Segunda edição das Jornadas de Investigação Clínica CUF destaca IA na Medicina

14/01/25
Segunda edição das Jornadas de Investigação Clínica CUF destaca IA na Medicina

No programa das 2.as Jornadas de Investigação Clínica CUF sobressai a inteligência artificial (IA) aplicada à Medicina e à investigação. “Falar das múltiplas aplicações de IA em Medicina é incontornável, mas o exercício da Medicina vai, e creio que irá sempre, muito além disso. Concretamente, falar de IA em investigação é falar de dados, big data. É uma utilização mais antiga, mas que permite conhecer, e associar, populações e determinadas patologias”, refere. Leia a entrevista a Ana Serrão Neto, diretora médica dos Estudos Clínicos da CUF Academic Center e membro da Comissão Organizadora das Jornadas.

Jornal Médico (JM) | A IA entrou no léxico do quotidiano muito por conta do Chat GPT – um modelo de linguagem baseado em deep learning. Contudo, na Medicina, a aplicação de modelos de inteligência artificial, em várias áreas de investigação (por exemplo Big Data), já tinha começado a ser implementada há algum tempo. No seu entender, que alterações na forma de investigar foram aceleradas pela utilização de IA e que vieram para ficar e serão abordadas pelos palestrantes?

Ana Serrão Neto (ASN) | Falar das múltiplas aplicações de IA em Medicina é incontornável, mas o exercício da Medicina vai, e creio que irá sempre, muito para além disso.

Concretamente, falar de IA em investigação é falar de dados, big data. É uma utilização mais antiga, mas que permite conhecer, e associar, populações e determinadas patologias. Quanto mais afinados e sofisticados forem os algoritmos, melhor nos ajudam a caracterizar o risco de uma população sofrer de determinada patologia. Refiro um exemplo concreto: os países nórdicos têm bons registos clínicos informatizados e conseguiram, com algoritmos personalizados, calcular o risco de uma determinada pessoa vir a desenvolver cancro do pâncreas ou a sofrer um acidente vascular cerebral. Outro exemplo concreto é o diagnóstico de cancro da pele: existindo grandes bases de dados é possível fotograficamente identificar com precisão casos suspeitos. Estas ferramentas permitem diagnosticar uma doença grave numa fase muito precoce com evidente melhoria no prognóstico. A IA tem uma aplicação enorme em Medicina Preventiva, o que, com o aumento da longevidade do ser humano, vai ser muito importante. A monitorização à distância por meio de dispositivos médicos é outra importante aplicação da IA, também associada à doença crónica e envelhecimento.

Em concreto nos ensaios clínicos, a IA pode acelerar todo o tempo de um ensaio desde o seu início até à sua conclusão e comercialização de um determinado fármaco. Para se ter uma ideia, um medicamento novo pode demorar dez anos até ser comercializado. Se a IA for aplicada em diversas fases de um ensaio, este período pode ser encurtado em vários anos, com o consequente benefício para os doentes.

JM | A pensar nos profissionais que estão a realizar o seu internato médico na CUF, há uma mesa focada neste período decisivo de formação. Certamente, também um período de alguma incerteza nos caminhos a seguir. Que passos devem ser tomados para integrar a investigação durante o internato, de uma forma recompensadora para todas as partes?

ASN | O currículo dos internos há muito tempo que inclui a obrigatoriedade de realizar trabalhos de investigação clínica, nomeadamente análises de casuísticas e investigação translacional, ou seja, aplicar uma determinada descoberta ao mundo real, ao doente real. Outro aspecto relevante de um trabalho de investigação, para o médico interno, é a aprendizagem do rigor científico, aspecto que deve estar colado ao exercício da Medicina, para segurança dos doentes.

Permitam-me ainda um aparte, no seguimento da pergunta anterior, porque não posso deixar de referir a importância da IA no ensino médico. O ensino por meio de simulação só é possível com IA e a simulação aplicada ao ensino permite melhorar as skills dos médicos em formação.

JM | O segundo dia das Jornadas integra um curso satélite de revisão teórico-prática de procedimentos nos ensaios clínicos. Muito intensivo e detalhado, cobre os vários passos e áreas dos ensaios clínicos, mostra ainda o nível de competências e diversidade dos recursos humanos envolvidos. Como comenta a capacidade e massa crítica do universo CUF para dar resposta à demanda exigida pelos critérios e requisitos internacionais dos ensaios clínicos?

ASN | Os procedimentos de A a Z de um ensaio clínico são muito burocráticos, meticulosos e trabalhosos e nele estão envolvidos diversos grupos profissionais clínicos, médicos investigadores, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos.
Todas estas equipas são agrupadas pelos study coordinators. São os coordenadores de estudos que colam, se assim me posso exprimir, todos os passos de um ensaio. Este cargo é exercido por vários elementos, oriundos de diversas licenciaturas e mestrados ligados às Ciências da Saúde.

Para lidar com a complexidade do processo e para melhorar a eficiência dos ensaios, é fundamental criar rotinas transversais. Isso só é possível com equipas conhecedoras da área e com trabalho multidisciplinar. Acreditamos que este curso será uma boa formação para contribuir para esse objetivo.

Sobre a massa crítica, a CUF tem equipas de Coordenadores de Estudos bem organizadas e com o conhecimento técnico, capazes de dar resposta a todos os requisitos internacionais dos ensaios clínicos. O próximo passo é criarmos uma rede de referenciação clínica para investigação. A CUF tem um movimento assistencial muitíssimo relevante, e incrementar a referenciação interna vai permitir potenciar as nossas taxas de recrutamento de doentes e tornarmo-nos ainda mais competitivos.

JM | Ainda no primeiro dia haverá um momento especial que será a cerimónia de atribuição de Bolsas de Doutoramento CUF. Acredita que esta é uma iniciativa que incentiva a participação dos profissionais de saúde que exercem na rede CUF em atividades de investigação?
ASN | A CUF valoriza a investigação o que por sua vez motiva os profissionais de saúde. Além das Bolsas de Doutoramento em Medicina CUF e das Bolsas de Doutoramento em Enfermagem e Técnicos CUF, que vão ser entregues durante as 2.ºas Jornadas de Investigação Clínica CUF, temos outros programas de incentivo à investigação que reforçam o compromisso da CUF com a excelência e a inovação na área da saúde.

JM | A par da atribuição deste prémio pecuniário, de que forma será apoiada e incentivada a concretização destes projectos de investigação e estudo, no contexto da formação e das atividades das unidades CUF?

ASN | A CUF Academic Center tem uma equipa técnica de suporte à investigação. Para além dos Coordenadores de Estudo que apoiam ensaios clínicos e estudos da iniciativa do investigador, disponibilizamos um serviço de biblioteca, de análise estatística, secretariado e data center, ou seja, temos as ferramentas necessárias para os investigadores trabalharem nesta área. Assim haja vontade. E parece-me que há! O número de médicos que completam mestrados e doutoramentos é muito significativo. Parece estar a aumentar o gosto pela atividade científica e académica.

Saiba mais sobre o evento aqui.

Partilhar

Publicações