News Farma (NF) | No âmbito do Dia Mundial do Linfoma, que mensagem deve ser reforçada na comunidade médica e na população em geral?
Prof. Doutor Manuel Abecasis (MA) | Neste dia, é oportuno relembrar que sendo uma patologia rara é necessário não esquecer os sinais e sintomas, que não sendo específicos, devem levar a pensar num linfoma. Refiro-me a sintomas e sinais relativamente inespecíficos como um gânglio aumentado de volume, febrícula persistente, prurido, emagrecimento, astenia.
NF| No que toca ao diagnóstico e ao tratamento, em que ponto é que estamos?
MA | No que respeita ao diagnóstico, nas variantes mais frequentes (linfomas B difusos de grandes células B e linfomas foliculares) os serviços de anatomia patológica são competentes para o fazer. Nas variantes mais raras em que pode ser mais difícil há sempre a possibilidade do recurso a serviços de hospitais de referência, como por exemplo o IPO de Lisboa.
Em relação aos tratamentos, importa dizer que o tratamento mais adequado está relacionado com uma avaliação cuidadosa do estadio da doença, com recurso a técnicas de imagem como a TAC e o PET/TAC e está bem definido para as variantes mais frequentes. A avaliação da resposta no decurso do tratamento é igualmente importante porque pode implicar alterações ao tratamento inicial com o objectivo de melhorar a resposta.
NF | Dado que o linfoma se divide em não Hodgkin e Hodgkin, o acesso à inovação terapêutica foi mais notório em que subgrupo da doença?
MA | Na realidade, além da grande divisão entre Hodgkin e não-Hodgkin, é necessário ter em conta que os linfomas não-Hodgkin incluem dezenas de variantes com comportamentos e prognóstico muito diferentes. Já a doença de Hodgkin também é heterogénea, e o subtipo deve ser considerado no plano terapêutico.
Em ambos os grupos tem havido avanços notáveis nas duas últimas décadas, como a introdução de anticorpos monoclonais conjugados, anticorpos biespecificos, inibidores de check-point, pequenas moléculas que inibem vias de transmissão celulares, e mais recentemente as CAR T cells. Importa ainda considerar o recurso à quimioterapia intensiva com suporte de células hematopoiéticas, aplicável sobretudo, mas não exclusivamente, no contexto autólogo.
NF | Quais são os maiores desafios nesta área?
MA | O maior desafio é garantir o acesso rápido e adequado aos centros de tratamento e proporcionar a todos os doentes um tratamento adequado no tempo certo.
NF | O que é que indicam as últimas guidelines?
MA | Esta é uma questão que só pode ser respondida indicando que as guidelines, pela sua extensão e complexidade, devem ser consultadas em plataformas especificas, como a do NCCN (National Comprehensive Cancer Network) e da EHA (European Hematology Association), não deixando de referir que a Sociedade Portuguesa de Hematologia, através da publicação em revistas médicas, tem igualmente publicado as suas orientações para algumas doenças hemato-oncológicas.
NF | Como descreve o papel da APCL na jornada do doente?
MA | A APCL, criada em 2002, tem como um dos seus objectivos contribuir para a literacia dos doentes e cuidadores, divulgando informação médica cientificamente credível, disponibilizada através do seu “site” e da realização regular de eventos temáticos na área da hemato-oncologia. Estamos muito gratos a todos os profissionais de saúde que connosco têm colaborado, aos doentes que nos acompanham nestas jornadas e ao apoio m compromisso da indústria farmacêutica que permite a sua realização.
NF | Fruto de uma parceria entre a Kyowa Kirin e a APCL, surge a campanha “Coloquemo-nos na sua pele”. Em que consiste esta campanha e que iniciativas estão previstas neste âmbito?
MA | A Kyowa Kirin lançou recentemente um medicamento novo destinado ao tratamento de um tipo particular e raro de linfoma, o linfoma cutâneo de células T (micose fungóide/síndrome de Sézary). Trata-se do mogalizumab, anticorpo monoclonal anti CCR4, aprovado em 2018 pela FDA e EMA para o tratamento destas doenças. A maioria destes linfomas tem uma evolução indolente e o diagnóstico é muitas vezes demorado, fruto da variabilidade da sua apresentação clinica e da sua raridade.
Esta campanha destina-se a alertar as pessoas, doentes e médicos, para estas doenças e para a necessidade de serem referidas atempadamente a uma consulta de linfomas T cutâneos. De facto, sendo doenças com manifestações cutâneas muito variadas (“the great mimickers” como são chamados na literatura médica), o diagnóstico correcto pode demorar muito tempo a ser feito.
NF | Que outras iniciativas tem a APCL em vista?
MA | O mês de setembro é o mês das doenças de sangue e nesse sentido a APCL organiza as suas jornadas nacionais (este ano na 4ª edição), realizadas em modo virtual no dia 22 de Setembro. O programa e as inscrições gratuitas estão disponíveis no site da APCL.
As Jornadas deste ano têm como tema “Uma visão sobre as doenças hemato-oncológicas em Portugal”, e vão abordar as neoplasias mieloproliferativas, a leucemia linfática crónica, mieloma múltiplo, linfomas cutâneos, o estado da arte em Portugal, a intervenção do Infarmed e ainda a apresentação dos resultados do estudo Patient Voice.
Promovemos ainda, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Hematologia e a indústria farmacêutica, o lançamento de bolsas de estudo. A escolha dos trabalhos vencedores é feita por um júri de especialistas em cada matéria, indicados pela SPH e APCL.
Temos ainda agendadas outras reuniões temáticas, que podem ser consultadas no nosso site.


