudo, acho que podemos e devemos dizer que a obesidade infantil continua a ser um grande problema em termos de saúde pública. Eu diria que provavelmente é o maior e mais sério problema em idade pediátrica e, portanto, não tenho dúvidas algumas que a prevenção e o tratamento de obesidade infantil deveria ser um desígnio nacional.

NF | Nesse sentido, que medidas de saúde públicas foram implementadas e o que é que, na sua opinião, ainda falta fazer?

AB | É preciso perceber que se os resultados recentemente apresentados são positivos, podem ser resultado de uma série de fatores e medidas concretas, mas sobretudo por se ter atribuído dimensão a esta doença, ou seja, ter colocado este problema na agenda pública e política.

Desde 2006, altura em que o país esteve presente numa conferência da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Istambul, Portugal acabou por tomar alguma liderança em relação às questões relacionadas com os hábitos alimentares das crianças e a promoção da saúde através da alimentação para que estas pudessem ser normoponderais. Portanto, ao dizer isto estou a querer dizer que muitos destes resultados se ficaram a dever ao facto deste assunto – a obesidade – ter sido colocada em agenda, porque anteriormente não era considerado uma prioridade, para ser mais concreta, nem uma doença e, portanto, a partir do momento em que a OMS define a obesidade como uma patologia, Portugal, através da Direção Geral da Saúde (DGS) também considera a obesidade uma doença, começam a desencadear-se algumas iniciativas de que é exemplo a plataforma nacional da luta contra a obesidade, seguida de um plano nacional para promoção de uma alimentação saudável e, mais recentemente, uma estratégia integrada para promoção de uma alimentação saudável. Tudo isto é importante e fez com que Portugal passasse dos piores lugares, que era o nosso estado, em 2008 estávamos no segundo pior lugar, para meio da tabela, em termos europeus. No entanto, é importante recordar que não será suficiente e que este bom resultado deve ser analisado para programarmos o futuro.

NF | A Ordem dos Nutricionistas apresentou uma proposta à secretária de Estado adjunta e da educação, alertando para a necessidade de integrar nutricionistas nas escolas em todo o país. Este é uma das medidas a implementar no futuro?

AB | Integrar estes profissionais de saúde nas escolas é de extrema importância até pelos dados que nós temos. É um facto que estamos a melhorar a prevalência do excesso de peso da obesidade, mas não nos podemos esquecer que 1/3 das crianças ainda tem peso a mais e 12% tem obesidade, que é o mesmo que dizer que duas em cada oito crianças têm obesidade. Para além disso, ainda se verifica uma prevalência de obesidade grave em 5% nas crianças do sexo masculino e quase 2,5% em crianças do sexo feminino. Estes números exigem uma intervenção muito séria. Eu entendo que o palco por excelência para se promoverem bons hábitos alimentares saudáveis é a escola, onde as crianças passam grande parte do seu dia e fazem uma parte substancial das suas refeições. Se a escola puder providenciar um ambiente alimentar salutogénico, então eu acredito que podemos vir a ter crianças com hábitos alimentares saudáveis. Para promover este ambiente alimentar salutogénico, é fundamental desencadear uma série de medidas de entre as quais, a presença de nutricionistas para poderem auxiliar no desenvolvimento das ações programadas para melhorar a alimentação escolar.

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