News Farma (NF) | Qual o panorama português sobre esta doença?
Dr. Pedro Mendes Bastos (PMB) | A dermatite atópica (DA) é uma doença de pele que pode ocorrer em qualquer idade, sendo mais frequente na infância. É também conhecida como eczema atópico e estes termos são sinónimos. É atualmente considerada a doença inflamatória crónica da pele mais frequente em todo o mundo. É particularmente frequente em bebés, crianças e adolescentes, estimando-se que possa afetar 20 % da população em idade pediátrica nos países desenvolvidos. Habitualmente melhora com o avançar dos anos, podendo persistir para a vida adulta em 1/3 dos casos. Em Portugal, estima-se que a DA afete aproximadamente 360 000 pessoas, das quais 70 000 têm uma forma moderada a grave, com grande repercussão na sua qualidade de vida, capacidade de trabalho e aproveitamento escolar. No meu entender, o panorama da DA em Portugal tem sofrido avanços nos últimos anos, tendo sido feito um grande esforço no sentido de disseminar informação sobre esta doença, quer na comunidade médica, quer na sociedade. Os enormes desenvolvimentos farmacológicos e de conhecimento científico a que temos assistido recentemente trazem-nos a obrigação ética de fazer chegar soluções às pessoas que sofrem diariamente com DA. Nos últimos anos, os médicos dermatologistas que são também investigadores em ensaios clínicos também têm participado em ensaios clínicos multicêntricos, possibilitando o acesso dos doentes portugueses à inovação terapêutica e colocando o nosso país em destaque na investigação internacional em DA, o que é algo muito relevante e que importa sublinhar.
NF | Quais os principais diagnósticos diferenciais que podem gerar dúvidas em contexto clínico?
PMB | O médico de família é habitualmente o primeiro contacto do doente com o sistema de saúde. O especialista em MGF está familiarizado com esta doença, particularmente na faixa etária pediátrica, pela sua apresentação clínica mais típica. É importante transmitir que acreditamos existir subdiagnóstico e subtratamento de alguns adultos com DA moderada-a-grave, importando sublinhar que o especialista em MGF deve estar atento a esta doença em doentes de todas as idades. A DA em idade adulta pode apresentar-se clinicamente de forma semelhante à DA em idade pediátrica, com eczemas crónico-recidivantes nas pregas (mais frequentemente antecubitais, popliteias, cervical, etc.), ou então de forma diferente, com eczema fundamentalmente em áreas localizadas (como as pálpebras, face ou mãos), em eritrodermia (com ~90 % de envolvimento do tegumento cutâneo) ou outras. Em idade adulta, outros diagnósticos podem simular DA, nomeadamente linfomas cutâneos, psoríase, toxidermias, dermites de contacto alérgicas, dermatoses infeciosas, etc. Por isso, a partilha destes casos com o especialista em Dermatologia é importante, quer para o estabelecimento do diagnóstico correto, quer para início de terapêutica adequada.
NF | Apesar de não haver cura, que tipo de tratamentos poderão ser utilizados para combater esta doença?
PMB | A DA é uma dermatose imuno-mediada que não tem uma causa simples ou única: é determinada pela interação entre fatores de predisposição genéticos e fatores ambientais. Não é uma doença alérgica, e, apesar da sua fisiopatologia não estar ainda totalmente elucidada, as alterações na barreira epidérmica e a disfunção imune do tipo Th2 são os dois vetores fundamentais para desencadear e perpetuar a DA. O tratamento é dirigido aos dois vetores fundamentais que concorrem para a perpetuação da DA: a otimização diária da função barreira da pele e a utilização de terapêutica anti-inflamatória. Enquanto a primeira é comum a todos os graus de gravidade, a segunda irá variar conforme o grau de gravidade de cada doente, entre terapêuticas apenas tópicas ou complementando terapêutica tópicas com sistémicas e/ou fototerapia.
NF | Os hábitos de vida poderão ser também um fator importante. Que hábitos devem ser recomendados pelos especialistas?
PMB | Os hábitos de vida essenciais para as pessoas com DA prendem-se com a otimização da função barreira da pele, através da utilização de produtos bem formulados de higiene e emolientes, uso de vestuário adequado bem como minimização de estímulos irritativos à pele. Encontrar estratégias personalizadas de controlo de stresse e evitar o tabagismo, ativo ou passivo, também são recomendações úteis.
NF | Quanto à dermatite atópica moderada a grave, que soluções já existem? Têm surgido novas soluções que os doentes ou os profissionais sentissem falta para combate a esta doença?
PMB | As pessoas que vivem com formas moderadas a grave de DA são aquelas que não conseguirão controlar a sua doença de pele com os tratamentos habituais, vulgarmente designados por tratamentos tópicos (cremes, pomadas, loções e outros produtos de aplicação na pele). Estas pessoas precisam frequentemente de complementar os tratamentos tópicos com medicamentos sistémicos (sejam elas, orais ou injetáveis). Para bebés a partir dos seis meses, crianças, adolescentes e adultos com DA moderada a grave, encontram-se neste momento aprovados vários fármacos inovadores, incluindo medicamentos biotecnológicos (de administração subcutânea) e orais (inibidores da via Janus-Cinase). Nos últimos seis anos, foram aprovados pelas Agência Europeia do Medicamento (EMA) vários novos medicamentos para o tratamento da DA moderada a grave, que são eficazes e seguros. Trata-se de uma excelente notícia para as pessoas que sofrem com esta doença diariamente e, por vezes, há vários anos, tendo já tentado vários tratamentos imunossupressores, cuja eficácia e segurança não corresponde às necessidades de controlo de longo prazo que a DA implica. O acesso a estas novas soluções terapêuticas inovadoras ainda não é ideal em Portugal e teremos de refletir sobre novas formas de permitir a equidade para todos os doentes com DA moderada a grave. Consultar o estudo “Dermatite Atópica: Melhorar o Acesso dos Doentes aos Cuidados de Saúde em Dermatologia”, publicado online, no passado 17 de maio de 2023, no Portuguese Journal of Dermatology and Venereology, permitirá compreender de forma mais aprofundada o que está em cima da mesa neste momento.
NF | De que forma estas soluções terapêuticas e não farmacológicas podem melhorar a qualidade de vida dos doentes?
PMB | O prurido é o sintoma cardinal, podendo ter um impacto devastador na qualidade de vida, perturbando o sono, as aprendizagens e a concentração para trabalhar. Quando questionados, os doentes frequentemente referem que a sua primeira prioridade é o controlo do prurido; e logo depois a melhoria das lesões cutâneas. O prurido na DA é mediado fundamentalmente por interleucinas (prurido não histaminérgico); neste sentido, a utilização de anti-histamínicos na DA tem um efeito mínimo no seu controlo, sendo necessário controlar a inflamação de forma adequada e ajustada à gravidade de cada caso. Possibilitando uma estabilização da dermatose e redução do número de crises ao longo do tempo, a melhoria na qualidade de vida chegará, com otimização do sono e sendo novamente possível levar a cabo as atividades do dia a dia de forma mais normal possível.


