“Umas Jornadas cada vez mais globais, que mantêm o seu foco na melhoria contínua da prática clínica na área cardiovascular”

09/01/24
“Umas Jornadas cada vez mais globais, que mantêm o seu foco na melhoria contínua da prática clínica na área cardiovascular”

Nuno Bettencourt, membro da comissão científica das Jornadas de Actualização Cardiovascular (JAC), destaca os temas que assinalam a edição de 2024, cujo fio condutor é, mais do que nunca, a multidisciplinariedade, através das valências de áreas que, naturalmente, se complementam. Em contagem decrescente para o evento, que decorre de 10 a 12 de janeiro, o especialista realça a evolução da Medicina nos últimos 35 anos e de que forma a área se tem de adaptar aos desafios que os doentes apresentam atualmente na prática clínica.

News Farma (NF) | Em contagem decrescente para as Jornadas de Actualização Cardiovascular 2024, qual o fio condutor para esta edição?

Nuno Bettencourt (NB) | Diria que o principal fio condutor desta edição é a multidisciplinariedade. Todos os anos, abordamos os temas da área cardiovascular de uma forma holística, envolvendo diferentes especialidades. Mas em nenhuma edição como esta a complementaridade das diferentes valências se fez notar tanto como na edição deste ano. Temas como a obesidade, a diabetes, a hipertensão, doença vascular e a prevenção cardiovascular, no seu conjunto são, por definição, multidisciplinares. É por isso com muita satisfação que vemos as JAC2024 incluir colegas de Medicina Geral e Familiar, Cardiologia, Medicina Interna, Endocrinologia e Cirurgia Vascular. Umas Jornadas cada vez mais globais, que mantêm o seu foco na melhoria contínua da prática clínica na área cardiovascular.

NF | Este ano o evento que começou por ser apenas direcionado à Medicina Geral e Familiar e que agora abrange outras áreas da Medicina, celebra 35 anos. Atualmente, quais identifica serem os principais desafios das pessoas com doença cardiovascular, em que medida o paradigma se tem vindo a alterar?

NB | A Medicina evolui de uma forma incrível nos últimos 35 anos. Desde a criação das jornadas no final da década de 80, até aos dias de hoje tivemos desenvolvimentos revolucionários em praticamente todas as áreas da Medicina cardiovascular. Basta lembrar o desenvolvimento do área diagnóstica, com técnicas cada vez mais avançadas como a TC e a RM cardíaca, o tratamento médico da insuficiência cardíaca, praticamente inexistente à data da fundação, o tratamento da doença coronária com técnicas e fármacos cada vez mais eficazes, a prevenção do AVC com o desenvolvimento da anticoagulação, enfim, um número impressionante de marcos históricos que aos poucos têm tido um impacto muito positivo na sobrevida e na qualidade de vida destes doentes.

Chegados aqui, diria que o maior desafio atual é sermos capazes de proporcionar o mesmo nível de tratamento a todos os cidadãos do país. É muito evidente a heterogeneidade regional em termos do acesso a estes avanços da Medicina na área cardiovascular. Juntos, como comunidade, temos a obrigação de difundir o conhecimento e tentar alargar o acesso às melhores práticas clínicas. Essa é parte integrante da missão destas Jornadas desde a sua fundação. Sabemos que somos apenas uma pequena gota no oceano, mas há que valorizar uma fonte que “pinga” há mais de 35 anos e que não mostra sinais de secar.. “Água mole em Pedra Dura”...

NF | Além dos clássicos relacionados com “electrocardiografia/arritmias, a doença coronária e a prevenção cardiovascular”, foram acrescentados temas alvo de atualizações das recomendações científicas, como a insuficiência cardíaca, hipertensão arterial e diabetes e, ainda, a doença da aorta e a doença arterial periférica. De que forma os temas selecionados para a edição deste ano permitem dar mais bagagem aos colegas numa tentativa de melhoria dos cuidados de saúde destes doentes?

NB | Tem razão em chamar “clássicos” a alguns destes temas que são presença obrigatória nas nossas Jornadas e que todos os anos os colegas nos pedem para que sejam reforçadas. É natural que assim seja, porque são situações com as quais temos de lidar diariamente e que impactam de forma muito significativa grande parte da população que seguimos. Por outro lado, os temas que foram alvo de atualizações das recomendações recentemente são mandatórios nestas jornadas, ou não fossem elas chamarem-se precisamente Jornadas de Actualização. É mesmo este o mote das jornadas: mantermo-nos atualizados e capazes de proporcionar aos nossos pacientes a melhor orientação clínica possível à luz dos conhecimentos actuais. Há novos fármacos, novas indicações, novas evidências e os clínicos devem-se esforçar por acompanhar todas estas novidades. Durante dois dias e meio, teremos a possibilidade de discutir as principais evoluções da área cardiovascular e, estou certo de que sairemos mais informados, mais esclarecidos e capazes de tomar melhores decisões clínicas.

Como sabe, os temas das Jornadas de cada ano baseiam-se, sobretudo, nas sugestões dos participantes da edição anterior. E foi muito agradável verificar que as áreas de interesse se alargam tornando estas jornadas verdadeiramente multidisciplinares: e é por isso que este ano temos dois temas (a doença da aorta e a doença arterial periférica) que fazem parte do dia a dia dos Cuidados de Saúde Primários e são de referenciação habitual à Cirurgia Vascular. É por isso um orgulho poder juntar à nossa equipa colegas da Cirurgia Vascular que são verdadeiras referências nestas áreas. As nossas Jornadas são, cada vez mais, um lugar de integração das diferentes perspetivas e valências da área cardiovascular.

Outra das novidades deste ano é o curso pré-congresso “Obesity & me”. Com um valor de inscrição muito reduzido, este curso – que decorrerá em simultâneo como já consagrado “CardioAction” – pretende sumarizar a evidência na área do tratamento da obesidade e suas comorbilidades, capacitando os clínicos a uma melhor tomada de decisão. A obesidade é a epidemia da nossa era e o interesse crescente nesta área anuncia uma revolução em curso. Vamos estar atentos!

NF | Que apelo ou convite gostaria de fazer aos colegas para participar no evento?

NB | Estamos em períodos muito conturbados em termos de políticas de saúde e tudo está a mudar na articulação dos Cuidados de Saúde Primários e Hospitalares. Mais do que nunca, é essencial que centremos os nossos esforços na qualidade da prestação dos cuidados de saúde à população. Estou profundamente convencido de que, cada vez que nos juntamos para discutir estes temas e partilhar as nossas experiências saímos mais enriquecidos e com uma nova bagagem científica, com consequências práticas na nossa clínica diária. Saímos melhores profissionais e os nossos doentes ficam a ganhar.

É por isso que a organização apela à participação de todos e está a desenvolver esforços para que ninguém fique de fora por questões financeiras. Os apoios da indústria farmacêutica à formação médica têm vindo a diminuir, como resultados das políticas de saúde e do medicamento em Portugal. Cientes desta realidade, criámos inscrições de valor reduzido para internos e séniores. Além disso, para todos os que desejem participar mas que não conseguiram este ano apoio da indústria temos no nosso site (www.jornadasdecardiologia.pt) um link ao qual se acede logo na primeira página “Ainda não tem inscrição?” e que informa a organização do interesse e ausência de apoio. Dentro das nossas possibilidades, tentaremos encontrar solução para assegurar inscrições a todos os candidatos. Contamos com todos!

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