Relativamente ao número de casos, a Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa refere que “em Portugal, estima-se que a osteoporose afete cerca de 500 mil pessoas. Os números mais recentes foram publicados em 2021 pela International Osteoporosis Foundation (IOF) onde se registou uma percentagem de 5,6 % em 2019. A doença é considerada silenciosa, só após uma fratura, é que consegue ser identificada.”
A presidente da SPODOM, afirma que “outra forma de suspeitar de osteoporose é a chamada cifose, que representa habitualmente várias fraturas na coluna vertebral. Outros sinais de alerta identificados pelos doentes são a perda de estatura e as dores súbitas intensas na região dorsal ou lombar.”
Um dos principais fatores de risco indicado pela Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa “é a idade avançada, sendo que após os setenta anos de idade há uma maior probabilidade de ocorrência da fratura osteoporótica.”
A presidente da SPODOM destaca como “fatores de risco principais, a existência de um familiar próximo, como os pais ou os irmãos, que já tenham feito uma fratura, nomeadamente da anca; a presença de doenças como a artrite reumatoide, vários tipos de cancros, nomeadamente o da mama e o da próstata, diabetes mellitus, doenças do tubo digestivo, muitas das doenças endócrinas nomeadamente da tiroide, e das paratiroides.” Outro exemplo são igualmente as mulheres com menopausa precoce, que iniciou antes dos quarenta anos. Se tiverem baixa ingestão de cálcio, consumo excessivo de álcool, tabagismo ou se forem muito sedentárias, também são pessoas de risco. Os fármacos também podem ser considerados fatores predisponentes, sendo que alguns provocam perda de massa óssea e osteoporose. Alguns exemplos são “os corticoides, os inibidores da bomba de protões, os inibidores da recaptação de serotonina e a medicação imunossupressora prescrita em casos de transplante.”
Relativamente ao diagnóstico, a médica explica que “o exame de densitometria óssea deve ser feito quando o doente tem mais de sessenta e cinco anos de idade.” Neste procedimento clínico, “é detetado um valor referente ao risco de fratura. No caso de o doente ter menos do que essa idade, mas se tiver fatores ou doenças de risco como por exemplo a artrite reumatoide, pode e deve ser feita a densitometria óssea mais cedo”, confirma a Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa.
“A história clínica também pode revelar sinais de alerta.” A presidente da SPODOM exemplifica que “se o doente já tiver feito uma fratura com traumatismo pequeno, ou seja, se teve uma queda inferior ou igual à própria altura.” Em situações mais graves, “pode acontecer com o simples curvar do tronco ou após pegar ou empurrar um objeto, o doente fazer fraturas de vértebras.” Numa fase avançada, até através da tosse, o doente pode fazer uma fratura na vértebra ou na costela. Assim sendo, “em caso de fraturas osteoporóticas já sabemos que tem a doença.” Se não existirem fatores de risco, pode ser realizado o exame depois dos sessenta e cinco anos para as mulheres e depois dos setenta anos para os homens, explica.
Em relação aos tratamentos disponíveis, a Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa refere que existem opções “farmacológicas e não farmacológicas.”
Começando por fazer referência aos não farmacológicos, a especialista indica “a alimentação que deve ser rica em cálcio e vitamina D. Os lácteos devem ser privilegiados porque têm muito cálcio, mas também os frutos secos e os vegetais. Os peixes gordos e os cogumelos são importantes devido à vitamina D e também a gema do ovo, são alguns exemplos.” Também é fundamental reduzir o sal e o álcool, continua, explicando que o exercício físico deve ser regular, ou pelo menos evitar o sedentarismo. “Se estamos perante um doente que já fez uma fratura, dependendo do local da fratura, devemos incluir um plano de reabilitação adequado à sua condição e acompanhado por um fisiatra”, refere. “Devemos alertar o doente para situações que podem potenciar a queda para evitar fraturas. Alguns desses alertas são referentes ao calçado que deve ser confortável e adequado, evitar sítios mal iluminados, verificar a graduação dos óculos, utilizar apoios de marcha, se necessário e evitar tapetes ou fios no chão. É importante também rever a medicação, pois algumas potenciam as quedas.”
Relativamente aos tratamentos farmacológicos, a presidente da SPODOM alerta que “alguns aumentam a formação do osso, no nosso país temos apenas a teriparatida que deve ser usada em casos de osteoporose grave, em pessoas de idades muito avançadas que já têm várias fraturas vertebrais e um valor muito baixo de massa óssea.” Na classe dos que diminuem a reabsorção óssea, mais comuns, “há a classe dos bisfosfonatos.”
Sobre o Dia Mundial da Osteoporose e a importância da consciencialização para prevenir a doença, a médica afirma que “a SPODOM é uma sociedade médica que procura partilhar conhecimentos com os médicos através de cursos, congressos, palestras e webinars. Em parceria com outras associações e dirigido aos doentes, divulgamos as principais características sobre a doença, os fatores de risco, o diagnóstico e o tratamento.” No que se refere à efeméride, “a SPODOM participa em atividades na televisão, na rádio e em revistas e nas redes sociais para consciencializar a população e os nossos governantes, tendo em conta que a doença não tem sido reconhecida como um dos maiores problemas de saúde pública mundial e é uma das razões porque não conseguimos parar os números dramáticos das fraturas.”
A área da osteoporose e doenças ósseas metabólicas tem atravessado uma fase de enormes desafios. A Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa comenta esta realidade que afirma estar relacionada com a consciencialização dos números crescentes. “A Internacional Osteoporosis Foundation (IOF) tem tido um papel fulcral a nível mundial através do incentivo à criação dos serviços de ligação à fratura (FLS services) que visa criar serviços integrados com várias áreas da Medicina que tratam as fraturas osteoporóticas, no sentido de evitar que o doente faça mais fraturas sem um apoio constante”. Com este serviço, o doente entra num plano geral que permite o tratamento farmacológico e não-farmacológico, assim como o ensino sobre as quedas e a importância da monitorização do tratamento. Estes serviços têm-se demonstrado eficazes para reduzir o número de fraturas. O grande desafio é implementar estes serviços em todo o mundo.”
Tendo em conta estes desafios, a SPODOM tem-se focado em “tentar dialogar com a tutela. Neste momento temos em discussão com a DGS, a implementação de um sistema para todo o país da integração de cuidados ao doente com fraturas osteoporóticas. Temos também várias formações para profissionais de saúde com o intuito de informar sobre a implementação de serviços de ligação à fratura.”
A Prof.ª Doutora Ana Paula Barbosa comenta a situação da pesquisa científica em Portugal referente a esta área em específico. “A investigação científica tem tido vertentes, umas mais básicas e outras mais clínicas. Na área da avaliação clínica e epidemiológica, nomeadamente das fraturas, a nossa sociedade tem trabalhado com a IOF, de modo a divulgar os números, e na investigação básica, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, realizámos o estudo das osteoporoses secundárias, da vitamina D, da genética na área da osteoporose e dos marcadores inflamatórios na área da doença óssea da diabetes.”
Por fim, a médica especialista relembra que “a doença tem sido desvalorizada porque quer os profissionais de saúde, quer a população em geral, têm a tendência de desvalorizar as fraturas pensando que são situações de importância menor. No entanto, a terceira causa de morte na Europa são as fraturas osteoporóticas, nomeadamente a fratura do colo do fémur, que pode levar à morte a cerca de 20 % dos doentes no primeiro ano após a fratura. É importante passar essa mensagem.”


